Exclusivo: Formiga fala sobre Copa na França, Seleção Brasileira, futebol feminino e racismo

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Crédito: Divulgação/Fifa

“Repetir, repetir – até ficar diferente. Repetir é um dom do estilo”. E seguindo a lição de Manoel de Barros, Miraildes Mota veste a camisa da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de Futebol Feminino, iniciada na França no dia 7 de junho. O time, classificado às oitavas de final como um dos melhores terceiros colocados da primeira fase, enfrenta as anfitriãs neste domingo, às 16h, em Le Havre. Nenhum desses desafios é novidade para Formiga – longe disso – que, após suspensão, tem tudo para voltar a ser titular. Mas ela tem uma missão.

“O que me move ainda é essa necessidade de ver o futebol feminino realmente onde ele merece: eu quero ver essa modalidade no topo. Quero que a gente possa ter o máximo de respeito e, pra isso, eu acho – acho, não, tenho certeza – que a gente precisa ganhar um título de importância, como um Mundial ou uma Olimpíada. Já tentamos várias vezes, não deu certo, mas vamos continuar tentando, isso eu sei”, afirma a volante.

A resiliência contida no discurso da atleta de 41 anos (completados em março de 2019) não é circunstancial, mas um dado fundamental de sua vida. A jogadora, que já é a atleta que mais vezes vestiu a camisa da Seleção Brasileira (são 186 partidas e contando), tanto no masculino quanto no feminino, ao pisar em campo se tornará também a recordistas em aparições em Copas – disputa a sua sétima – e a mais velha a participar de uma edição desta competição. Tudo isso em “casa”: ela é atualmente a “formidável” (apelido dado pelos franceses) capitã do Paris Saint-Germain (França). Mas a trajetória não foi fácil.

“A dificuldade quando eu comecei já foi dentro de casa em relação a meus irmãos. Minha mãe (Celeste) sempre esteve ao meu lado, me ajudando em tudo, mas meus irmãos ali me batendo, tentando impedir que eu continuasse no futebol de todos os jeitos… Isso me fez crescer, sem dúvida alguma. Logo cedo aprendi a lidar com dor, a engolir choros. Era uma coisa que eu queria muito na minha vida e isso me tornou uma pessoa bem mais forte”, relembra Miraildes.

Das bolas improvisadas com cabeças de bonecas aos títulos de Jogos Pan-Americanos, de Copa América e de Libertadores, acumulando ainda pódios em Copas e Olimpíadas, Formiga é consciente dos problemas enfrentados pela população negra no mundo, especificamente no Brasil. No esporte não é diferente. O debate, por exemplo, sobre a escassez de treinadores negros na primeira divisão do Campeonato Brasileiro de futebol masculino não passa despercebido por ela.  

Crédito: Divulgação/CBF

“Sempre quando posso tenho conversas com as meninas, principalmente no Brasil, em relação ao racismo. Só o fato de ser negra e nordestina (Bahia) já se sofre um preconceito muito grande, com certeza. E, sem dúvida, tratando-se de mulher e negra em qualquer área de trabalho há olhares tortos. Vejo poucas mulheres, poucos técnicos também negros no comando, é um absurdo. Eu condeno totalmente pessoas que agem desta forma”, posiciona-se.

Formiga é sinônimo de futebol feminino no Brasil: estreou na Seleção em 1994, aos 16 anos. Ao lado de Marta e Cristiane, é um dos pilares do grupo que busca a primeira Copa do Mundo para o país, em um momento em que a categoria e a participação das mulheres em toda cadeia produtiva do esporte recebem atenção inédita. Ciente do sua importância para este processo, mas focada no presente, a jogadora lança um olhar para a jovem Miraildes e lembra sua trajetória.

“A gente só tem noção do que representa para o futebol feminino mundial quando parar. Quando está na ativa, você está com a cabeça focada, só pensa no que faz no dia a dia. Mas se eu pudesse falar algo para a menina que era antes, quando comecei e vendo o que passou até aqui seria um “muito obrigado” por resistir a tantas coisas e não ter desistido em momento algum. Foi justamente essa persistência dela que me tornou o que eu sou hoje. Então, eu diria um “muito obrigado mesmo” por resistir a muitas, muitas, muitas coisas”.

Na primeira fase da Copa do Mundo da França, a seleção brasileira feminina de futebol ficou em terceiro no Grupo C. O time derrotou a Jamaica em sua estreia – 3 x 0 (três gols de Cristiane) -, perdeu para a Austrália – 3 x 2 (um gol de Cristiane e outro de Marta) – e bateu a Itália – 1 x 0 (gol de Marta). Em caso de triunfo, a equipe enfrenta as vencedoras do confronto entre Estados Unidos e Espanha, que acontece nesta segunda-feira.

