O surgimento das expressões racistas e o mito da democracia racial

A maioria dos negros brasileiros (72%) já ouviu a frase “seu cabelo parece bombril”, segundo um levantamento realizado pelo Instituto Locomotiva. Esta frase é uma injúria racial, prevista no artigo 140, parágrafo 3º, do Código Penal, que estabelece a pena de reclusão de um a três anos e multa. Esta, entre outras expressões racistas, tem uma explicação histórica e social que começou há mais de cinco séculos e que tem por objetivo oprimir, dominar e estigmatizar o povo negro. Entender o porquê de não as utilizar é mais um passo na luta contra o racismo.

Jorge Santana é historiador, pesquisador e documentarista

“Trabalho de preto” é outra expressão racista já ouvida por 51% dos entrevistados. Segundo o historiador, pesquisador e documentarista Jorge Santana esta ofensa nasce do fato dos povos antigos associarem o trabalho braçal a tarefas de menor valor social: “No mundo ibérico (região da Península Ibérica- espanhóis e portugueses são ibéricos) o trabalho manual sempre foi tido como algo malvisto e de menor valor. Logo, quem trabalhava com o corpo em trabalhos de força eram desprestigiados. No Brasil não foi diferente. Os trabalhos manuais e de força eram exercidos por aqueles considerados racialmente inferiores, no caso, pessoas escravizadas africanas e indígenas. Desde então temos uma associação racista que liga diretamente o trabalho manual com uma determinada inferioridade. Como a população negra é muito maior do que a indígena, devido a genocídio dos índios, na cultura brasileira o trabalho manual acabou sendo associado ao negro, que dentro do imaginário racista tem força física, mas não tem capacidade intelectual para efetuar trabalhos mais sofisticados ou mesmo ocupar cargos de liderança ou comando. Quando alguém no Brasil usa expressão ” isso é trabalho de preto”, ela está se referindo a um trabalho extenuante, manual e desprestigiado na sociedade brasileira”, explica.

 

Muitas expressões colocam os negros como objetos, relacionando-os ao sexo de uma maneira pejorativa. O historiados Jorge Santana explica que essa relação criada pelo homem branco do negro como um ser hipersexualizado tem início no período colonial, que começa com a invasão dos portugueses ao Brasil , em 1500, até a Independência, no ano de 1822: “No Brasil colônia, desde o início existiam poucas mulheres brancas em relação aos homens brancos. Diante disso, as mulheres negras e indígenas sempre foram utilizadas como instrumento sexual dos brancos pela via do estupro. Ou seja, a nossa miscigenação, que é apontada como um traço positivo do nosso país, na verdade é fruto de anos de violência sexual. Ao mesmo tempo as mulheres negras passaram a ser hipersexualiadas, o que servia de uma justificativa da atração dos brancos por elas. As mulheres negras são vistas como mais quentes, mais fogosas, mais sexuais, etc. Como se ela fosse apenas um ser sexual e não uma mulher por completo. Nesse sentido a mulher negra é naquela famosa frase machista a ‘mulher boa de cama’, mas não a mulher para casar. Não é à toa que nós temos ao mesmo tempo a expressão ” mulata exportação”, que seria o nosso exemplar de mulher negra gostosa e fogosa que enlouquece os homens brancos do hemisfério norte”.

38% dos negros no Brasil já ouviu a frase racista “volta para senzala”

