A Ômicrow e o Apartheid da vacinação

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Um Boletim divulgado pela Fiocruz esta semana escancarou a desigualdade vacinal entre os países do mundo. Segundo o documento, a distribuição e o acesso desigual às vacinas “vêm contribuindo para o surgimento de variantes”. Nos países europeus, cerca de 65% das pessoas receberam ao menos uma dose da vacina contra o coronavírus, enquanto nos países de África esse número chega a pouco mais de 7%. A variante Ômicrow, responsável pelo cancelamento de grandes eventos como o Reveillon do Rio de Janeiro, só reforça a percepção dos pesquisadores de que olhar para o próprio umbigo continua sendo mortal para a humanidade.

A comunidade internacional foi alertada em várias ocasiões pelos cientistas sobre os riscos de novas variantes em lugares onde a taxa de vacinação é baixa. A Organização Mundial de Saúde (OMS) exortou os países ocidentais para que evitassem uma corrida para reforçar doses, já que milhões em todo o mundo ainda não receberam sequer a primeira dose. Uma pesquisa encomendada pela Câmara de Comércio Internacional chegou a prever que atrasos no acesso à vacina em países mais pobres poderiam custar à economia global cerca de US$ 9 trilhões.

E qual a questão, afinal? A mesma de sempre: o lucro está acima da vida humana. A postura de nações ricas agindo de forma egoísta e com indiferença para países africanos reabre as feridas do Imperialismo. Essa política de dominação exploratória surgiu após o Grande Pânico de 1873, e acabou culminando no neocolonialismo e em décadas de usurpação dos países africanos. Ao invés de trabalhar por alguma reparação histórica, a Europa ocidental prefere estocar vacina, como se estivesse isolada num mundo interconectado e sem fronteiras.

Para muitos especialistas, se desenha um novo Apartheid, o da vacinação, alçando o debate racial à ordem do dia. Se os países africanos não lograrem a vacinação de suas populações, além do surgimento de novas variantes, veremos uma segregação racial-vacinal, com milhões de pessoas impedidas de cruzar as fronteiras do mundo por não portarem um passaporte de vacinação. Em seu famoso ensaio “Necropolítica”, o camaronês Achile Mbembe insiste que, mais do que o pensamento de classe, a raça é quem dita a política do Ocidente. Para ele, o racismo é uma tecnologia de poder e sua função “é regular a distribuição da morte”.

Além disso, é preciso alertar para uma outra realidade: a variante ômicron é resultado de um mundo onde a indiferença foi globalizada. O fato de países como Namíbia, Zimbábue e Botsuana terem apenas 11,4%, 18,3% e 19,6% de suas populações vacinadas, respectivamente, enquanto Alemanha e Áustria têm 67,9% e 65,7% da população completamente vacinada, respectivamente, deveria nos indignar enquanto comunidade humana.

Nas Palavras do Papa Francisco “habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa (…) Somos uma sociedade que esqueceu a experiência de chorar, de “padecer com”: a globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar!”. O Papa que teve a ousadia dizer à Trump que é preciso que se construa pontes ao invés de muros, também alertou à humanidade em sua encíclica Fratelli Tutti sobre a solidariedade na Pandemia. Enquanto não houver solidariedade entre os países a COVID-19 será uma realidade sempre ameaçadora.

Ou nas palavras de Martin Luther King “a injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar”.

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Jersey Simon

Jornalista, especialista em Comunicação estratégica, empreendedor. Na luta por um Reino de Justiça e paz.

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