A falsa abolição

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Políticas de não acesso e não lugar inviabilizaram todas as possibilidades de ascensão social e de mudança de estrutura, mesmo após a Lei Áurea em 1888. Além da impossibilidade social de ascensão, um serie de instrumentos foram criados como forma de manutenção da estrutura escravagista no Brasil. A Constituição de 1824, por exemplo, garantia o direito a educação somente a cidadãos livres, e portanto excluiu desse roll todas pessoas em situação de escravização naquele momento. Ainda durante o império, tivemos a famosa Lei de Terras de 1850, que dificultava ainda mais o acesso a terra por negros e negras, ainda que libertos.

O fim da abolição em 1888, e o início da república em 1890, não significou entretanto, a possibilidade de mobilidade social maior, o negro saiu da posição, como bem define Clóvis Moura, “ ​de bom escravo, para mau cidadão”​ . A classe dominante administrou de tal maneira as mudanças sociais, que os ex escravos não tiveram garantias plenas de acesso á posse ou à propriedade de terra, trabalho e ao salário. Que abolição é essa, onde não se alterou a relação entre dominador e dominado ? ​

A Abolição na verdade representou umas das tantas modernizações conservadoras da nossa história.

Os reflexos do pós-abolição, de uma abolição inconclusa, são sentidos, vividos e latentes até hoje no cotidiano de milhões de negros e negras em todo território brasileiro. A política da morte, a necropolítica, do matar ou deixar morrer, segue uma marcha fúnebre em direção ao marasmo. Aqui se nasce não importa onde, não importa como. Morre-se não importa onde, não importa de quê, não se importa como. Para nós, é um mundo sem intervalos para sorrir, onde aprendemos da pior forma o que é viver.

Ou nos responsabilizamos por isso ou assumimos que só estamos nesse buraco, porque nunca encaramos o genocídio dos nossos povos, o horror da escravidão, a morte das nossas crianças, os empregos que estamos submetidos. Enfrentar o passado com seriedade é indispensável para construir um futuro digno.

O genocídio do nosso povo não é responsabilidade deste ou daquele governo, somente. O genocídio dos nosso povo é o pilar que sustenta o estado brasileiro desde a sua fundação. Não podemos falar em tragédia, quando na verdade tudo isso é apenas resultado de um projeto genocida.

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Seimour Souza

Estudantes de Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Ativista de Direitos Humanos e membro do Coletivo Negro Luiza Mahin.

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