Pátria de chuteiras: livro que relata superação do racismo para o triunfo da seleção em 1958 concorre a prêmio Amazon

Djalma Santos, Didi e Pelé emocionados com o primeiro título mundial (Crédito: Arquivo / O Globo)

Final da Copa do Mundo da Suécia. Com quatro minutos de jogo, o Brasil sofre 1 x 0 dos donos da casa. Oito anos após a derrota para o Uruguai em pleno Maracanã, a seleção brasileira parece fadada novamente ao fracasso em uma decisão no futebol. Eis que Didi, o “príncipe Etíope”, coloca a bola sob o braço e caminha serenamente da sua meta até o meio-campo – o resto é história. O gesto simboliza a mudança de paradigma que aquela equipe provocou no esporte no país, como analisa o jornalista Fábio Mendes no livro “Campeões da raça: os heróis negros da Copa de 1958”, um dos quatro finalistas do prêmio Livro-Reportagem Amazon (o vencedor será anunciado entre 01 e 15 de Fevereiro).


Até então, os jogadores negros e mestiços eram considerados emocional e psicologicamente inferiores. Um dos casos exemplos mais notórios do preconceito nacional foi a culpabilização do goleiro Barbosa pelo Maracanaço por toda a sua vida. No estafe do time canarinho e, mais abertamente, na imprensa estes atletas eram atacados. Como reação, em geral, a resiliência. O problema, que ainda persiste nos estádios pelo mundo, é consequência da sua existência na população em geral. Por isso, o combate precisa ser amplo e institucional.


“Vejo a conquista como um marco porque ela derrubou o maior mito racista existente no futebol brasileiro da época: o de que negros e mestiços eram mais instáveis psicologicamente. Até 1958, era opinião corrente que atletas negros “amarelavam” em jogos decisivos e que esta era uma razão pela qual o Brasil não obtinha sucesso em torneios internacionais. Isso mudou ali porque quem se mostrou mais preparado psicologicamente foram justamente os negros”, aponta Fábio Mendes.


A obra do jornalista conta como ocorreu a montagem daquela que é considerada a nossa melhor seleção de todos os tempos, rivalizando com a de 1970, e o quanto o racismo afetou este processo. Pelé e Garrincha, por exemplo, não foram titulares desde o início. O Rei do Futebol, por sinal, é personagem principal no debate sobre o posicionamento de atletas sobre o tema.  


“É gritante a diferença de posicionamento entre os jogadores brasileiros e os franceses, por exemplo. Lá, eles são militantes da causa antirracista e sempre falam, nas entrevistas, das dificuldades que enfrentam por serem negros, imigrantes ou descendentes. Algo parecido ocorre na Bélgica. No Brasil, contam-se nos dedos os que fazem isso e muitos sequer se classificam como negros. Infelizmente, por aqui ainda evoca-se a falácia do “vitimismo”, analisa o escritor.


A recente vitória da França na Copa do Mundo da Rússia, em 2018, evidenciou ainda mais a questão. Com um elenco formado majoritariamente por negros, a conquista foi celebrada por afrodescententes como um triunfo da África, o que gerou reação de nacionalistas – são franceses e ponto. Em contraponto, nas derrotas em mundiais anteriores, os atletas que não eram brancos foram atacados. O paralelo com aquele Brasil é inevitável.


“Assim como a conquista de 1958 serviu para jogar um pouco de luz para a situação do jogador negro no Brasil, o título de 2018 foi importante para unir os diferentes recortes sociais da sociedade francesa. Até porque, a maioria dos jogadores da seleção francesa nasceu no país, tem no Francês sua língua materna e seu hino é a “Marselhesa”. Embora muitos sejam filhos ou netos de imigrantes, eles estão muito mais ligados à França que aos países de seus pais e avós”, analisa Fábio Mendes. 

Conquista de 1958 muda a maneira como os negros eram vistos no futebol brasileiro (Crédito: Arquivo/O Globo)

 
CONFIRA ABAIXO A ENTREVISTA COMPLETA


Qual o histórico da participação do negro no futebol nacional em geral até a Copa do Mundo na Suécia? A participação e protagonismo (ou não) nos clubes se refletia nas convocações?

O jogador negro começou a ganhar espaço no futebol brasileiro especialmente a partir dos anos 1920. Até então, este era um esporte exclusivamente branco, porque disputado apenas pela aristocracia paulista e carioca. Mas o povo logo se apaixonou pelo futebol e começou a disputar partidas nas ruas e terrenos baldios. Com isto, foram surgindo grandes talentos entre a população mais pobre. Consequentemente, muitos negros e mestiços despontaram no futebol. Com a profissionalização, no início dos anos 1930, o negro passa a se tornar protagonista do futebol brasileiro. Os maiores astros da época (Leônidas da Silva, Domingos da Guia e Fausto dos Santos) eram negros. 

A partir desta época, todo bom time contava em seus times com muitos jogadores negros e mulatos. Afinal de contas, estes eram os mais talentosos atletas à disposição e os clubes não podiam abrir mão desta vantagem. Esse protagonismo também se refletiu na Seleção Brasileira. O racismo, nessa época, se refletia de outras formas. Por exemplo: os jogadores negros sofriam uma cobrança muito maior após resultados negativos. E, não raro, eram colocados como bodes expiatórios nas derrotas mais retumbantes. Um caso clássico foi a derrota na final da Copa de 1950: o Brasil perdeu a competição por causa da desorganização dos dirigentes e da empáfia do próprio time, que só precisava do empate e achou que ia golear o Uruguai. Mas toda a culpa recaiu sobre os jogadores negros (Barbosa, Bigode e Juvenal). O goleiro Barbosa, aliás, se tornou um ícone daquela derrota e passou o resto da vida sendo cobrado (e até insultado) pelo resultado. O impacto foi tão forte que até hoje resiste a ideia de que goleiro negro não é confiável. 


A derrota em casa em 1950, com Barbosa e outros apontados como culpados, foi um passo atrás em relação ao sucesso de Leônidas e outros até ali, não?

Sem dúvida. O Brasil montou grandes times nos anos 1930 e 1940, com os jogadores negros como grandes destaques. Em 1938, o Brasil chegou muito perto de ser campeão, mas faltou experiência. Por isso, esperava-se que em 1950, jogando em casa e com um time tão ou mais forte, pudéssemos nos consagrar como uma potência futebolística. Mas a derrota abalou nossa autoestima e deu combustível para que os racistas fizessem emergir todo o tipo de comentário preconceituoso contra os craques “de cor”, como se dizia na época. Isso só mudou com o título na Suécia.


Você costuma destacar que os ataques e ofensas eram feitos abertamente na imprensa. Pode nos apontar algum exemplo que mostre como isso se dava?

O que mais me chamou a atenção, ao pesquisar a imprensa da época, eram as “análises” de alguns comentaristas e jornalistas, que falavam abertamente que a raça tinha peso no aspecto psicológico do time. Isso era escrito naturalmente na imprensa e motivou um movimento oposto, de quem não acreditava nestas teses racistas. Um assunto absurdo como esse ganhou espaço na imprensa em tom de debate. Fiquei abismado ao constatar isso.


Integrantes da Confederação em seus relatórios sobre o desempenho do selecionado em 1950 e 1954 apontavam a negritude como um problema?

A primeira vez que esse tipo de comentário ganhou peso em relatórios foi em 1956, logo após a participação da Seleção Brasileira em uma longa excursão pela Europa. O técnico era Flávio Costa (o mesmo da Copa de 1950). Ele chegou mesmo a falar do “banzo” (a saudade de casa que afetava os escravos levados da África) como um fator a abalar psicologicamente o time. Antes disso, tudo era mais velado por parte dos técnicos e dirigentes, só os jornalistas abordavam isso diretamente.


