Portugueses pensam em “violência e insegurança” quando perguntados sobre o Brasil, aponta pesquisa

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Um estudo realizado pelo Instituto Paraná Pesquisas divulgado na última segunda-feira (26), revelou que quase dois terços dos portugueses (65,7%) pensam em ”violência” ou “insegurança” quando são perguntados sobre o Brasil. Em segundo lugar, aparece a imagem de “alegria”, mencionada por cerca de  62,9% dos entrevistados, seguida por “corrupção”, citada por  57,7%.

Segundo a pesquisa, honestidade é a característica menos associada aos brasileiros, com aproximadamente 4,5%. Aliás, outro ponto pouco relacionado ao Brasil é o “trabalho”, que foi citado por 4,9% dos participantes da pesquisa. No entanto, mais de metade dos lusitanos  pensam em “futebol” e por volta  de um quarto lembram de “mulheres bonitas”, como um elemento típico do nosso país. 

Portugueses pensam em “violência ou insegurança” quando são perguntados sobre o Brasil, em pesquisa realizada no início do mês /Foto: Reprodução/ Agência Brasil/ Marieta Cazarré

Em entrevista ao Notícia Preta, o professor de História e mestrando em Filosofia, Wellington Marques, comentou sobre essa percepção dos lusitanos sobre os brasileiros. “Como professor de História, é importante salientar uma abordagem crítica, analítica e contextualizada do caso, tendo em vista que o discurso estereotipado dos portugueses em relação ao Brasil é disseminado de uma maneira propulsora, o que nos impede de compreender a relação e a história entre esses dois países”, disse.

O professor ainda acrescentou: “Considerando que a abordagem estereotipada simplifica e generaliza a complexidade das relações culturais e históricas que se iniciaram na colonização portuguesa a partir de 1500. É importante o estudo e o ensino adequado para romper com esse paradigma, elaborando uma compreensão mais rica e heterogênea dentro dessas complexas relações entre Brasil e Portugal”.

Com base em números, 36,5% dizem ter uma percepção “ótima” ou “boa” do país sul-americano, contra 14,4% que responderam “ruim” ou “péssima”, e outros 47,7% que escolheram a opção “regular”. Contudo, com base no levantamento, a imagem negativa sobre o Brasil  predomina em Portugal e se sobressai em comparação com “alguns aspectos positivos”.

O Instituto Paraná entrevistou em média 840 moradores de Portugal por telefone entre os dias 8 e 17 de fevereiro de 2024. A margem de erro da pesquisa é estimada em 3,4 pontos percentuais.

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Wellington ressalta que é  importante enfatizar a diversidade e identidades culturais de cada país. Segundo o mestrando, os discursos discriminatórios podem contribuir e até mesmo reforçar estigmas, “preconceitos generalizados”, e consequentemente  envolver discursos de ódio e atos de violência. Porém,  ele enfatiza que “tais discursos não correspondem à população total portuguesa”.

A colonização no Brasil pode ser vista como positiva para os portugueses, tendo em vista as conquistas e riquezas que foram atribuídos a Portugal, porém, pode causar o abstraimento dos impactos negativos sobre as populações indígenas e a escravidão africana. Quando entramos nas percepções do mundo contemporâneo, as relações entre portugueses e brasileiros são complexas e estão para além da história colonial, que abrange interações culturais e econômicas”, afirmou.

De acordo com Marques, a história contada por eles podem afetar as relações e visões atuais, “dependendo de como a história se segue pode ocasionar em mudanças significativas em relação da visão entre brasileiros e portugueses, podendo surgir até mesmo acirramento entre as partes, conforme se segue a história, se tratando em verídica ou inverídica”, informou.

Segundo Mikael Cardoso, professor de História, é possível perceber esses  discursos dos portugueses em diversas esferas. “Por meio das mídias digitais, dentro dos debates acadêmicos e também dentro do senso comum, infelizmente. É possível encontrar discursos xenófobos sendo reproduzidos a todo o momento”, enfatizou, em entrevista ao NP, afirmando a importância de combater o preconceito.

Para ele, a Antropologia mostra que o etnocentrismo tem como consequência direta o preconceito, que consequentemente causa violência. “A visão eurocêntrica dos portugueses em relação aos brasileiros reflete diretamente o processo extremamente violento que foi a nossa colonização. Naquele momento da História, a colonização era vista como símbolo de desenvolvimento avançado, desbravamento, expansão e domínio”, disse. 

Ainda acrescenta que: “A questão é que se ignora o outro lado, o lado dos povos nativos que aqui estavam e foram dizimados. A colonização é um processo histórico que permanece vivo na mentalidade de muitas pessoas e pode se manifestar por meios dos mais variados discursos preconceituosos até os dias de hoje”.

Mikael ressalta a importância de superar a mentalidade “arcaica do eurocentrismo dentro mesmo até das nossas relações diárias”. Conforme Cardoso, “Reproduzidos discursos de rebaixamento de nós mesmos de forma quase automática”. Ele enfatiza que sempre alerta os seus alunos sobre a importância de sempre olhar para o outro lado da narrativa histórica, “que inclusive é o nosso lado”.

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Aline Rocha

Aline Rocha

Aline Rocha é Graduada em Licenciatura em Linguagens e Códigos- Língua Portuguesa, pela Universidade Federal do Maranhão. Pós-Graduada em Linguagens, Suas Tecnologias e o Mundo do Trabalho pela Universidade Federal do Piauí. É integrante do grupo de pesquisas: GEPEFop LAPESB- Laboratório de pesquisa Pierre Bourdieu: Análise sobre a prática pedagógica.Atuou como bolsista no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), na qual ministrou aulas de Língua Portuguesa nas turmas do 6º ano e 9º ano, tanto na modalidade regular como na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Entre 2018 a 2020. Atuou como bolsista Capes no Programa Residência Pedagógica, em que ministrou aulas de Língua Portuguesa nas turmas do 9º ano, 1º ano e 3º ano do Ensino Médio, entre 2020 a 2022. Atuou como monitora voluntária na disciplina de Linguística Textual, na turma 2018, do curso de Linguagens e Códigos-Língua portuguesa, na Universidade Federal do Maranhão. Atualmente é Professora da Educação Básica e pesquisadora Antirracista.

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