Partidos políticos ignoram candidatura coletiva de setores periféricos e se lançam como pioneiros na iniciativa em Alagoas

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O Coletivo Todos Noiz, lançado em 2018, em Alagoas, tendo como representante Geysson Santos, jovem negro, filiado ao Psol, e ativista do Hip-Hop, foi responsável pela primeira candidatura coletiva de Alagoas. No entanto, na última sexta-feira (8), o feito foi ignorado pelos partidos Democrático Trabalhista (PDT) e dos Trabalhadores (PT), que lançaram uma pré-candidatura com a proposta de ser o primeiro mandato coletivo na cidade de São José da Tapera.

O Coletivo Todos Noiz lançou a primeira candidatura coletiva de Alagoas em 2018

Nos conteúdos de divulgação do lançamento da pré-candidatura, os partidos se colocam como inovadores e protagonistas de um projeto pioneiro em Alagoas. A presidente do diretório municipal do PDT, professora Rosa Oliveira, ressalta que a bandeira levantada pela proposta, identificada como Somos mais que um, é a de renovação política que busca melhorar a forma de exercer a democracia representativa. 

Apesar de se apresentarem como pioneiros, a primeira candidatura coletiva em território alagoano ocorreu no processo eleitoral de 2018 com o coletivo Todos Noiz, que lançaram o então estudante de ciências sociais, Geysson Santos, como representante legal. A campanha, com o slogan ”A esperança vem das Ruas”, foi a primeira a trazer em Alagoas a discussão sobre a necessidade de um mandato coletivo, introduzindo uma alternativa até então nunca explorada no Estado.

O então candidato a deputado estadual pelo coletivo Todos Noiz, Geysson Santos, afirmou que não esperava a reivindicação de pioneirismo dos partidos PDT e PT porque são todos pertencentes ao mesmo campo político. “Nossa proposta de mandato coletivo foi muito falada em 2018, então não dá pra dizer que não sabiam ou que foi um descuido ou que passou despercebido. Tem muito mais a ver com racismo mesmo”, opinou o agora estudante de história e membro do coletivo Cia Hip Hop.

Geysson apontou ainda que as propostas trazem distinções importantes entre si. “Nossa candidatura coletiva foi construída de forma diferente dessa proposta que eles trazem agora. Não fomos construídos a partir de ligações partidárias, e sim a partir de ligações entre movimentos sociais, periféricos, ativistas independentes, etc. Então, existe uma intencionalidade para nos invisibilizar e dizer que não existimos porque foi uma candidatura construída por fora do campo partidário. Apagar a existência dessa candidatura é sobretudo um posicionamento político extremamente racista e até reacionário, eu diria.”

Segundo os militantes que fizeram parte da construção da proposta, a candidatura do Coletivo Todos Noiz, feita com poucos recursos, alcançou diversas pessoas no Estado, inclusive dividiu espaços de discussão com candidaturas do próprio PT e PDT. Para Geysson, invisibilizar uma candidatura preta e periférica é também um posicionamento político. “Invisibilizar essa candidatura coletiva não é invisibilizar o Geysson, é invisibilizar todos os movimentos e todos os militantes que se doaram e construíram, é colocar num lugar de esquecimento todas as pessoas que participaram desse processo verdadeiramente coletivo. É apagar essa parte da história política alagoana”, defendeu ele. 

Em diálogo com os canais de mídia que publicizaram a candidatura falsamente pioneira do PT e PDT, os assessores da campanha Todos Noiz pediram a correção da informação, mas não obtiveram resposta. 

Por fim, o representante da primeira candidatura coletiva de Alagoas afirmou que a prática do setor progressista não conseguiu evoluir tanto a ponto de quebrar com o racismo e que o posicionamento dos partidos em questão representa uma atitude desonesta. “A gente reivindicar nosso lugar nesse processo é disputar a narrativa e dizer que nós fazemos política. É importante reforçar que foi em 2018 que tivemos a primeira candidatura coletiva do estado de Alagoas que foi construída pela periferia, pelos movimentos negros, culturais e militantes independentes. É um resgate do nosso grito e significa ter honestidade com a história política”, concluiu ele. 

Ao fim do processo eleitoral de 2018, a candidatura Todos Noiz somou um total de 1.578 votos. 

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Brunna Moraes

Alagoana, 22 anos. Em luta pela libertação do povo preto, pela descolonização do conhecimento e pelo reencontro com nossas raízes ancestrais.

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