Como você entende que os jogadores negros, a época, lidavam com isso? Conversou com alguns remanescentes?

Não consegui conversar com os remanescentes. A maioria já morreu e alguns estão doentes ou afastados do contato com o público. Mas em entrevistas antigas pude constatar um fato interessante: a maior parte dos jogadores negros negava ou minimizava os fatos publicamente, mas deixavam claro nas entrelinhas que o racismo existia, ao reproduzir frases e comentários dirigidos a eles no passado. Isso mostra que muitos jogadores sofriam racismo, mas entendiam que a melhor forma de superar este obstáculo era ignorá-lo em vez de combatê-lo.

 
Você aponta a vitória da seleção brasileira em 1958 como um marco para a integração do negro no futebol brasileiro. Por quê?

Vejo esta conquista como um marco porque ela derrubou o maior mito racista existente no futebol brasileiro da época: o de que jogadores negros e mestiços eram mais instáveis psicologicamente. Até 1958, era opinião corrente que jogadores negros “amarelavam” em jogos decisivos e que esta era uma razão pela qual o Brasil não obtinha sucesso em torneios internacionais. Isso mudou com o título na Suécia, porque os atletas que se mostraram mais preparados psicologicamente foram justamente os negros. Nos momentos mais graves, como os primeiros minutos da final contra o time da casa, foram eles quem seguraram o rojão. 


Na sua visão, atualmente, o racismo no futebol aumentou, diminuiu ou se mantém no mesmo patamar do que o observado nos anos 1950?

O racismo nunca deixou de existir no futebol brasileiro. A grande mudança provocada pela conquista na Suécia foi o fim da velha tese de que jogador negro “amarelava” em decisões. Mas o preconceito contra os goleiros negros continuou. Tanto que, de 1950 para cá, apenas uma vez tivemos um goleiro negro como titular de uma Copa do Mundo: Dida, em 2006. 

De resto, nada mudou. Pelé continuou sendo chamado de “macaco” pelos torcedores a carreira toda. Outros jogadores, menos famosos, eram ainda mais hostilizados. Nos últimos anos, houve uma visibilidade maior nos casos de racismo e isso tem feito com que o problema não seja mais colocado para debaixo do tapete, como antes. Mas será preciso muita vontade política para resolver um problema que, na verdade, é estrutural e não tem a ver com o futebol apenas, mas com toda a sociedade brasileira. 

Kanté, símbolo da “França negra” e descendente de imigrantes (Crédito: Franck Fife/AFP)


Os jogadores, como Pelé, nosso maior ícone, ou mesmo Romário e Neymar, deveriam se posicionar mais sobre o tema para ajudar a combatê-lo? E por que não o fazem?

Sim, sem dúvida. É gritante a diferença de posicionamento entre os jogadores brasileiros e os franceses, por exemplo. A França vive hoje um quadro muito parecido com que o Brasil vivia nos anos 1950. O time é fortemente miscigenado, com grande presença de negros e mestiços no time. Quando o time é campeão, são todos franceses, mas quando perdem, os atletas viram “imigrantes” ou “descendentes de africanos”, sendo estas classificações colocadas de forma pejorativa. Em 2010 e 2014, quando a seleção francesa deu vexame, os líderes de extrema-direita culparam abertamente os jogadores negros pelos maus resultados. Obviamente, estes se calaram em 2018. 

A diferença em relação ao Brasil é que os jogadores negros são militantes da causa antirracista. Eles sempre falam, nas entrevistas, das dificuldades extras que enfrentam por serem negros, imigrantes ou descendentes. Também denunciam quando recebem injúria racial e apoiam entidades de defesa dos negros e indígenas. Algo parecido ocorre na Bélgica, que montou um excelente time formado também por descendentes de imigrantes. No Brasil, contam-se nos dedos os que fazem isso e muitos sequer se classificam como negros. Infelizmente, por aqui ainda se evoca a falácia do “vitimismo”.


