Além da tela: o silenciamento das influenciadoras negras na publicidade brasileira

Livia-Teodoro-credito-Marcos-Gomes-1.jpeg

Por Lívia Teodoro*

Você já parou para pensar sobre quem são as verdadeiras protagonistas por trás das telas nas redes sociais? Atualmente, no Brasil, um problema persistente silencia vozes criativas e inovadoras. Estamos falando da exclusão das influenciadoras negras do mercado publicitário.

Essas criadoras de conteúdo pretas, apesar de suas habilidades e engajamento excepcionais, enfrentam uma barreira invisível, uma consequência do racismo institucional que permeia o cenário publicitário brasileiro. Neste texto, mergulharemos nas causas e consequências dessa exclusão, explorando números, depoimentos e desafios enfrentados por essas criadoras de conteúdo. 

No âmago dessa exclusão, está como as influenciadoras negras são excluídas das publicidades que não são voltadas especificamente para a comunidade negra. O racismo institucional tece uma trama complexa, fazendo com que empresas e agências enxerguem apenas as criadoras de conteúdo negras como porta-vozes de temas relacionados à raça ou cor da pele. Este viés limitador não apenas cerceia oportunidades, mas também perpetua estereótipos, reduzindo a diversidade de vozes e perspectivas nos espaços digitais. 

Em busca de um estereótipo

Quando agências precisam pensar em campanhas em temas generalistas, mesmo influenciadoras capazes de engajar diversos públicos, são frequentemente deixadas de lado. A preferência pela imagem de figuras brancas persiste, alimentando o imaginário racista brasileiro, que associa a confiabilidade e competência a figuras brancas.

O racismo institucional coloca em segundo plano produtoras de conteúdo competentes e com qualidade de engajamento na hora de falar de produtos, eventos e marcas que não apelam para a raça. Um erro, pois pessoas negras consomem em diversos nichos, ultrapassando as barreiras de produtos/marcas considerados nichados.

Segundo reportagem do jornal O Globo, publicada em dezembro de 2021, sobre influenciadoras negras: “O apoio de que precisam fica explícito em números: dos mais de 900 mil perfis de influenciadores cadastrados na plataforma de dados da SamyRoad, empresa de marketing de influência, apenas 20% são de pessoas negras. Mesmo presentes em 56 segmentos diferentes, elas não predominam entre usuários com mais de 5 mil seguidores.” 

Não importa o quão embasado e diferenciado seja o seu conteúdo, influenciadoras negras vão ficar atrás, às vezes, de perfis que só postam selfie e “comprinhas”, que se sobressaem simplesmente por serem maioria branca da Zona Sul. Isso é cansativo, porque sempre somos empurradas para longe, mesmo sendo ótimas”, apontou a influenciadora digital Cecília Boechat à reportagem.

Uma análise aprofundada sobre a exclusão de influenciadores pretos na publicidade

Em meio a esse cenário desafiador, a exclusão de comunicadoras negras dos conteúdos patrocinados nas redes sociais torna-se ainda mais alarmante quando observamos dados recentes. De acordo com uma pesquisa abrangente realizada por organizações como Black InfluenceYOUPIX e Squid, onde aproximadamente 760 criadores de conteúdo, entre brancos, pardos, pretos, amarelos e indígenas, foram ouvidos, resultados revelaram uma disparidade evidente, com os influenciadores pretos sendo menos contratados para campanhas de publicidade

Mesmo entre aqueles que já participaram de alguma campanha, a proporção é 17% menor do que a média geral das respostas. Essa desvalorização no mercado é refletida nos números salariais, onde influenciadores brancos recebem, em média, R$ 564 por ação publicitária nas redes, enquanto os pretos recebem R$ 496, e os pardos, ainda menos, com R$ 459.

Esses dados, extraídos da reportagem “Blogueiras negras ganham menos em campanhas e são minoria nas redes”, de Pamela Dias, não apenas expõem a persistente exclusão, mas também incentivam uma reflexão sobre como a indústria publicitária precisa evoluir para abraçar a diversidade e a igualdade de oportunidades.

Desafios Raciais na Publicidade Digital

As redes sociais online, verdadeiras protagonistas na revolução da comunicação, transformaram a maneira como nos conectamos, compartilhamos e consumimos informações desde o surgimento do Facebook. Essas plataformas criam um espaço digital onde a interação é constante, uma teia global de comunicação instantânea.

No entanto, esse marco na evolução da comunicação também revela um desequilíbrio significativo no cenário publicitário. Atualmente, as redes sociais são o epicentro das estratégias de marketing, sendo o Facebook uma das pioneiras a moldar essa transformação.

Desde sua criação em 2004, o Facebook expandiu-se para bilhões de usuários ao redor do mundo, estabelecendo-se como uma das principais plataformas para compartilhamento de conteúdo, conectividade e, claro, publicidade. Segundo informações fornecidas pela IAB Brasil em parceria com a Kantar IBOPE Media, o investimento em publicidade digital atingiu a marca de R$ 30,2 bilhões em 2021.

Esse valor representa um aumento de 27% em comparação ao ano anterior, quando o montante investido foi de R$ 23,7 bilhões em 2020. Essa quantidade expressiva de investimento, entretanto, não se traduz igualitariamente quando consideramos a representatividade racial nas campanhas. 

A predominância de imagens e figuras brancas ainda persiste, revelando a urgência de uma mudança significativa para garantir uma publicidade mais inclusiva e representativa em um dos espaços de maior impacto na comunicação contemporânea. O Censo de diversidade, equidade e inclusão da ABA, divulgado em 2023, revela que ainda precisamos trabalhar muito em busca de uma publicidade plural.

Rompendo Barreiras para uma Representação Inclusiva e Igualitária

Em um universo digital que deveria ser um reflexo fiel da nossa sociedade diversificada, a exclusão de influenciadoras negras do cenário publicitário brasileiro é uma realidade perturbadora que clama por transformação. Ao explorarmos as entranhas desse problema, escancaram não apenas números e estatísticas, mas vozes autênticas que resistem à marginalização. 

A pesquisa aprofundada revela não apenas a exclusão, mas a desvalorização financeira persistente. Num ambiente onde as redes sociais moldam a narrativa contemporânea, o desequilíbrio racial nas campanhas publicitárias não é apenas um reflexo das plataformas, mas uma escolha consciente da indústria.

Leia também: Nossa força não cabe em um dia! 

À medida que avançamos, é fundamental questionarmos e desafiarmos esses padrões, construindo um ambiente digital que celebre a riqueza da diversidade e mostre a autenticidade de todas as vozes. A revolução está além da tela, e é hora de romper as barreiras que silenciam e limitam, abrindo espaço para uma representação verdadeiramente inclusiva e igualitária.

Lívia Teodoro é mineira de 32 anos, é comunicadora, influenciadora e historiadora graduada pela UFMG. Faz parte do time de influenciadores da primeira edição da Teia de Criadores. Com formação em História da África e afro-brasileira, também é pós-graduanda em jornalismo digital. Discute pautas de gênero, raça e sexualidade de maneira didática e objetiva para ser acessível a todas as pessoas

Deixe uma resposta

scroll to top