Ninguém solta mão de ninguém? Reflexões sobre racismo em escola construtivista de Laranjeiras

Por Siron Nascimento – Relações Públicas

Uma menina de 6, 7 anos sofreu por dois anos com atitudes racistas de seus colegas de turma na Edem, escola dos descolados de esquerda da zona sul carioca. Comentários do tipo “é pretinha, deve ser pobre” ocorreram algumas vezes. Os pais tentaram conversar com escola, medidas concretas não foram tomadas pelo corpo pedagógico, que nem ao menos chamou os responsáveis das crianças que estavam praticando racismo.

A menina não aguentou, os pais a tiraram da escola e fizeram uma carta aberta, expondo o que aconteceu com sua filha. A Edem respondeu com uma carta-pano: uma tentativa de limpar a barra da omissão da escola (coordenação e sua comunidade). O assunto chegou às páginas dos jornais e a polêmica foi instaurada.  O que a escola fez ou deixou de fazer?

Em primeiro lugar, criança não é racista, ela reproduz racismo; assim como não é homofóbica nem machista. Ela está na sociedade e reproduz/verbaliza aquilo que enxerga, sente. A escola, como instituição de construção de aprendizado, deve se esforçar ao máximo pra combater preconceitos. Não é um dia especial, um trabalho de arte ou de dança folclórica que resolve. A luta é diária e deve ser de todos: do porteiro ao diretor; na sala de aula, no recreio e nas aulas extras; nos murais e oficinas.

Quando uma criança diz que alguém deve ser pobre pq é preta, ela está descortinando o que a sociedade brasileira tenta esconder; está falando o que vê. Pro bom educador, é um prato cheio pro debate profícuo; mas quem só olha números fica com medo disso gerar desgaste.

Se tem algo que ofende um branco tanto quanto, ou mais, do que acusar de corrupto, é chamar de racista. Moramos num país racista sem racistas. Coisa nossa.

Tornou-se lugar comum dizer que o racismo estrutural é culpa da escravidão, abolida há mais de 120 anos. É quase um “lavar as mãos”: ninguém assume; colocamos a culpa no passado e convivemos com o racismo como se fosse algo inevitável, e imutável. Além do nosso alcance.

Escola Edem, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro

Até quando vamos colocar a culpa no passado e deixar de ver o nosso papel no racismo estrutural? O papel do sujeito de hoje, que trabalha, tem família, amigos, e comete racismo? Já não há mais lugar pra esconder o preconceito.

Fica ainda a reflexão: passar pano para casos assim não colabora com os 111 ou 80 tiros de fuzil em carros de pretos? Não legitima o silêncio da Dilma, no primeiro caso, ou a canelada do Bolsonaro no caso recente?

A Edem é uma escola de posicionamentos progressistas firmes, fundamentais em tempos de “Escola sem partido”. Meu filho estudou lá e aos 8 gritava: “machistas, fascistas, não passarão”. Em conversa com amigos, cujos filhos estudam lá, pude perceber uma preocupação genuína com a exposição do fato, e isso servir para linchamento público da escola.

Mas não devemos entender a exposição do caso como linchamento, mas sim como demonstração de que a sociedade está atenta e não tolera mais racismo. A escola não deve se esconder por trás de respostas evasivas e semi-prontas, pois tem agora a oportunidade de colocar em prática o discurso que propagandeia. Tem que ter mais professorxs pretxs, abrir cota para alunxs negrxs, ou seja, ações efetivas de combate ao racismo.

Caso contrário, o “ninguém solta a mão de ninguém” vai precisar de um adendo: desde que essa mão não seja preta.

Um comentário em “Ninguém solta mão de ninguém? Reflexões sobre racismo em escola construtivista de Laranjeiras

  • 18 de abril de 2019 em 17:35
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    Muito lúcido o texto.
    Só acho que cota para alunos negros em escola particular é muito complicado de ser efetivado porque já há bolsa para filhos de funcionários e nem toda família com filho negro é pobre, enquanto há funcionários não-negros e sem condição de pagar uma escola legal.
    E se for apenas a cota para quem pode pagar, mais complicado ainda, mesmo que sejam negros. A luta contra a discriminação racial no Brasil também é uma luta contra a discriminação de classes.
    Outro ponto: ter mais prof negros é possível a médio/longo prazo, num processo de reposição de quadro profissional. Não é plausível esperar que a escola demita brancos pra contratar negros, isso n vai acontecer.
    Proposição: o que eu não vi em NENHUMA das análises sobre esse assunto até agora, é alguém lembrando que ainda há famílias negras lá resistindo e principalmente (e essa é a chave do meu argumento) que há funcionários negros lá resistindo. E ninguém lembra deles por que eles não são professores. Essa visão intelectualizada e por isso elitizada de que os prof são os educadores é classista, mesmo com essa demanda por “mais professores negros.” Tem que ter mais professores negros sim! Mas e os funcionários que já tão lá em posições de inspetores, porteiros, xerox etc… quais saberes eles têm que a escola pode aproveitar para transformá-los em referências também (concordando c a psicóloga do outro texto blog), ao lado dos profs? Essa é a pergunta chave pra construir no curto prazo. Racismo se combate junto c a discriminação de classe. Isso eu to sentindo MUITA falta nesse debate. Tá um debate elitizado quando ignora esses profissionais enquanto educadores negros que já estão na escola.
    Por último: a exposição agressiva e sem contexto só está ajudando a restringir o debate a essa escola.
    Não precisa esperar acontecer algo parecido em outra escola privada da zona sul pra sociedade cobrar. Se olharmos só pra edem nessas análises, esquecemos de todas as outras que poderiam estar somando nesse debate.
    Que tal pensarmos grupos interescolares (um exclusivamente negro, outro das equipes pedagógicas, outro sei lá de quem…)para criar estratégias?
    Essa é a chave. Vamos ampliar o debate, coisa que essa exposição repetitiva não está colaborando. Ainda mais em tempos maníqueistas.

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