Indicado ao Prêmio Shell o espetáculo ‘Esperança na Revolta’ é um grito de resistência da cena teatral negra

Sem patrocínio, mas com muita luta e suor. Foi assim que o espetáculo ‘Esperança na Revolta’, da Confraria do Impossível, começou. Um início árduo, mas que tomou um rumo à altura da qualidade do espetáculo e da companhia: a indicação à 31ª edição do Prêmio Shell de Teatro. O espetáculo idealizado, pensado, escrito e apresentado por profissionais negros, foi indicado em três categorias: Autoria (Confraria do Impossível), Direção (André Lemos) e Música (Béa e André Lemos).

A peça que trata dos efeitos da guerra e da reação do homem à violência tem no elenco os atores Alex Nanin, Cláudia Barbot, Cátia Costa, Tarso Gentil, Daniel Vargas, Lívia Prado, Nádia Bittencourt, Beà e Reinaldo Junior. A direção é de André Lemos. O objetivo do espetáculo é mostrar como a violência atinge a todos, é uma guerra sem vencedores, mas ainda há esperança.

Espetáculo Esperança na Revolta – Confraria do Impossível – Foto: Divulgação

Para a atriz Claudia Barbot a indicação ao Prêmio é a concretização de um trabalho feito com muita luta e dedicação: “Receber a notícia da indicação ao Prêmio foi como voltar a respirar por um momento, perder a respiração e voltar a respirar. Um alívio, um pouco de tudo. Foram muitos tipos de emoções. Receber um prêmio tão mainstreaming, vendo o valor que a gente já sabe que nosso trabalho tem é muito emocionante. Você ver cruzar as coisas que são importantes para o mercado com as coisas que a gente acredita ser importante para a sociedade, é muito emocionante. Foi a validação do outro do que a gente já sabia que era muito importante. Ter essa validação é importante para o futuro para conseguir criar nosso nome enquanto companhia preta”, diz a atriz.

‘Esperança na Revolta’ é um espetáculo de resistência, segundo o diretor André Lemos: “Somos resistência por  não estarmos em um ciclo necessariamente comercial, por fazermos parte de uma perspectiva de um grupo negro, marginalizado periférico, por falarmos questões que necessariamente não são comerciais, vendáveis, mercadológicas, por não estar num teatro de mercado, tudo isso faz com que o ‘Esperança na Revolta’, seja um espetáculo de resistência.  Os desafios para permanecer em cartaz por duas temporadas foram vários: investimento do próprio bolso, manter uma rede participativa, de confiança, não só de trabalho mas também de parceria, com as pessoas do grupo comprando a ideia, assim como vender esse projeto para as pessoas saírem de suas casas e para assistirem uma temporada em que a gente está investindo. Tivemos um financiamento coletivo que ajudou, mas não foi suficiente, foram alguns desafios de como tentar se manter de forma independente nesta cena, como agir por outras formas, aí entra nossa divulgação dentro do metrô, nas redes sociais, a articulação com outros grupos, como coletivo preto”.

Ator Reinaldo Júnior – Foto: Divulgação

A cena negra no Brasil, mesmo sendo muito forte e potente, encontra dificuldade para ocupar espaços no mercado chamado ‘tradicional’. Por isso a importância de criar seu próprio espaço, segundo o ator, produtor e ativista Reinaldo Júnior: “Partindo do princípio de um mercado já estabelecido, que não foi feito pra gente, assim como o sistema e qualquer tipo de mercado fora das artes não foi feito pra gente, nem a partir do nosso olhar, viver como ator no Brasil é romper com a lógica do mercado desigual. Romper com essa lógica está ligado diretamente as narrativas que são impostas, escritas e alcançam a maior população que somos nós, 54% dos brasileiros. Por exemplo, a televisão, a grande mídia não foi construída a partir do nosso ponto de vista, pra levantar nossa história. Ultrapassamos essa lógica do mercado criando um novo mercado dentro da nossa realidade onde a gente se encaixa dentro da realidade deles. Pra mim, a grande fuga é nunca acreditar nessa inclusão por que ela não vai existir. Brigamos pela inclusão há 500 anos e por uma falsa democracia que não existe pois, muitas vezes não temos nem a oportunidade de colocar nosso olhar, nosso ponto de vista. Então vamos driblando, criando uma nova lógica de mercado, preta”.

A Confraria do Impossível é um coletivo artístico Negro que intervém nas ruas e eventos culturais e políticos na cidade do Rio de Janeiro desde 2009. Para viabilizar a peça ‘Esperança na Revolta’ o coletivo realizou uma vaquinha online com o objetivo de arrecadar R$ 26 mil, mas conseguiram apenas R$5.240.

Vamos continuar levando as histórias dos nossos antepassados sem dar um passo atrás”

Mesmo sem atingir o valor necessário o grupo conseguiu montar brilhantemente duas temporadas do espetáculo, e o coletivo não vai parar por aí. A Confraria do Impossível está nos teatros, nas ruas e no metrô, levando arte e passando o chapéu para se manter e proporcionar, ainda mais, cultura e alegria ao povo.

Para Reinaldo Junior, 2019 será um ano de lutas e construções: “Por várias tentativas, vários anos de opressão e apagamento, a gente vem tentando reconstruir e dar continuidade ao teatro experimental do negro no Rio de Janeiro que começou lá nos anos 40. A junção do passado com presente é o que fará nosso futuro. Eu espero que a gente saiba cada vez mais trabalhar nessa mudança de perspectiva, narrativa e imaginário por que nós estamos cansados dessa falsa democracia racial, essa falsa diversidade. A diversidade tem que vir a partir do nosso olhar. 2019 será um ano de muita luta e que nós vamos continuar criando novas narrativas, pensando a partir dos nossos pontos de vista, vamos continuar levando as histórias dos nossos antepassados sem dar um passo atrás”.

Atores da Confraria do Impossível – Foto: Divulgação

Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e com especialização em audiovisual pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, assessora de imprensa e idealizadora do portal Notícia Preta, um site de jornalismo colaborativo. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

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