Caso Miguel: TST condena Sari e marido a pagarem indenização ao considerar privilégio branco

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Os ministros da 3ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho (TST) condenaram o casal Sergio Hacker Corte Real e Sari Mariana Costa Gaspar, a pagarem uma indenização, se baseando no conceito de privilégio branco e racismo estrutural. O ex-prefeito e a ex-primeira dama de Tamandaré (PE) estão envolvidos na morte do menino Miguel, em Recife, em 2020.

O julgamento foi realizado na última quarta-feira (28), e com a decisão histórica, o casal terá de pagar R$ 386 mil a um fundo de trabalhadores. “[A morte de Miguel] é o desfecho de uma cadeia de problemas estruturais envolvendo as violações trabalhistas sofridas pela família de Mirtes”, disse o relator do caso à Repórter Brasil. A condenação trata da contratação da mãe de Miguel, Mirtes Renata, que foi trabalhadora doméstica na casa do casal.

Sergio Hacker Corte Real e Sari Mariana Costa Gaspar /Foto: Reprodução

A reparação por danos morais coletivos foi feita a partir de um requerimento do Ministério Público do Trabalho (MPT) de Pernambuco por meio de uma ação civil pública, e por isso o valor da indenização será pago a um fundo de trabalhadores, e não diretamente para a mãe e avó de Miguel. Mas a justiça pode determinar o destino desses recursos, que pode ser usado para a capacitar trabalhadores, por exemplo.

Mas segundo o relator, o ministro Alberto Balazeiro, as trabalhadoras são o grupo mais impactado pelo racismo estrutural e por isso sofrem diretamente com a questão trabalhista e com o preconceito racial. Por isso, a decisão do TST partiu do entendimento que o caso de Mirtes afeta também todas as mulheres negras que trabalham como empregadas domésticas.

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Ao Repórter Brasil, Mirtes Renata Santana também falou sobre o assunto. “A maioria das mulheres que trabalham no serviço doméstico são negras. E as pessoas que estão no poder, contratando, são brancas. Há um pacto da branquitude para que a gente não tenha autoconhecimento e possam usufruir do nosso trabalho de forma até ilegal”

Mirtes Renata Santana foi uma das empregadas domésticas do casal, e seu filho de cinco anos, que estava sob os cuidados da patroa para que funcionária passeasse com o cachorro da família dos empregadores, faleceu. Miguel Otávio caiu do 9º andar de um prédio de luxo no centro da capital pernambucana.

Sari Mariana Costa Gaspar foi condenada a oito anos e seis meses de reclusão por abandono de incapaz com resultado morte, pela 1ª Vara de Crimes contra a Criança e o Adolescente de Recife.

Sobre o julgamento

O que foi analisado pelos juízes foi a contratação fraudulenta de de Mirtes e sua mãe, por parte do casal. Além do relator, outros ministros ressaltaram a questão racial dentro da relação de trabalho, como determinante para a decisão.

“Trata-se de um casal em que o marido era prefeito de uma das cidades da região metropolitana de Recife e estava usando o trabalho doméstico de duas trabalhadoras negras em sua casa durante o período de pandemia sem qualquer adoção de medidas de segurança e de defesa para a saúde delas”, destacou o ministro José Roberto Freire Pimenta durante o julgamento.

Além disso, o ministro relembrou da afirmação do ex-prefeito de que ambas haviam sido contratadas utilizando dinheiro público. “E alega no processo que elas não eram suas empregadas, e sim do município, e que ele tinha desviado as trabalhadoras para trabalhar em sua residência, como se ainda vivêssemos no período colonial”, completou.

Mirtes ao lado de seu filho Miguel. Morte do menino completou 3 anos este ano / Foto: Arquivo Pessoal

O relator também afirmou em sua decisão, que a medida precisava ser tomada como forma de reconhecer como funciona as relações de trabalho no Brasil. “Em virtude dessa ideologia racista operante no mundo do trabalho, mantiveram-se intocados os benefícios usufruídos pelas pessoas brancas que ao longo da história lucraram em cima da mão de obra negra”.

Para finalizar, o ministro Balazeiro ainda fez um apelo ao sistema judiciário, na forma com que tratam casos semelhantes. “Se o Judiciário não tiver uma mudança de olhar no julgamento dessas questões, haverá um incentivo à prática da exploração e um desestímulo para a denúncia das trabalhadoras, que não possuem recursos e podem ser vítimas de perseguição e ameaças ao longo do processo”.

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Bárbara Souza

Bárbara Souza

Formada em Jornalismo em 2021, atualmente trabalha como Editora no jornal Notícia Preta, onde começou como colaboradora voluntária em 2022. Carioca da gema, criada no interior do Rio, acredita em uma comunicação acessível e antirracista.

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