57% das mortes maternas de 2020 foram de mulheres negras

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“Monitoramento mostra diminuição de apenas 1,31% em relação ao mesmo período de 2019”

Dados do Painel de Monitoramento de Mortalidade Materna do Ministério da Saúde mostram que 25 mil pretas e pardas morreram em decorrência de complicações relacionadas à gravidez, parto e outras doenças entre janeiro e setembro de 2020. Os dados de outubro a dezembro ainda não foram inseridos pelo ministério. Em 2019, no mesmo período, o painel registrou mais de 26 mil mortes de mulheres negras.

A ginecologista Larissa Cassiano atribui a porcentagem a fatores relacionados a atendimentos precários e racismo. “Sem um pré-natal adequado muitas mulheres não são diagnosticadas previamente. Além disso, a carência de flexibilização do atendimento, desfavorecendo  mulheres com jornadas estendidas de trabalho, a falta de empatia, a negligência e o racismo levam a um atendimento menos humano e mais arriscado para a gestante e o feto”, conclui a ginecologista.

Mortalidade Materna
ginecologista Larissa Cassiano

Mulheres negras são vistas como seres mais resistentes à dor há mais de um século. Por volta dos anos 1840, o médico estadunidense James Marion Sims realizava experimentos cirúrgicos obstétricos em mulheres escravizadas sem anestésicos. Sims é considerado referência para a área da Ginecologia moderna.

Mesmo depois de mais de 180 anos, a crença na resistência à dor ainda existe. Junto com ela, a desumanização de parturientes que não são nem chamadas pelo próprio nome — muitas mulheres são apenas “mãezinhas” ou números de uma senha na sala de espera de hospitais e Unidades Básicas de Saúde: 527, 049, 132.

A ginecologista também enxerga a objetificação e a desumanização de mulheres negras como agentes influenciadores na violência obstétrica e no racismo.

“Para muitas mulheres negras a objetificação começa logo no pré natal. As consultas não são explicativas e dores e queixas são negligenciadas. Até que, no momento do parto, a estrutura racista de que mulheres negras suportam mais dores obriga essa mulher a ficar ainda mais desamparada e suscetível à violência e assistências precárias”

explica a ginecologista Larissa Cassiano

Violência Obstétrica e Racismo

“Se na hora de fazer, não gritou, está gritando agora por quê?”. Esta é uma frase clássica ouvida por mulheres em trabalho de parto. De acordo com o Ministério da Saúde, a violência obstétrica acontece no momento da gestação, parto, nascimento e/ou pós-parto, inclusive no atendimento ao abortamento. 

A agressão pode ser física, psicológica, verbal, simbólica e/ou sexual. A negligência, discriminação e/ou condutas excessivas sem embasamento em evidências científicas também são classificadas como violência obstétrica.

Para a ginecologista Larissa Cassiano, diversos fatores explicam a violência obstétrica. “Um exemplo é o racismo estrutural, pautado na crença de que pessoas negras são capazes de suportar dores mais intensas sem assistência. Além disso, muitos relatos são negligenciados, deixando as mulheres mais vulneráveis a violência”, pontua. 

mulheres negras

São classificados como violência obstétrica, a episiotomia sem consentimento da mulher; a aplicação de remédios que induzam ao parto sem aviso prévio; e a Manobra de Kristeller, que é a aplicação do peso do próprio corpo na barriga da mulher. Por vezes, mulheres também são silenciadas com palavras e gritos que amedrontam e intimidam; os hospitais e a equipe médica descumprem a Lei Federal nº 11.108, que permite um acompanhante na sala de parto; e um sistema de saúde que obriga mulheres a fazerem uma peregrinação até encontrar uma maternidade que as acolha.

Esse tipo de tratamento é tão comum que muitas mulheres não conseguem identificar que passaram por um episódio de violência. “Muitas situações são naturalizadas ou feitas com a justificativa de que é o melhor para a gestante e para o recém nascido. Depois de um parto essas mulheres têm tantas questões para se adaptarem, que denunciar uma violência fica em segundo plano”, aponta a ginecologista.

Possibilidade de mudança

A pesquisa Nascer no Brasil: Inquérito Nacional Sobre Parto e Nascimento, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta que mais de 55% das gestações no Brasil não foram planejadas. Para Larissa Cassiano, esse dado já é suficiente para a elaboração de políticas públicas que abranjam planejamento familiar e educação sexual de qualidade. “A análise desse dado é extremamente importante para entendermos que falta educação sexual para conhecer métodos e a própria sexualidade, além de planejamento familiar que distribua e forneça tratamento para quem não quer engravidar”, diz.

“[Mudar essa realidade] não é algo simples. Precisamos de políticas públicas de incentivo ao cuidado e saúde das gestantes, além de informar para que as gestantes conheçam seus direitos”, conclui. 

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