Psicóloga alerta para a trágica consequência do racismo estrutural em corpos negros

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A constatação do alto índice de suicídio entre a comunidade negra, principalmente dos mais jovens, deixou claro que o racismo estrutural mata. Se por um lado é “comemorada” a queda do mito da democracia  racial brasileira, por outro, foi exigido da comunidade negra um poder  de ação e reação mais forte e rápido para manter-se de pé.

De acordo com dados do Ministério da Saúde e da Universidade de  Brasília, divulgados em janeiro de 2019 na coluna do Ancelmo Gois, no site O Globo, o índice de suicídios de jovens e adolescentes negros (10 a 29 anos) passou de 4,88 mortes para cada 100 mil, em 2012, para  5,88, em 2016. No Brasil, a cada dez jovens que se suicidaram em 2016 (o ano mais recente da pesquisa), seis eram negros.

“O estereótipo relacionado aos corpos negros machuca. O racismo estrutural faz com que o negro adoeça realmente. Digo isso pois hoje o lugar de fala e a possibilidade de conhecimento aumentaram e vemos pessoas enfrentando o racismo. Mas o racismo dói. Demanda muito da psiquê de cada um de nós. Ver os nossos mortos por serem negros, ver os corpos femininos banalizados ou, de uma forma mais real, sexualizados muito cedo, dói. O enfrentamento é constante”, explica Livia Marques, psicóloga, professora universitária, palestrante e  escritora, que continua:

“O racismo até então não existia no Brasil. ‘Brasil é o país da  democracia racial’, eita que frase bonita, só que não! O Brasil vela o racismo. O nosso país e a nossa sociedade vela todo esse sofrimento e o invalida o tempo todo. Hoje, negros e brancos podem achar que nossa  fala é ‘mimimi’, o que faz com que essas relações sociais possam ficar  desestruturadas por conta do enfrentamento constante. Simplesmente e infelizmente o tempo todo”.

Esse enfrentamento existe, inclusive, quando ocupa-se determinados lugares de poder e saber, como a Academia. Mesmo quando está nesses lugares de produção de conhecimento, sua presença e sua produção é questionada. O racismo estrutural, então, é apresentado de forma refinada, na maior parte das vezes, mas sempre deixando claro que  neste local não é esperada a presença de um corpo negro.

“Quanto mais subimos, mais fazemos o teste do pescoço para acharmos  nossos pares. E às vezes não os achamos. Como palestrante e psicóloga vivo isso no dia a dia. Seja presencialmente ou virtualmente. Mas não podemos nos deixar abater. Esses espaços são conquistas. E precisamos ocupá-los com todo nosso potencial e puxarmos os nossos”, afirma a  intelectual.


Afetividade

Além dos enfrentamentos vividos para ocupar lugares devidos, há também na atualidade a urgência na discussão sobre empatia e afetividade  dentro do próprio movimento negro. Assuntos como “palmitagem” e  colorismo estão em foco no momento. Compreendendo o contexto em que  isso acontece, Livia Marques pontua a importância de cada um se  entender como indivíduo antes de dar um passo na direção do outro.

“Ultimamente, estas discussões estão muito em alta, sim. Hoje, ‘palmitagem’ é algo muito debatido, principalmente quando falamos de  relacionamentos amorosos. Já perceberam? Mas eu gosto muito de  salientar que local social, que espaço esse corpo negro, por exemplo,  falando de amor, está ocupando? Pois a tendência de nos relacionarmos  com pessoas do nosso meio é maior. Precisamos realmente avaliar a  questão antes de qualquer fala ou apontamento. O colorismo também está muito discutido. Na mídia, na área de cosmética, nas cotas. E é  importante que possamos falar mais sobre, pois falamos de mobilidade social”, aponta a também professora universitária, que é didática ao apresentar o panorama da mulher e do homem:

“A mulher precisa começar a cuidar da sua autoestima e do seu amor próprio. Sua aceitação de que ela é mulher. Mulher negra que merece sim ser amada e não é apenas um corpo. Precisa entender que não deve  baixar a cabeça e ceder a qualquer um por acharem que ela não foi  feita para casar. Já os homens, a priori, precisam entender o que é amor. Que é possível amar e não ter vergonha de não acompanhar o  padrão social dele, e por isso ter que casar apenas com pessoas  brancas. Ou ter relacionamentos com pessoas brancas. O negro também é amado. Não tenha vergonha e nem se sinta inferior de ter seu amor preto”.

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Lídia Michelle Azevedo

Formada em Comunicação Social - Jornalismo pela UFRJ, em 2009, já passou pelas redações do Jornal dos Sports, Assessoria de Imprensa do IBDD (Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiencia) Revista Ferroviária, Expresso, Extra, Canal A e atualmente está na assessoria de comunicação da Fundação Cecierj.

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