Racismo no BBB 19: a edição com mais negros tem escancarado o racismo no Brasil

A edição do Big Brother Brasil deste ano é disparada a mais representativa no que diz respeito ao movimento negro. São 4 participantes negros no BBB 19 que estão dando um show de paciência, representatividade e luta contra o racismo.

O primeiro avanço a ser considerado é a quantidade de negros nesta edição. Por ser um programa que tem por objetivo refletir a realidade brasileira, ter uma quantidade grande de negros e pardos é algo fundamental, uma vez que a população é formada por maioria negra e parda, segundo o último levantamento do IBGE.

Por este motivo, as discussões sobre racismo nesta edição do programa são bem mais frequentes, o que pode ser visto como positivo também, já que possibilita que os debates se estendam às casas das famílias brasileiras que assistem ao programa, e que muitas vezes só tem acesso a programação da TV aberta.

Porém, esse avanço não impede que o racismo deixe de se refletir no reality show da TV Globo. Muito pelo contrário. Por justamente refletir a sociedade como ela é, em menos de 1 mês de exibição do programa vários episódios de racismo já foram televisionados e outros editados.

Quem são os negros do BBB 2019?

Para iniciar a discussão sobre o racismo no Big Brother Brasil, é preciso conhecer quem são os participantes negros desta edição. Vamos lá então:

Danrley de 19 anos, estudante de Biologia e vendedor de picolé.

Gabriela de 32 anos, designer gráfica e percussionista.

Rízia de 24 anos, jornalista.

Rodrigo de 40 anos, cientista social especializado em Direitos Humanos e dramaturgo.

Racismo no BBB: entendendo os episódios de racismo na edição 19 do programa

Bem, agora que entendemos quem são os personagens negros que fazem parte do elenco 2019 do BBB, vamos entender como tem sido o dia a dia deles dentro da casa e os desafios enfrentados pelos participantes até agora.  

Como em todos os ambientes da sociedade, os episódios de racismo são recorrentes, sendo vistos como algo natural e normal. Porém, é necessário sim problematizá-los e utilizá-los como uma oportunidade de educar as pessoas, que muitas vezes são racistas por ignorância, falta de informação.

O ronco do Rodrigo

Como todos sabem a mansão do BBB tem apenas dois quartos e são dezesseis participantes (à época do ocorrido eram dezoito). Sendo assim, todos eles precisam de forma harmônica dividir esse espaço para que todos possam dormir tranquilamente.

Tudo começou quando a sister Isabella deu uma de síndica da casa. Ela chamou todos os participantes para uma conversa bem séria: o ronco do Rodrigo. Outra participante, a Paula chegou a sugerir “fazer um rodízio de Rodrigo” em tom de brincadeira.

Rodrigo, disse visivelmente constrangido que era para deixar leve, porque “estava pesado” para ele. Em outro momento, Rodrigo disse ainda que seria capaz de “passar a madrugada acordado” e quando todo mundo acordasse ele poderia dormir.

Por fim, após muita discussão o participante disse “Já entendi tudo e quero que a experiência aqui seja a melhor possível, apesar dos pesares”.

Foi dito e feito. No mesmo dia da reunião, Rodrigo passou a noite do lado de fora da casa para não incomodar os participantes.

Você pode estar se perguntando: está bem, mas em que momento foram racista com o Rodrigo?

A resposta é que além do Rodrigo outro participante também ronca e muito, Gustavo (eliminado na última terça-feira dia 29). Inclusive a participante Hana levantou este tópico em uma conversa, dizendo que não faria sentido algum reclamarem do ronco do Rodrigo, sendo que o Gustavo continuaria no quarto.

Gabriela chegou a sugerir que se tratava de um ato racista, porém Rodrigo disse que seria muito cedo para dizer que poderia ser isso e que causaria um certo desconforto na casa.   

Por incrível que pareça, na mesma madrugada, Isabela, a que propôs a reunião de condomínio, tentava beijar Maycon enquanto o Gustavo roncava no quarto.

A repercussão desse episódio foi tão ruim, que a tag #ForaIsabella foi criada para mostrar a indignação dos telespectadores na web.

O cabelo ruim e drogas da Paula

Durante uma discussão sobre shampoos para cabelos cacheados entre Hana e Gabriela no quarto das meninas, a participante Paula disse que também tinha cabelo ruim. Tudo aconteceu quando Gabriela disse que havia emprestado seu shampoo para Helena pois ela tem cabelo cacheado.

