Após 14 anos na TV Brasil, Luciana Barreto fala sobre trajetória e já conversa com outras TVs: “Precisamos abrir o espaço e entender que o público quer ver mulher preta’

Foi um casamento de 14 anos e um mês com a TV Brasil. Até que, na segunda-feira, 14 de janeiro, assim que acabou de apresentar o Repórter Brasil, ao lado do colega Marcelo Castilho, a jornalista Luciana Barreto soube que seu contrato não seria renovado com a Empresa Brasil de Comunicação, diferentemente do que acontecia todos os anos. O anúncio em seus perfis nas redes sociais, dias depois, pegou de surpresa e deixou consternados amigos e telespectadores. Era a saída da mulher negra e periférica que havia se tornado o ícone da TV pública. 

No texto de despedida, no entanto, ela fez questão de destacar um sentimento: o de gratidão. Uma das principais apresentadoras (se não a principal apresentadora) da TV Brasil, Luciana conquistou prêmios e, junto com a TV pública, deu voz e protagonismo aos personagens excluídos do jornalismo tradicional.

Esse mesmo jornalismo que ela conhece bem e que contribuiu para sua formação profissional. Antes de ir para a TV Educativa, Luciana trabalhou no Canal Futura, GNT, BandNews, TV Bandeirantes. Embora estivesse na grande mídia, sempre teve um olhar atento ao que chama de pautas negligenciadas. Na TV pública, esse olhar se potencializou, mas com mais liberdade de abordar diferentes questões, sobretudo a racial.

Foto: Mazé Mixo

No momento, Luciana conversa com algumas TVs abertas e acredita que é possível continuar o trabalho que desenvolvia no jornalismo público: “Acho que chegou o momento de utilizar essa minha abertura e facilidade com TV e audiovisual para dar um pouquinho mais de força para nossas causas. É importante que as TVs percebam o que construí nesses 15 anos de TV pública. Esse público que me segue entende que vou continuar um trabalho semelhante, de não deixar passar despercebidas várias causas importantes da população brasileira. Em TV, a gente precisa abrir o espaço e entender que o público que a gente leva para a TV e que segue a gente nas redes sociais é o mesmo que quer ver mulher preta nesse lugar. Temos que entender que, quando a Maju (Maria Júlia Coutinho) ocupa o Jornal Nacional, o público vibra porque quer vê-la naquele espaço. A TV aberta precisa parar de ser resistente a isso, com o discurso de quem não temos esse profissional. Temos. Não só eu. Temos vários profissionais”, ressalta.

Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Luciana Barreto, hoje com 41 anos, fez o curso de Comunicação Social – Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), graças a um projeto social da ONG Educafro, que oferece curso pré-vestibular comunitário a negros e carentes. Quando começou na faculdade, passou a ser professora de Português e coordenadora do pré-vestibular onde estudou, no mesmo projeto. Ficou por dez anos lá.

A atuação em movimentos sociais foi um dos ingredientes que transformaram Luciana numa mulher forte, atenta, inquieta. Essas características ela levou para o jornalismo, destaca: “Tenho formação de uma jornalista mulher, negra, que foi para o vídeo, mas que tem origem na Baixada Fluminense, na periferia, na pobreza. De uma pessoa que vem de movimentos sociais, de comunidades eclesiais de base, movimentos católicos. Ou seja, tem toda questão pessoal aí. Essa inquietação eu já levei para o jornalismo. A prevalência nas grandes redações é de homens brancos e ricos. Então, é muito comum eles terem olhar muito específico. A gente, mulher preta, de periferia, quando vai para a redação, agrega outro valor às pautas”, conta.

Foto: Arquivo pessoal – Luciana Barreto

Foi na TV pública que ela encontrou espaço para as reportagens preteridas nos grandes veículos. Perguntada quando começou essa confluência, não sabe ao certo, mas revela que ficou encantada com a possibilidade de fugir do jornalismo tradicional: “Já tinha me fortalecido em TV, sabia fazer cobertura ao vivo — a BandNews me formou muito bem — e estava querendo avançar. Apesar de tudo isso, estava fazendo aquele jornalismo tradicional, já questionava uma série de olhares sobre determinadas pautas. Quando vem a possibilidade de eu ser a principal âncora de um jornal, eu falei: “Opa! É a chance de fazer essa interferência”. A partir daí, foi uma construção. Isso não existia no jornalismo público, a gente tinha ainda um jornal mais parecido com o tradicional das outras TVs, e eu fui dando esse olhar. Em determinado momento, quando vi, a gente já tinha um jornalismo com essa cara, muito focado no serviço da população, além de valorizar personagens da história brasileira, que também eram negligenciados, como, por exemplo, no centenário do Lima Barreto; ou abrir espaço para uma Conceição Evaristo, mostrar para o Brasil o trabalho de uma Ruth de Souza. Tudo isso era o olhar que a gente estava trazendo o tempo inteiro”.

Além do diálogo com outras TVs, Luciana pensa em novos caminhos. O cinema é um deles. Ano passado, ela trabalhou no pré-roteiro e conduziu as entrevistas do documentário “A Última Abolição”, da diretora Alice Gomes. A área acadêmica também é um desejo da jornalista, que está prestes a concluir o mestrado em Relações Étnico-Raciais, no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet-RJ), com o tema Discurso de Ódio contra Negros nas Redes.

Em TV, a gente precisa abrir o espaço e entender que o público quer ver mulher preta naquele lugar’

“Penso em ser professora universitária. Já até tenho uma ementa que experimentei ano passado na Unig (universidade em Nova Iguaçu). É uma ementa de relações étnico-raciais. Acho que é uma coisa necessária para a formação humana e profissional de todas as áreas. Na Medicina, para entender doenças negligenciadas que são ligadas à população preta; na Psicologia, para entender conceitos, como auto-ódio ou sobre como a  população preta parou no manicômio; na História, para entender por que o protagonismo negro não está presente nos livros. Se a polícia tivesse algo parecido, a população brasileira teria um ganho incrível na abordagem policial.  Ou seja, toda as áreas seriam beneficiárias de uma ementa que falasse sobre educação antirracista”, pontua Luciana.

O jornalismo público perdeu Luciana Barreto, mas, como a própria jornalista diz, o universo quis mais para ela. Nós ficamos aqui na torcida, ansiosos para assisti-la novamente na TV, dando destaques a tantas vozes, às nossas vozes.

ENTREVISTA

Luciana Barreto: ‘A TV pública é muito maior do que eu. O projeto de jornalismo público precisa ser maior do que qualquer nome.’

Notícia Preta: Você já esperava que seu contrato não fosse renovado?

Luciana Barreto: Meu contrato é de um ano e todo ano renova. Toda vez vez que muda de governo, a gente tem essa tensão e eu já passei por cinco governos. Então, tive a mesma tensão que já tinha, aliado ao fato de o vencedor das eleições dizer que ia fechar a TV. Era uma promessa de campanha. Então, estava preparada para uma notícia semelhante a essa. Só que foram me tranquilizando, diziam que eu era a cara da TV pública, que isso não iria acontecer. Até que numa sexta-feira me tranquilizaram e na segunda-feira, exatamente dia 14, disseram que não iriam renovar.

Qual foi sua reação? 

Eu simplesmente não argumentei porque acho que nesses momentos não cabe argumentação. É sim ou não. Mas falei que a gente precisava preparar uma estrategia para o entendimento da população, já que eu tinha ficado muito tempo na TV pública, muitos telespectadores se identificavam com o meu trabalho e meu trabalho se misturava com a TV pública. Tudo que era relacionado à TV pública, eu apresentava: o jornal, carnaval, Sem Censura, todos os programas de entrevistas, todos os programas especiais, que iam de olimpíadas a pan-americanos, jogos mundiais, as propagandas da TV. Então era algo que falei que a gente precisa preparar porque é o momento de um Brasil muito polarizado e eu realmente não queria, de verdade, que houvesse uma tensão, queria o público entendesse que eu tinha uma gratidão muito grande pelo trabalho que a gente desenvolveu na TV pública. E eu fiz um post mostrando essa gratidão e mostrando quais são os caminhos que eu acredito ser a vocação da TV pública. Gratidão por  ter 15 anos feito trabalho que amo e me divertido. Me senti muito orgulhosa de um trabalho que a população entendia. Era um trabalho para população.

Como foi a reação dos colegas de trabalho?

 Assim que terminei o jornal, já tinha uma mensagem da minha chefe dizendo: “Quero conversar com você”. Aí eu já imaginei porque era a última semana de contrato. Segurei a notícia até a véspera de eu anunciar nas redes sociais, dia 18. Quando eu anunciei na redação, na quinta-feira, 17, as pessoas ficaram muito consternadas, elas choravam muito. Segurei a notícia para não vazar entre os jornalistas e a redação, porque eles tinham um apego muito grande ao meu trabalho. Lá, eles sentiam como se eu fosse uma intocável. As pessoas ficavam o tempo inteiro depositando essa confiança. Eu estava quase sendo um termômetro para eles e eu estava com muita apreensão de como ia passar uma força para eles. As pessoas entram e saem, mas a TV pública é muito maior do que eu. O projeto de jornalismo público precisa ser maior do que qualquer nome. 

