Racismo que fala, né? As interfaces da pandemia

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Por Thiffany Odara

“A gripezinha, o resfriado” é a vangloriosa fala de um gestor que denota, de maneira contundente, o massacre imposto no Brasil. Que o Racismo mata, há muito mais tempo, as pessoas negras diante de desgovernos dissimulados, fascistas, isso nós já sabemos, mas a maneira escancarada de acirrar essas mortes diante de um Estado democrático de Direito, que só ressalta o que a história colonial insiste em não contar, grita por justiça: vidas negras importam. Não podemos esquecer, jamais, que o Racismo chega no Brasil antes mesmo do próprio capitalismo, impregnado com genocídio instaurado, em terras usurpadas.

Foto: Felipe Iruatã

Concomitantemente, o racismo sempre está engendrado com outras práticas de opressão social, estabelecendo todo processo de desumanização, visto no Brasil   através de práticas diversas de invisibilidade, negação de acesso: vista e vivida por pessoas negras e povos aborígenes (indígenas), gerando um grande acúmulo de desumanização na atual conjuntura política.

É crescente os episódios perversos vistos nesse circo de horrores, nítido, descaradamente se tornado favorecido pela pandemia do COVID-19. É perceptível ver todo esse horror culminado pela humilhação propagada nos pagamentos do auxílio emergencial, cujo objetivo é auxiliar famílias e pessoas em risco eminente social durante o processo da pandemia, o sistema de informação apresentado pelo governo federal, se torna parecido com a proposta de sucateamento e desmonte instaurado para o Sistema único de Assistência (SUAS) e Sistema Único de Saúde (SUS).

A incapacidade de não conhecer e reconhecer as limitações da sociedade foi vista nas longas filas  dos bancos públicos e nas dúvidas apresentadas pela grande maioria da  população que tem cor e que não mora nos grandes condomínios de luxo, a perversidade de colocar as pessoas nas ruas é uma das barbárie  que expõe na  maior falta de respeito  com as pessoas, em sua grande maioria negras,  expostas ao risco de contágio do novo coronavírus,  diante de um governo que declara abertamente que o destino de todos e todas é a morte, genocídio escancarado em tamanha irresponsabilidade pública, com a grande elevação de mortes precoce resultado da falta de eficiência e ausência de políticas públicas.

Se por um lado o isolamento social se torna uma medida protetiva no combate ao coronavírus, essa medida cai por terra quando assistimos casas sendo invadidas por águas das chuvas devido à falta de saneamento básico nas grandes periferias do Brasil, Isolamento para quem? Se assistimos mulheres negras terem que ir trabalhar, e sentir a dor de uma perda irreparável de enterrar seu filho, morto por uma sociedade que reproduz o desamor à uma criança negra, aos corpos negros, uma sociedade que insiste em dizer que reparação é privilegiar pretos. Precisamos sim de privilégios, pois o direito a nossas vidas nos foi tirado há muito tempo, onde dentro de uma ingênua infância o seu direito à vida foi ceifado, mais uma vez, pelo racismo explícito de cada dia.

É notório ver a cada margem a desumanização escancarada nessa pandemia, diante de governos gestores pandemônios onde a luta pela sobrevivência do povo preto se multiplica a cada segundo, contra a necropolítica que circunda corpos negros, antes, agora, e pós pandemia, povo preto segue com muitas angústias e dores, e nosso lamento é muito mais do que saber que vamos morrer, mas de saber que não temos o direito a viver.

Thiffany Odara – Pedagoga, Especialista em Gênero, Raça/etnia e sexualidade, Educadora social e Redutora de Danos. Ativista do movimento Negro e LGBT.

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