Que lições podemos tirar da construção da vitória da Seleção de 1958 para reforçar a luta contra o preconceito – na sociedade e no futebol?

A principal lição a ser tirada da seleção de 1958 é que as qualidades e defeitos de uma pessoa são fruto de uma combinação de sua personalidade e sua formação como cidadão (pela família e sociedade), não da cor da pele. A Seleção Brasileira acordou para este fato a tempo de corrigir uma enorme injustiça: deixar os maiores jogadores do mundo no banco por causa de teses infundadas. Como o futebol tem uma influência fortíssima nas engrenagens da sociedade brasileira, essa vitória contra o racismo teve um impacto considerável no país. Ela abriu os olhos dos brasileiros para o preconceito sofrido pelos negros em várias searas e que, até então, não era percebido por muitos.

Outra lição que surgiu desse episódio foi da importância da luta contra o preconceito (e isso não vale apenas para o quesito racial). Em 1958, era muito mais difícil se posicionar contra o racismo e, por isso, os jogadores tiveram de atuar de forma mais sutil. Mas nunca deixaram de lutar e foram finalmente recompensados pela determinação. Hoje, há vários mecanismos de defesa contra o racismo e a xenofobia, que devem ser utilizados sempre que necessário. A luta não pode parar e essa foi a grande lição que os heróis negros de 1958 nos deram. 


Observando o comportamento da imprensa na cobertura do esporte e de casos de racismo no futebol, há uma melhoria na percepção do tamanho do problema ou estamos estagnados?

Houve uma melhoria, ainda que discreta. Os meios de comunicação estão muito mais abertos a receber esse tipo de denúncia e a divulgá-la do que há 40 ou mesmo 20 anos. Esse tema, inclusive, se tornou frequente no noticiário a partir de 2014, quando pipocaram vários casos graves envolvendo jogadores mais famosos e até juízes.

O grande problema é que o assunto ainda é tratado de forma superficial. Um exemplo disso é a “fulanização” do racismo. Ou seja: evita-se abordar o problema como algo estrutural, e que afeta coletivamente a sociedade, para falar de uns poucos indivíduos, como se fossem a exceção e não a regra. Um exemplo clássico ocorreu no Rio Grande do Sul, quando a torcida do Grêmio cometeu injúrias raciais contra o goleiro Aranha, então no Santos. As câmeras de TV flagraram alguns torcedores chamando-o de “macaco”. Estes foram punidos pela lei, como deve ser feito, mas a cobertura jornalística ficou excessivamente focada nestas pessoas em especial, quando na verdade toda uma ala da torcida estava envolvida no caso. 


Acha possível fazer um paralelo no impacto do triunfo daquela seleção com a conquista da França em 2018 tanto para a questão do racismo, quanto para a da imigração?

Sim, a comparação é totalmente pertinente. Assim como a conquista de 1958 serviu para jogar um pouco de luz para a situação do jogador negro no Brasil, o título de 2018 foi importante para unir os diferentes recortes sociais da sociedade francesa. Até porque, a maioria dos jogadores da seleção francesa nasceram no país, têm no Francês sua língua materna e seu hino é a “Marselhesa”. Embora muitos sejam filhos ou netos de imigrantes, eles estão muito mais ligados à França que aos países de seus pais e avós. O título de 2018 (assim como o de 1998) pode deixar isso mais claro a quem não havia percebido.

Cipriano Jr

Cursou Comunicação Social (Jornalismo) na UFRJ e atuou como repórter na EBC, no diário Lance! e na MBPress - aqui, produzindo conteúdo para a editoria de esportes dos portais UOL e IG. Atualmente, trabalha como analista na equipe digital da FSB Comunicação. Publica quinzenalmente textos de opinião e ficção em seu espaço no Medium. Twitter: @cizenando_ Medium : @cizenando

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: