Black Money: o que falta para dar certo no Brasil?

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A essa altura, o beabá da história do pós-abolição da escravidão é de conhecimento geral: negros livres e delegados à própria sorte (lê-se “azar”) sem o menor amparo. O que pouco se sabe – ou melhor: o que poucos param para pensar sobre – é que uma prática aplicada agora, em plena segunda década do século XXI, nos remete ao resgate da solução encontrada por vários recém-libertos no período pós-escravatura.


Na ausência de uma política de inserção no mercado de trabalho, negros tiveram que empreender. Há registros de várias negras que vendiam produtos feitos à mão e até acarajé, por exemplo. Hoje – não sob os mesmos moldes, verdade -, o afroempreendedorismo é uma realidade. Mas será que vem sendo desenvolvido da maneira correta? A quantas anda a política do black money, em termos efetivos?

Suzana Mattos, antropóloga e gerente de projetos do Sebrae-RJ

O Notícia Preta entrevistou profissionais de diversas áreas para entender como está esse movimento, que visa, objetivamente, a fazer o dinheiro circular nas mãos da população negra. Para Suzana Mattos, antropóloga e gerente de projetos do Sebrae-RJ, o black money vai além de ser meramente financeiro.

“A gente começa a falar de economia aqui no Brasil, a falar da circulação de riqueza na sociedade a partir da população negra. Não é só uma teoria econômica ou teoria de consumo: é um movimento político também, para transformar nosso padrão de consumo. A partir de uma perspectiva da população negra, a gente começa a pensar em investimento, em tecnologia. Quando você adere ao black money, tanto no consumo quanto na produção, acho que é um posicionamento político claro de fortalecimento e de sustentabilidade da população negra”, defende Suzana.

O lado negro da força
Entretanto, até conseguir botar em prática tal mecanismo, é preciso, primeiro, abrir um negócio. E, quando se é negro(a) no Brasil, o racismo estrutural trata de multiplicar as dificuldades de empreender.

Fernanda Alves, de 23 anos, é estudante de publicidade no Rio de Janeiro. Além, disso, a jovem é a proprietária do Queen Laces, destinado a cabelo e moda. Fernanda não tem loja física e não trabalha com estoque: é tudo por encomenda. Como a maioria da população negra, ela não vem de família rica, e isso atrapalha a expansão do seu negócio.

“A maior dificuldade é o dinheiro. Eu tenho ideias maravilhosas, planejamento completo, mas falta dinheiro. Não tenho pai rico, não tenho mãe rica… Além de ter que ter dinheiro para planejar e investir, eu ainda tenho que ter dinheiro para manter minha faculdade e minha filha de 6 anos. Imagina: uma preta, periférica, universitária e mãe solteira. Parece impossível, mas eu faço acontecer”.

Fernanda tem um ponto que também é o fio condutor para o raciocínio de Michelle Fernandes, proprietária do Boutique de Krioula. No mercado com sua empresa desde 2012, quando foi demitida de onde trabalhava e resolveu abrir o negócio, ela entende que os obstáculos financeiros são gritantes, principalmente, porque quem pode dar subsídios e incentivo fiscal parece não ter tanta disposição para ajudar.

“Sou uma afroempreendedora da periferia de São Paulo, do Capão Redondo, mulher, mãe… São várias coisas que vão deixando a gente bem para trás. São sete anos de marca, mas só em 2018 eu ganhei meu primeiro aporte, de 20 mil reais, para investir na empresa. A gente sempre vê em revista aquela pessoa que mal começou o negócio e já ganhou dinheiro da família, ganhou um aporte milionário e conseguiu se destacar no mercado. A gente, não. A gente sofre para conseguir vender nossos produtos. A gente não tem incentivo nem do banco, nem das aceleradoras. Quando a gente vai ao banco pedir um empréstimo, já recebe um não logo de cara. Também não temos educação financeira na escola, principalmente quem vem de escola pública. A gente só é ensinada a ser funcionário. A gente vai aprendendo conforme vai acontecendo, e eu acredito que isso faz com que a gente demore mais para se destacar”, afirma Michelle.

A confiança no trabalho também é diferente. Não só dos bancos, como destacado por Michelle, mas dos próprios empregadores. E Allan Felippe sente isso com frequência. O fotógrafo, dono da LaVille Fotografia há quatro anos, sabe bem como é ter seu trabalho posto em xeque.

O que falta para dar certo?


“Minha maior dificuldade é vender meu trabalho. Quando a pessoa sabe o seu potencial, tudo bem. Ela vai te contratar porque sabe que você é bom naquilo. Mas, quando ela não sabe e vê um negro com a responsabilidade de fotografar um evento importante… Eu vejo todo esse preconceito, todo esse racismo. Essa distância, esse medo que as pessoas ainda têm de confiar no trabalho do negro. Talvez, se fosse um branco, as pessoas fechariam negócio comigo ou dariam mais oportunidade”, acredita. 

Não existe uma única resposta para isso, mas há muitas sugestões interessantes. Suzana, acostumada a lidar com o problema na raiz – em 2017, idealizou o Sebrae Moda Afro, iniciativa para impulsionar o desenvolvimento de afroempreendedores – traz uma visão aprofundada.

“Se a gente analisar os levantamentos do PIB, mesmo com muita gente entre os mais pobres do país, existe uma circulação financeira expressiva na população que se classifica negra, mas esse dinheiro não está voltando para a gente. Estamos falando da sustentabilidade da população negra. A população brasileira em geral precisa entender que o racismo também afeta os empresários negros. A gente tem sempre que reforçar ações e políticas públicas antirracistas, afirmativas. O racismo cria um padrão que coloca o empreendedor negro em desvantagem competitiva no mercado. Os seus produtos são menos valorizados, por mais que sejam feitos da mesma maneira que um branco faz.”.

A premissa principal é: se você tem poder de compra, você compra de quem você quiser. Fernanda, da Queen Lace, vai por essa linha.

“Se eu posso comprar uma roupa de uma ‘mina’ preta que mora aqui do lado da minha casa, eu não vou sair daqui para comprar uma peça na Farm. Eu vou fazer na costureira preta que mora aqui perto de mim. Se eu posso comprar uma lace de uma ‘mina’ preta que mora perto de mim, não vou comprar da drag queen branca de São Paulo que está vendendo. Falta conscientização e coragem”, diz.

“A gente vê várias outras culturas que se juntaram e fizeram esse movimento e, infelizmente, o povo negro ainda não está fazendo uso disso o tanto que deveria. Mas a gente está conseguindo mudar aos poucos, mostrando que é importante ter esse dinheiro girando entre nós. A gente escolhe a quem vai dar dinheiro. O poder está na nossa mão, no nosso bolso. Escolha empresas que estão conversando com você, que coloquem você como protagonista da história”, explica Michelle, da Boutique de Krioula.

Porém, há outro viés que vale ser destacado. Mechele Gonzaga é chef de cozinha e proprietária do Poderosa na Chapa, loja que fica em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. De acordo com ela, o black money é um movimento importante, mas ela entende que nem sempre é possível colocá-lo em prática.“É muito difícil falar sobre isso, porque o país vive um momento muito difícil. Aí, a gente vê um cara que está ali também, que não é um empreendedor negro, mas também tem família para sustentar, e eu acho isso muito confuso. As coisas estão complicadas no Brasil, e a gente está brigando para viver. Eu também procuro ter fornecedores negros, mas, às vezes, não é possível. Eu trabalhava com um açougue maravilhoso, e o dono era negro. Aí, recebi uma proposta de outro açougue, de dono branco, que me deu um desconto enorme. Então, eu entendo que temos que dar prioridade, que fazer o dinheiro circular entre nós é muito legal, mas para o meu negócio continuar sobrevivendo, eu tive que fazer essa mudança”, justifica.    

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