“O que o Estado promove hoje com as famílias (das vítimas) é um terrorismo psicológico”, diz diretora do Sindicato dos Peritos do Rio de Janeiro

APOIE O NOTÍCIA PRETA

Nos últimos anos, houve um aumento significativo dos índices de violência no Estado do Rio de Janeiro, mas a população da Baixada Fluminense, sobretudo a população negra e jovem, tem enfrentado índices alarmantes.  Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) registraram nos primeiros dois meses de 2019 o aumento da violência letal, sobretudo daquela praticada pelos agentes públicos. Foram mais de 305 mortes por autos de resistência. Isso significa aumento de 22% no número de mortes em relação ao mesmo período de 2018.

Para debate os casos que homicídios na Baixada Fluminense, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio e a Comissão de Juventude realizaram, na última sexta-feira (26), uma audiência pública. Com a presença de deputados, familiares de vítimas e representantes de diferentes esferas da polícia militar e civil a audiência ressaltou que as políticas públicas implementadas pelo Governo do Estado não têm sido eficazes na redução dos homicídios.  

Um passo importante para a elucidação desses homicídios e a identificação correta dos assassinos – não podemos esquecer que muitas vezes a polícia “confunde” e prende preto ‘por engano’- é a perícia criminal. O estado do Rio de Janeiro enfrenta carências em relação ao suporte nas investigações e conclusões de crimes. A diretora do Sindicato de Peritos do Rio de Janeiro (Sindperj), Janaína Matos, ressaltou a importância da comprovação de provas físicas na garantia dos direitos humanos.“Não existe justiça e garantia dos Direitos Humanos sem prova física. Hoje investe-se pouco na inteligência, isso inclui a perícia, e foca muito na prova testemunhal. Infelizmente pessoas mentem, mudam de ideia, recuam. E aí eu não tem justiça. Hoje o Rio de Janeiro tem 8 peritos especializados em DNA. Goiás tem mais de 16. Então, quando o resultado de um exame leva dois, três, seis meses para sair é por causa disso. Não tem pessoal suficiente e qualificado nem material para a realização das perícias”.

O que o estado promove dentro dos IMLs com as famílias é um terrorismo psicológico”

Janaína Matos – Diretora do Sindperj

O debate sobre Segurança Pública não deve se resumir a um debate sobre Polícia, mas em um debate que leve em consideração o racismo estrutural e que tenha como protagonista os moradores e moradoras da Baixada Fluminense. Janaína Matos explica que a falta de investimento do Governo fere as famílias das vítimas de diversas maneiras, inclusive no momento em que o corpo da vítima está no Instituto Médico Legal (IML): “O IML da Baixada é um absurdo. A família já perdeu o parente e ainda tem que ir para um lugar que fede, cheio de moscas, um lugar onde o perito legista não pode fazer perícia a noite porque não tem luz. Se a pessoa morre a noite ela só vai ser periciada de manhã  a família está lá esperando. O que o estado promove dentro dos IMLs com as famílias é um terrorismo psicológico”.

Em 2018 o estado do Rio de Janeiro teve uma média de 400 desaparecidos por mês, segundo os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Com investimento em perícia criminal qualificada o estado poderia ter solucionado muitos desses casos: “A maioria dos homicídios na Baixada está relacionado à execução por parte da milícia ou do tráfico. Essa execução chamamos de ‘encontro de cadáveres’. Ou seja, eles matam e colocam em outro lugar, ou desaparecem com o corpo. E para investigar esse tipo de caso eu preciso de vestígios e materiais que hoje o estado do Rio não investe. Preciso analisar DNA pois, muitas vezes os corpos são queimados. Hoje temos uma gama de desaparecidos e ao mesmo tempo temos uma gama de corpos carbonizados esperando DNA. Não temos o resultado desse exame por que não temos material, não temos pessoal qualificado”, explica Janaína Matos.

No Brasil, a cada dez mortes por homicídio sete são de pessoas negras e de periferia

“Temos diversos cemitérios clandestinos do Rio e apenas três peritos em todo o estado fazem esse trabalho de análise de ossadas. É preciso realizar concurso para polícia criminal,  é essencial. É importante investir em pesquisas. Hoje a Polícia Civil não tem nenhum incentivo à estes policiais para investigar. A gente tira do nosso dinheiro para comprar material e realizar as perícias pois, o estado não investe”, declara a diretora do Sindperj.

No início deste mês (abril de 2019) o Governo do Estado do Rio garantiu que haverá concurso para a Polícia Civil e serão oferecidas mil vagas, sendo 180 para o cargo de Delegado. O novo concurso terá vagas para auxiliar de necropsia (nível fundamental completo) com salário de R$4.506, 27, técnico de necropsia (nível médio completo), salário de R$ 5.277,99 e perito legista (nível superior em medicina, odontologia, farmácia ou bioquímica), salário de R$ 8.469,34 . A previsão é de que o edital seja publicado até o mês de julho.

APOIO-SITE-PICPAY

Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e com especialização em audiovisual pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, assessora de imprensa e idealizadora do portal Notícia Preta, um site de jornalismo colaborativo. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

1 Comment

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.