Joice Berth fala sobre construção de afetos das mulheres negras na atualidade

O feminismo negro está em alta. Essa constatação não é feita apenas pelo fato de o mercado editorial parecer estar cada vez mais aberto para autoras negras falarem de seus saberes intelectuais e ancestrais, mas, principalmente, por ver mulheres negras falando cada vez “mais alto e escuro”. A exaltação a essa mudança de posicionamento, entretanto, não pode esconder questões importantes que estão acontecendo dentro do movimento feminista.

O afeto sempre foi um sentimento difícil de ser construído na vida das mulheres negras e o advento das redes sociais, que num primeiro momento parecem facilitar a criação de relações, passou a ter uma lógica quantitativa e, consequentemente, comercial que faz com que sejam reproduzidos comportamentos de carência e de superficialidade observados nas vida offline.

“As mulheres, de um modo geral, estão sempre buscando migalhas afetivas que, com a comunicação via rede social, seriam curtidas, compartilhamentos, visualizações, etc. E muitas vezes não conseguem perceber que isso é um novo instrumento de manipulação não só nas relações afetivas. As interações via redes sociais se transformaram em instrumento de poder: se eu gosto de você eu curto, se não gosto ignoro. Número de seguidores virou moeda de troca e seguidores não são pessoas, são números a serem negociados com empresas. Infelizmente, não há o menor cuidado com o humano por trás da tela. Há um jogo perigoso de narcisismo aliado a ambição material que alimenta a possibilidade do exibicionismo.”, explica Joice Berth, arquiteta, urbanista e autora do livro “O que é empoderamento?”.

Ela faz questão de enfatizar que, apesar do protagonismo que o feminismo negro e seus grupos de apoio têm conquistado, ainda há um caminho longo a ser percorrido na construção de um afeto entre as mulheres negras:

“Pensando na questão racial e seus efeitos na população negra, tem o auto ódio manifestado nas relações através de boicotes, invisibilização e apagamentos, relações que a gente pensa que são de amizades, mas são utilitárias e interesseiras”.

Esta falta de autoestima e compreensão de si antes de entender-se no meio do todo afetarão, consequentemente, as relações amorosas, que na era digital, de acordo com a autora, seguem uma fórmula de manipulação através de migalhas de interação. Algumas mulheres negras acreditam que investir em relacionamentos afrocentrados fará com que escapem de situações como essa, por esperarem do homem negro um envolvimento mais consciente. Mas Joice Berth desconstrói essa ideia ao dizer que nem todo o movimento está vivendo o mesmo debate.

“Eu não acho que as relações inter-raciais estão sendo debatidas, elas estão sendo atacadas com forte apelo do machismo, porque esses ataques são apenas para relações inter-raciais que envolvem mulheres negras, os homens negros continuam muito tranquilos com seus passaportes brancos sendo ostentado em todos os espaços. A mulher negra é preterida e/ou pressionada a aceitar qualquer embuste em nome do amor afrocentrado. Isso é uma bobagem. Porque não vejo relações afrocentradas por aqui. Vejo a população negra se digladiando, se maltratando, em um conflito interno que parece velado, mas não é, lutando pela aceitação da branquitude e negociando sua dignidade por isso. Falando de um modo genérico, porque não me limito a falar somente da questão racial, vivemos um momento de crise de afetos, as pessoas estão muito amantes de si mesmas e deixando de lado a possibilidade do crescimento pessoal que vem com a diversidade de interações sociais”.

Crescimento pessoal, aliás, é a chave para a construção de qualquer tipo de relacionamento e o que vai fazer com que o conceito “solidão da mulher negra” fique no passado. Sendo importante pontuar que, para a intelectual, esse debate não passa apenas pela autoestima feminina, mas também da autoestima dos homens que as cercam.

“Esse assunto não é unilateral. Não depende somente da nossa conscientização para se resolver. É uma pauta da questão racial, embora todo mundo que estuda e lida com a questão racial finja que não. Precisamos que o homem negro consiga depurar o racismo que internalizou, passe a cultivar a autoestima que perdeu há séculos, para depois conseguir olhar para a mulher negra como uma parceira em potencial. Eu não sou e nunca fui contra as relações interraciais. Elas não são um problema em si. O problema são as intenções e contextos estruturais em que elas acontecem, sobretudo quando partem do homem negro”, problematiza Joice Berth.

Ela lembra que já namorou homens de etnias diferentes da dela e que em nenhum momento questionou-se sobre sua própria negritude. Para ela, a questão não está no embate “relacionamentos afrocentrados x relacionamentos inter-raciais” e sim em como você está com a sua identidade e com a identidade do movimento do qual faz parte.

“Eu já tive namorados negros, brancos, asiáticos. Para mim são homens e não influem na relação que eu tenho comigo mesma enquanto mulher negra. Mas seria problemático se eu apenas me relacionasse com homens brancos… O que é esmagadoramente comum com homens negros, os números e estudos estão aí para provar o que estamos falando. Mas, para além disso, as relações entre pessoas negras estão deterioradas e precisam ser revistas. Muitas vezes, nas relações entre homem negro e mulher negra a violência e o desrespeito que vem pela expressão do auto ódio
estão totalmente presentes. Não vejo homens negros valorizando mulheres negras nunca. Então não é a relação interracial o problema, é a mentalidade desses homens que está comprometida”, explica a arquiteta, que faz um alerta:

“Precisamos cobrar das mulheres brancas, sobretudo as que se posicionam como feministas, uma atitude com relação a isso, pois envolve elas também. Afinal, um homem adoecido pelo racismo e que a procura com intenções outras, que não tem nada a ver com amor e afeto, a qualquer momento vai transformar a relação em algo abusiva, no caso, de ambos os lados, como vejo muito por aí”.

Lídia Michelle Azevedo

Formada em Comunicação Social - Jornalismo pela UFRJ, em 2009, já passou pelas redações do Jornal dos Sports, Assessoria de Imprensa do IBDD (Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiencia) Revista Ferroviária, Expresso, Extra, Canal A e atualmente está na assessoria de comunicação da Fundação Cecierj.

Um comentário em “Joice Berth fala sobre construção de afetos das mulheres negras na atualidade

  • 24 de março de 2019 em 16:28
    Permalink

    Homem negro é “migalha” “embuste”?! Quanto auto-ódio. Quanta expressão de racismo em falas e descaso com uma luta historicamente coletiva. Os números mencionados mostram o contrário do que foi dito. “Homens negros não valorizam mulher negras nunca”. Que os absurdo. Como se apenas a mulher negra ficasse livre de expressar racismo em auto-ódio ou que o branco estivesse livre para ser o ser de mais consciência.

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