Feirantes: os corpos que abastecem a cidade

Existente há quase 30 anos, a Feira de Cosmos, localizada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, abriga famílias responsáveis pela venda de frutas, legumes e verduras a um preço acessível, além de histórias de vida. 

Caixas empilhadas, tabuleiros e balanças permitem que a feira seja vista de longe. As caixinhas de natal marcam o início do final de ano e, apesar de não ganharem como antes, os vendedores afirmam: a esperança é a última que morre.

Edson Siqueira, 64 anos, mais conhecido como Dadinho, iniciou sua profissão aos dezoito. Da mesma maneira que foi criado- já que arrumar bom emprego beirava o impossível, pois o ensino fundamental não foi concluído- guiou seus filhos para que perpetuassem a tradição de feira e, dentre grandes vendas e pouco lucro, sustentou sua descendência, juntamente à esposa Dineia dos Santos.

O trabalho começou à meia noite deste domingo. Em direção a Cosmos, Dadinho relembra que é dia de sair mais cedo, pois a feira de natal costuma ser a melhor do ano- apesar de as vendas diminuírem gradativamente. O pai de família conta que apesar de não concordar com o petista, em 2005, época de Governo Lula, as vendas “iam de vento em polpa”.

Contrário ao avanço da desigualdade hoje, com o lançamento do Bolsa Família cinco milhões de brasileiros deixaram a extrema pobreza, segundo relatório da ONU, e a questão repercute nas compras dos frequentadores de feiras “Tenho 70 anos e cheguei quando era tudo mato. Antes, com cem reais a gente comprava era coisa; hoje, minha filha, a gente não compra metade”, relata dona Maria Divina, ex-feirante. 

A FEIRA NA UNIVERSIDADE


O subemprego refletiu no ensino dos filhos, que estudaram em escolas públicas. Cursos e viagens também não foram realidade, já que o salário irregular não permitia, mas apesar das dificuldades, os filhos dos feirantes ocuparam a academia.

Jhonatan Souza, de 21 anos, trabalha desde os oito. Estudante de Ciências da Computação na UERJ, o jovem cujo sonho de menino era ser militar, desistiu da ideia e ingressou em um pré-vestibular social. Em 2017, ano em que fez cursinho, conciliou simulados e trabalho, da mesma maneira que fazia desde criança, quando vendia limões. O estudante conta que os poucos recursos da escola pública o impediram de ingressar na universidade assim que se formou no ensino médio, e que a desigualdade era visível quando precisava trabalhar no mesmo dia em que faria o ENEM “Os recursos da escola pública são muito rasos. Por outro lado, na escola particular os alunos sabem muito mais do que a gente”.

A primogênita Tamilis Siqueira, 29 anos, trabalha há 13 anos em Cosmos. Ao terminar o ensino médio, a jovem começou a trabalhar em um curso na Zona Oeste. Com a falência da empresa e anos sem estudar, Tamilis prestou vestibular social e ingressou em uma universidade privada, onde sentiu a diferença de classe em relação a seus colegas. Hoje, a estudante está prestes a se formar como publicitária e, oficialmente, ser a primeira da família a concluir o ensino superior.

Segundo Dadinho, os trabalhadores vivem em uma corda bamba, entre lucro e perda de mercadoria. Em contrapartida, fazem uma tentativa de boicote aos mercados cujos preços não dialogam com o salário mínimo do brasileiro e, ao mesmo tempo, constroem novas narrativas a respeito de espaços a serem ocupados.

 

Ana Paula Souza

Estudante de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e trabalha como jornalista da Agência Narra, cuja sede é o Observatório de Favelas.

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