Credito: Divulgação/CBF

Entrevista 4P

NOTÍCIA PRETA: Você estabeleceu uma presença no exterior e a maioria das convocadas para a Copa do Mundo da França atua fora do país. Como você analisa a estrutura e as oportunidades oferecidas no futebol feminino no Brasil em comparação com os mercados europeu e norte-americano?

FORMIGA: Acho que não basta só a gente jogar, ter amor: o valor pelo atleta, pelo ser humano tem que existir. Quero ver essa nova geração com seus direitos. Eu gostaria muito mesmo de ver os clubes masculinos terem o futebol feminino, com as atletas com carteira assinada, plano de saúde, com o direito de jogar num campo bom, de treinar num campo bom. Então, é um dos motivos que ainda me faz jogar futebol: mostrar realmente que quando a gente tem um tratamento adequado, quando a gente tem essa oportunidade de ter uma base boa, de treinar, de aprender, você pode sim render e pode jogar por muitos e muitos anos. Quando você não tem isso, a gente vê que há muitas meninas que acabam parando no meio do caminho justamente por não ter essa cobertura. O que mais desejo são melhorias para a nossa modalidade.

NP: Como você encara a discussão sobre racismo no Brasil e no exterior? É um assunto que chama sua atenção, você debate ele interna ou externamente? Acredita que há avanço ou recuo no enfrentamento da questão no país nos últimos tempos?

FORMIGA: Sempre quando posso tenho conversas com as meninas, principalmente no Brasil, em relação ao racismo. Já passei e sei o quanto é ruim. A minha colega que estava ao meu lado não se sentiu bem com aquilo tudo e eu consegui mudar um pouco o pensamento dela em campo para que ela continuasse. Eu acho um absurdo e espero sim que haja um avanço, desejo muito que acabe com esse racismo não só no Brasil, mas fora também. Somos seres humanos e ninguém ali tá prejudicando ninguém. Muito pelo contrário, estamos dando alegria para tantos torcedores… Então eu não vejo porque ter esse tipo de atitude. E mesmo aqueles que estão na rua e às vezes veem um negro passando e agem de tal forma, de forma tão negativa, que pensem duas vezes antes de fazer isso, porque o dia de amanhã a Deus pertence e talvez eles possam ser também prejudicados de uma outra forma. Eu acho o cúmulo, condeno essas pessoas que tiram o lugar de um negro por preconceito, por racismo. Que isso mude, que isso acabe de uma vez. É o meu desejo.

Crédito: Divulgação/CBF

NP: Você costuma falar muito da importância das atletas pioneiras do esporte, sendo você também uma delas. Quem são suas referência, seus ídolos? E quem está despontando para carregar este legado?

FORMIGA: A gente só tem noção do que representa para o futebol feminino mundial quando para. Quando você está na ativa você está com a cabeça focada, só pensa no que faz no dia a dia. Quando dá aquela pausa, começa a pensar no peso e no que você representa naquilo que faz. Mas vejo lá em Paris, quando enfrentamos algum time – o próprio Lyon -, as meninas vêm falar comigo, dizem ter respeito pela minha história, muitas delas sabem o que eu passei para chegar até aqui e estar com mais de 40 anos ainda jogando. Elas têm o máximo de respeito e eu fico feliz por isso. E até mesmo pro lado de lá eu servir de exemplo para muitas meninas… Então, claro que tenho um pouquinho de noção disso já agora.

NP: O que você pode falar de dividir a responsabilidade de conduzir a Seleção Brasileira com a Marta (que se tornou a maior artilheira da história das Copas do Mundo de Futebol, no masculino e no feminino, com 17 gols)?

FORMIGA: Com certeza é fácil jogar do lado da Marta. Não tem como, não só dela como das outras meninas do grupo. Espero que ela  não pare depois dessa Copa, continue e chega à sétima Copa dela também.

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Cipriano Jr

Cursou Comunicação Social (Jornalismo) na UFRJ e atuou como repórter na EBC, no diário Lance! e na MBPress - aqui, produzindo conteúdo para a editoria de esportes dos portais UOL e IG. Atualmente, trabalha como analista na equipe digital da FSB Comunicação. Publica quinzenalmente textos de opinião e ficção em seu espaço no Medium. Twitter: @cizenando_ Medium : @cizenando

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