Gabriela ficou indignada com a reação de Paula e disse que “ruim é o preconceito”. A bacharel em direito concordou com Gabriela e disse que era mania “mas quando tem umas dobrinhas assim, a gente já fala que não é lisinho”.  

Para concluir o assunto Gabriela alertou que de fato é dessa forma, mas que “a gente precisa mudar isso”.

Ao conversar com drogas com o participante Danrley e outros brothers, a participante contou que já fez uso de maconha e questionou o participante: “Você já experimentou maconha?”. No entanto Danrely respondeu que nunca havia feito uso de drogas na vida.

Sem acreditar, Paula fez de que não estava ouvindo o brother e continuou insistindo “deixa de ser bobo menino, pode falar, eu não conto pra ninguém”. Danrley continuou negando o fato.

Os internautas concluíram que para Paula, é inconcebível um jovem negro morador da favela da Rocinha nunca ter usado drogas. Por que será, hein?

O racismo inverso de Tereza

Uma outra conversa que mostra como o racismo é uma pauta importante de ser discutida, as sisters Rízia e Gabriela se abriram e contaram os casos de racismo sofridos por ela ao longo da vida.  Em determinado momento, a participante Tereza declarou que elas não sabiam como “mulheres brancas de olho claro passam por racismo“.

A própria Tereza logo se encarregou de pedir desculpas, pois entendeu que havia dado um nome errado à situação vivida por ela. Isabella questionou se o que Tereza disse tratava-se de racismo ou não dizendo: “É racismo, né não?“.

Com muita paciência e didática, Gabriela novamente interveio e disse que não existe racismo invertido no Brasil. Segundo a participante, “racismo é um sistema de opressão”, e que para os negros serem opressores, seria necessário que estivessem no poder, o que não acontece no país.

Após a explicação, Isabella disse haver entendido dizendo que o racismo era mais…, no mesmo instante, Rízia e Gabriela interviram dizendo que “não é mais…” enfatizando que o racismo só atinge negros.

Diego e o assassino ‘louco’

Em uma conversa envolvendo os participantes Paula, Hariany e Diego, a sister estudante de direito comentou sobre um caso de feminicídio, onde a vítima foi morta a facadas, com faca de pão.

Segundo Paula, a vítima levou 34 facadas e disse que o que mais a surpreendeu era que o assassino ‘era branco’. No que Hariany perguntou o motivo do crime, Paula disse que esperava que o autor do crime fosse um ‘faveladão’ e que quando viu um ‘cara branquinho’ que morou na Austrália ou no Canadá, pensou que fosse impossível que ele teria feito aquilo.

Neste momento, o participante Diego retrucou dizendo que “o cara era louco mesmo, então”. Paula concordou com o brother, mas reforçou que a vítima do caso era ‘mana’ mesmo, daquelas de “chegar e ficar falando ‘toda assim’”, imitando o jeito que a mulher que foi assassinada se expressava.

Neste outro episódio, percebe-se um exemplo escancarado de machismo e racismo estrutural.

São muitos os comentários preconceituosos e recheados de estereótipos que estão trazendo a tona, o quanto o preconceito está enraizado nas conversas e cotidiano do brasileiro.

A quem diga que não assiste o BBB por causa do conteúdo fútil que o programa apresenta. Mas por coincidência ou não, a edição com mais participantes negros tem sido a que mais aborda pautas relevantes e lições dignas de aula para os telespectadores.

Antes mesmo de começar, um participante foi eliminado por condutas inadequadas anteriores a seleção do programa, e um outro também foi eliminado ao ser investigado por estupro, agressão física e importunação ofensiva ao pudor.

O que você tem achado desta edição do programa? Acredita que as questões raciais deve ser abordadas no reality show? Deixe seu comentário logo abaixo 😉


Gleidistone Silva

Especialista em Marketing Estratégico e Branding e bacharel em Publicidade Propaganda pelo Centro Universitário UNA de Belo Horizonte, já atuou na área de marketing de cosméticos durante 4 anos. Atualmente integra o time da Rock Content, maior startup de Marketing de Conteúdo da América Latina. Além disso, produz conteúdo para a #TomtomTV no IGTV e no Youtube. Lá são abordados temas relacionados a negritude, moda e life style masculino

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