Único carnavalesco negro que assina sozinho um desfile no Grupo Especial fala sobre racismo: ‘Não é mimimi. Só quem passa é que sabe’

João Vitor Araújo começou no carnaval bem cedo, aos 15 anos, e passou por muitas e diferentes etapas do processo de colocar uma escola de samba na Avenida. Apesar da experiência, o racismo sempre fez com que sua competência fosse posta em dúvida. Único carnavalesco negro que assina sozinho um desfile no Grupo Especial — ele foi contratado pela Paraíso do Tuiuti uma semana após o carnaval — João Vitor fala sobre a importância de representar quem raramente ocupa os cargos de liderança.

“Sou o único carnavalesco negro. Não sei quem se considera negro ou não, mas não estou aqui para julgar ninguém. O carnaval é negro, a origem da festa é negra, mas você vê o negro ocupando apenas o espaço de intérprete, de passista. Não que seja menos digno, mas hoje, dificilmente,  você vê um presidente negro na escola, uma liderança negra, e isso incomoda a gente um pouco”, desabafa.

Nascido e criado em Vicente de Carvalho, João, hoje com 34 anos, começou aderecista no barracão da Portela. É carnavalesco há seis anos e tem no currículo escolas como Viradouro,  Acadêmicos da Rocinha, Unidos de Padre Miguel. Na Portela, em 2016, foi assistente de Paulo Barros. Em 2014, João Vitor foi o carnavalesco da Viradouro, campeã da Serie A, que voltou à Sapucaí no Grupo Especial em 2015.

João Vitor Araújo – Fotos: Ewerton Pereira/Divulgação

Desenhista profissional com especialização em Design de Indumentária, o carnavalesco conta que sua formação e a experiência em barracões de escola de semana não são suficientes para as críticas e cobranças:

“Eu me orgulho bastante, mas a responsabilidade é triplicada porque é tudo muito comparativo. Sou aquele que tenho que ser perfeito o tempo todo e eu não sou perfeito. Ninguém é. Mas parece que o olhar sobre o João Vitor Araújo é muito maior do que para qualquer outro amigo. Se eu cometer um erro, vai ser fatal, vão cair de pau em cima, dizer que eu não soube aproveitar a oportunidade. Mas, se for outro colega, vão dizer: ‘Poxa, tadinho, não teve oportunidade. A escola não deu condições”.

Antes de se tornar carnavalesco, João passou por diferentes funções dentro de uma escola de samba. Começou como aderecista e depois trabalhou  em chapelaria, montagem, carro alegórico, montagem de protótipo e fantasias, nas escolas Portela, Mangueira, Rocinha e Viradouro, até se tornar carnavalesco em 2013.

“Acho que, para se tornar carnavalesco, é preciso conhecer bem como funciona a carcaça de uma escola de samba, passar por todos os setores. Comecei bem de baixo. Era um simples aderecista no meio de outros cem na Portela e fui crescendo  dentro do barracão gradativamente”, orgulha-se.


“Já passei por situações bem embaraçosas, do tipo: ‘você não pode fazer sozinho porque não tem boa aparência’. Eu entendi muito bem o recado.

Não é só experiência que o carnavalesco coleciona em todos esses anos trabalhando com carnaval. Ele relata também casos de racismo e lembra das vezes que seu profissionalismo foi questionado.

“Já passei por situações bem embaraçosas, do tipo: ‘você não pode fazer sozinho porque não tem boa aparência’. Eu entendi muito bem o recado em relação à boa aparência. Infelizmente, tenho que acordar todos os dias e estar pronto pra conviver com isso. Não é mimimi. Só quem passa é que sabe”, lamenta.

Enquanto tenta combater o racismo cotidiano, o jovem e experiente profissional já trabalha para o carnaval de 2020. Com o enredo “O Santo e o Rei: Encantarias de Sebastião”, a agremiação de São Cristóvão vai falar sobre a relação entre São Sebastião e Dom Sebastião.

Consciente de seu papel como negro em espaços ocupados por maioria branca, João revela que também tem sua inspiração:

“Tenho várias lideranças negras. Independentemente de profissão, se for negro, está me representando. Eu me sinto orgulhoso de ver um jornalista, um economista, um professor. Todos eles me representam, me trazem muito orgulho. São essas pessoas que me inspiram todos os dias, pessoas que lutam, que vencem.”

Cintia Cruz

Formada em Jornalismo pela PUC-Rio, em 2008, é mãe do Benício, moradora da Baixada Fluminense e tem 36 anos. Trabalhou na Rádio MEC, trabalhou como assessora de imprensa, escreveu para a Revista Raça Brasil e foi freelancer do Canal Futura. Desde 2010, é repórter do Jornal Extra.

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