Das pessoas ouvidas pela pesquisa do Instituto Locomotiva, 39% já ouviram a frase “volta para África”, e 38% já escutou “volta para senzala”.  O racismo é mais antigo na história do que muitas pessoas pensam. É a partir das grandes navegações no século XV, entretanto, que ele ganha força e torna-se notório. Afinal, era preciso ‘justificar’ o motivo pelo qual sequestravam pessoas de suas terras: “A conquista da América e África deu início a uma nova hierarquização das raças pelos europeus que tinha como grande fiadora a Igreja católica. Os povos não europeus foram considerados como inferiores e, portanto, poderiam servir de mão de obra cativa para os empreendimentos do capitalismo comercial. Não podemos esquecer que o mercado de pessoas escravizadas era extremante lucrativo e que contribuiu fielmente para acumulação primitiva do capital, que foi fundamental para revolução industrial. No século XIX a eugenia um campo da ciência reforçou o racismo a partir de uma teoria científica que “comprovava” a hierarquização das raças e dos povos, assim justificando a exploração dos povos considerados inferiores, abrindo caminho para o Imperialismo. O racismo é nada mais do que a hierarquização dos seres humanos por raças que atinge todas áreas. E o racismo serve como justificativa para os mais diversos tipos de exploração e atos de desumanidade contra as consideradas raças inferiores. O impacto qualitativo é profundo, pois vai desde o impacto psicológico sobre as vítimas do racismo e o impacto material como menor renda, dificuldade de trabalho, violência policial e proibição da produção da sua própria cultura”, diz Jorge Santana.

Essas ideias de um país miscigenado servem como uma ferramenta sólida do racismo para impedir qualquer avanço de políticas de afirmação ou até mesmo o debate franco sobre racismo no Brasil” – Jorge Santana

Em uma sociedade fundamentada no racismo nasce, na década de 1930, o mito da democracia racial: “Ao fim da escravidão em 1888, o Brasil era um país com uma grande população de negros que dificilmente poderia desaparecer como era o objetivo da política do embranquecimento. Logo se não era possível eliminar essa parte da população como desejavam os eugenistas era preciso uma outra solução para acalmar as tensões raciais que sempre existiram. A estratégia bem-sucedida foi na década de 30, a escolha do mito da democracia racial. Que nasce a partir de uma perspectiva em que pensadores brasileiros ao verem as tensões raciais nos Estados Unidos concebem que no Brasil não tem um paralelo, e, portanto, seria um exemplo de paraíso da harmonia racial. Desde então essas ideias de país miscigenado servem como uma ferramenta sólida do racismo para impedir qualquer avanço de políticas de afirmação ou até mesmo o debate franco sobre racismo no Brasil. O argumento é sempre de que aqui não é como nos Estados Unidos, portanto se não é como lá, aqui não tem racismo. Ou de que aqui o racismo é apenas um problema pequeno causado por alguns poucos indivíduos racistas e não um problema o qual o Estado deve atuar como políticas públicas”, explica Jorge Santana.

Expressões racistas que devem ser banidas do teu vocabulário

“Vou embora que amanhã é dia de branco” – a expressão refere-se que o próximo dia é dia de trabalho, logo dia de branco. Porque parte da ideia de quem trabalha no Brasil é branco e que negro não trabalha porque é vagabundo ou malandro.

“Não fala assim comigo, porque não sou suas negas”– a figura da mulher negra no Brasil está sempre associada a mulher indefesa e inferior que qualquer um pode fazer o que bem quiser com ela. Logo essa expressão demonstra como a mulher negra no Brasil é tida como aquela que não tem nenhuma defesa e está submetida a qualquer mando ou desmando.

” A coisa está preta” –  é um expressão que diz que a coisa não está boa, contudo a expressão usa preta como sinônimo de ruim, ou seja tudo aquilo que não é bom no Brasil está diretamente ligado ao negro.

” Minha mãe preta”– essa expressão é muito utilizada por pessoas de classe média branca que foram criados por uma empregada doméstica negra, O racismo nessa expressão está presente pois, a mulher negra torna-se mãe porque ela é uma serviçal daquele que lhe considera como mãe. Enquanto isso o filho dessa mulher negra que trabalha como serviçal para criar as crianças brancas de classe média e os seus filhos negros são criados por parentes ou por ninguém na favela ou na periferia.

Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e com especialização em audiovisual pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, assessora de imprensa e idealizadora do portal Notícia Preta, um site de jornalismo colaborativo. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: