Chef Carmem Virginia: “A gastronomia tem uma cor pra quem está servindo e tem outra cor pra quem protagoniza”

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Foto: Divulgação

Amor. É assim que Dona Carmem Virginia define a essência de seu restaurante Altar, Cozinha Ancestral, que através da culinária africana resgata a história de seus ancestrais e acolhe quem chega. Em meio a pandemia do coronavírus que afetou o setor gastronômico, muitos restaurantes conseguiram se reinventar e gerar impactos positivos para sua comunidade. Foi por este motivo que o restaurante pernambucano está na coleção El Espíritu de América Latina divulgada pelo Latin America’s 50 Best Restaurant.

Pra falar a verdade eu não me vejo sozinha nessa lista. O Altar não é singular, ele é plural, feito de gente que carrega a ancestralidade no sangue, porque a vida toda eu busquei sempre trazer as pessoas que não tiveram o privilégio de estudar gastronomia ou por muitas vezes sequer puderam estudar. As mulheres negras de terreiro, as donas de casa, as mulheres de minha família, mulheres que são vítimas de violência, as trans. Eu não me sinto só, mas sinto que esse espírito de humanidade e representatividade é o que nos move”, afirma Carmem Virginia sobre a sensação de estar entre os 50 restaurantes selecionados.

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Mesmo com toda resiliência, Carmem Virginia também viu se empreendimento ser afetado pela crise e contou com o apoio de amigos e clientes. “Fechei por 7 meses, chorei, tive que abrir mão de minha equipe, vivi por muitos meses graças a solidariedade de amigos e clientes. Com um mês de pandemia, em abril, o teto do altar teve um problema sério que infiltrou água. Perdi móveis, parte da cozinha e todos os móveis que ficavam no andar de cima do altar. Então, tive que ser forte e buscar ajuda na minha fé”, conta.

Dentre os seis restaurantes brasileiros selecionados, a chef Carmem Virginia é a única negra nordestina a integrar a lista. O racismo ainda é um assunto para ser debatido dentro da gastronomia. “A gastronomia tem uma cor pra quem tá servindo e tem outra cor pra quem protagoniza, é triste ver que pessoas ainda não se deram conta disso e não fazem nada pra mudar“.

A renomada chef ressalta a importância do reconhecimento não só pela boa comida, mas sim pelo impacto positivo que causa em toda a comunidade. “A sensação é de que estou no caminho certo, de que o Altar é necessário pela luta contra as desigualdades sociais, de gênero e acima de tudo, é um espaço onde realmente as pessoas conhecem a cultura do meu povo através do simples hábito de se alimentar”, ressalta Carmem.

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Em um país onde a intolerância e a violência contra religiões de matrizes africanas é grande, dona Carmem busca quebrar esse preconceito por meio de sua gastronomia, que valoriza a ancestralidade. “Eu entendi que os Orixás esperavam mais de mim do que o simples fato se ser uma Iyabassé, só dentro dos terreiros. Eu entendi que eu podia ser um instrumento contra a intolerância religiosa e principalmente um meio de motivar outras pessoas. O meu coração nunca teve dúvidas do tipo de comida e do restaurante que eu queria ter e fazer“, afirma. A coleção em que o Altar, Cozinha Ancestral faz parte, foi criada com base nas recomendações dos chefs do Latin America’s 50 Best Restaurants 2020 e da rede de organizadores de gourmets locais.

Para a chef, que tem sua avó Edna como maior referência na gastronomia, comer é primordial. “Quando você come tendo consciência de quem fez, de como aquele alimento chegou a sua mesa e principalmente, você ter a oportunidade de saber sobre a história do povo que nos deixou de herança tantos sabores, quebra as barreiras que nos separa e ensina quase que didaticamente sobre religião, etnias e culturas alimentares perdidas“, conclui.

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