Tem alguma cobertura que tenha te marcado?

No dia do atentado na Somália, eu falei para gente correr atrás desse material, era muita gente morta. Quando cheguei na redação, tinha uma nota coberta de 40 segundos. Eu disse: “Não pode ser. A gente vai ter que reconhecer que está com olhar condicionado, de subalternidade, eurocêntrico sobre as pautas”. Então sentei com minha equipe e montamos uma pauta. Por que a imprensa dá um espaço de horas para um atentado com menos número de mortos nos Estados Unidos e na Europa e quando esse atentado tem um maior número de mortos em África, a cobertura é mínima, de segundos? E é uma reflexão, a gente precisa fazer. Isso é vocação da TV pública. Quando virei executiva, há aproximadamente sete anos, foi fundamental. Se você não tiver a caneta com tinta e o papel para modificar alguma coisa, é complicado. É um processo de articulação necessária para realmente modificar. Hoje para você ser colunista e opinar em determinados espaços onde a opinião que prevalece é opinião quase uníssona de homens brancos e ricos, é um processo de articulação, porque você é um contraponto a uma opinião única. Estou cansada de ver a Folha de São Paulo trazendo notícias contra cotas. E eu acho importante que eles abram espaço para mulher negras colunistas. Só isso que tenho a dizer (risos), porque a gente também tem que ter a essa voz, esse espaço. 

Por que decidiu fazer mestrado em Relações Étnico-Raciais?

Em 2016, fui para os EUA, no final do governo do Barack Obama, entender como funcionavam os programas sociais de combate à intolerância. Durante um mês, fui visitando vários estados e entendendo como funcionava. Conheci a plataforma, a Teaching Tolerance, no Alabama, e achei sensacional. Pensei que a gente deveria patrocinar um projeto parecido no Brasil, porque já estava começando o discurso de ódio, tinha acabando de acontecer o impeachment, mas eu tinha que fazer um projeto. Quando  voltei ao Brasil, procurei pessoas para fazer projeto, mas não encontrei. Decidi escrever um projeto despretensioso para o mestrado e passei. Aí comecei a entender discurso de ódio contra a gente, que é algo muito específico. No Brasil, a gente não tinha texto sobre isso. Só texto ligado à área jurídica, mas não tinha uma visão sociológica e eu trabalho análise do discurso: o que é esse ódio, como se manifesta esse ódio, especificamente contra negros.

O que ainda falta avançar no jornalismo em relação à questão racial?

Em 14 anos, dentro de uma TV pública, fui a primeira e única apresentadora negra do Sem Censura e em período curto de tempo. Se você pensar que a gente não avançou nem dentro do jornalismo público… Não temos uma apresentadora negra numa TV aberta fazendo, por exemplo, um talk show, recebendo convidados, falando. A gente está longe de ter uma Oprah Winfrey. E de poder falar, né? Porque era isso que eu podia na TV pública: expressar o que muita parte da população brasileira quer que se expresse.

Na sua opinião, por que existe ainda tanta resistência?

O racismo é não mais do que uma disputa geográfica por território. As pessoas estão disputando os espaços privilegiados e elas querem se manter nos espaços privilegiados, querem a manutenção dos empregos delas, da manutenção do programa que dá a cara para elas. A gente precisa da junção do branco na causa antirracista porque, quando o branco não se posiciona, ele só usufrui do benefício do racismo. Ele não consegue impedir que um comerciante rejeite um candidato negro e aceite o currículo do branco e o empregue. Ele não foi racista, mas foi beneficiado pelo racismo. Mas o branco omisso, que não se posiciona, ele só usufrui do benefício do racismo. Eu sempre estou constrangendo os brancos para eles entenderem que precisam parar de só usufruir do benefício que o racismo traz, que é essa delimitação de território.

Cintia Cruz

Formada em Jornalismo pela PUC-Rio, em 2008, é mãe do Benício, moradora da Baixada Fluminense e tem 36 anos. Trabalhou na Rádio MEC, trabalhou como assessora de imprensa, escreveu para a Revista Raça Brasil e foi freelancer do Canal Futura. Desde 2010, é repórter do Jornal Extra.

Um comentário em “Após 14 anos na TV Brasil, Luciana Barreto fala sobre trajetória e já conversa com outras TVs: “Precisamos abrir o espaço e entender que o público quer ver mulher preta’

  • 4 de fevereiro de 2019 em 14:16
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    Excelente material produzido com Luciana Barreto, que é muito competente para ficar fora da TV. Logo ocupará, novamente, o seu lugar.

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