Restaurante exibe imagens de escravizados em cardápio e cliente denuncia: “a comida ficou atravessada”

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Um cardápio de restaurante com a ilustração da pintura de Jean-Baptiste Debret, onde escravizados carregam sacos com grãos de café em fazenda, chamou a atenção da atriz Mariana Sousa. Em seu story no Instagram, Mariana relatou que “a comida ficou atravessada, pediu a conta e saiu do restaurante”, após ver a pintura no cardápio do restaurante Bar da Pracinha, no Alto da Boa Vista (RJ).

Toda essa situação aconteceu no dia 09 de maio e na rede social a artista abriu uma caixa de perguntas para desabafar sobre o caso com seus seguidores, questionando o que eles achavam. Em certo momento, um internauta disse que era uma afronta, racismo e nojento. A atriz respondeu: “Falando em nojo, quando eu cheguei e abri o cardápio não vi a gravura, então pedi bebida, tira gosto e observei algumas pessoas comendo pizza que também me deu vontade. Fui olhar o cardápio para ver outras coisinhas, aí eu vi a gravura e quando eu vi pedir a conta, a comida me embrulhou e até aqui até agora”, respondeu.

Continuando a interação com os seguidores, um deles falou que isso é um fato para ficar na história, não para ser representado. A atriz respondeu: “É claro que os fatos históricos ruins não devem ser esquecidos porque a gente precisa dele para procurar novos rumos, rumos melhores e não colocar uma gravura dessa no cardápio de um restaurante onde é uma experiência agradável. E finalizo a resposta levantando a reflexão de como o restaurante queria que os consumidores negros se sentissem ao ver o cardápio?”, questiona.

As pinturas do artista plástico francês Debret são conhecidas por retratar o período escravista de uma forma peculiar pintando indígenas e a diáspora, com influência do neoclassicismo, sendo também um dos desenhistas da primeira bandeira do Brasil junto a José Bonifácio.

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Visão histórica

Quadro Debret “Carregadores de Café a caminho da cidade”

O Notícia Preta pediu ao historiador e mestrando em Educação sobre Museus e Divulgação Científica pela Faculdade de Educação na Universidade Federal de Minas Gerais (FAE – UFMG), Henrique Bedetti para falar um pouco sobre a obra e pintor.

Segundo ele, as obras de Debret são fortes em expressões que perpetuam até os dias atuais na sociedade brasileira, onde a diáspora é apenas retratada na visão do europeu. De acordo com o professor, no quadro “Carregadores de Café a Caminho da Cidade”, as expressões corporais, os olhares, as situações em que figuram os protagonistas oferecem uma ideia de aceitação do negro considerado cativo. Sugere a naturalização e normalização da condição de escravizado, do trabalho desumano e exaustivo, sugerindo até mesmo a ideia de que as relações entre escravizados e senhores eram harmoniosas.

Henrique concluiu dizendo que “Hoje temos como missão desconstruir a ideia harmoniosa no processo escravista, faz-se necessário falar de toda dor e humilhação imposta, […] Porém, os sujeitos retratados nas obras de Debret não esboçam insatisfação ou sequer reação à condição desumana impresse pela escravidão. É isso que o racismo quer manter como verdade”.

Restaurante sofre ameaças

Em entrevista ao portal Notícia Preta, Roni Russo, um dos sócios-proprietários contou ser um apreciador da história e, por este motivo, a decoração do restaurante é feita com objetos e gravuras que apresentam o passado da região da Floresta da Tijuca, mesmo local que a gravura mostra. O empresário ressalta ainda que o rodapé da imagem contextualiza a fotografia “escravos transportando o café para cidade na época da devastação da floresta, no espaço que hoje é a floresta original”.

Triste e decepcionado com a situação e em decorrência das ameaças e calúnias que o estabelecimento vem sofrendo. Roni diz que está buscando meios judiciais para solução do caso. Ele afirma entender o ocorrido, porém a forma que o restaurante foi sinalizado é incorreta. Segundo ele, a atriz poderia ter chegado até eles e falado pessoalmente, que com toda certeza iriam retirar o cardápio e pedir desculpas, pois essa jamais foi a intenção do bar. O cardápio já se encontra atualizado e sem a imagem.

Tentamos contato com Mariana, porém até o momento da publicação desta matéria não houve retorno. Porém ela conclui a sequência do stories do seu Instagram dizendo que não tem vontade de boicotar o restaurante como um seguidor opinou, apenas levar uma reflexão para eles retirarem a gravura do cardápio e pensar como os clientes negros se sentem ou porquê causar o mal estar.

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