Maternidade preta

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Por Cristina Tadielo*

A maternidade é, sem dúvidas, um dos maiores desafios de qualquer mulher que por este caminho opta: este é um querer muitas vezes questionado de forma arbitrária e preconceituosa. Mas isso é assunto para outra pauta…

Quanto aos desafios de ser mãe, para uma mulher negra, eles se tornam mais tortuosos: a questão racial, assim como todo “mimimi” potencializado em discussões rasas e desinformadas, é fator determinante para que se opte pela maternidade – na balança por tal escolha pesam, de um lado, o desejo e a vontade genuína de ser mãe; e, de outro, o receio de que o sofrimento gerado pelo racismo seja estendido ao filho gerado. Neste sentido, o sonho de ser mãe, muitas vezes é adiado ou simplesmente sucumbido.

A maternidade de uma mulher negra passa por enfrentamentos do momento em que se descobre grávida até os momentos finais – vivências permeadas por pré-natais e outros exames.

Segundo estudos da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), de 2017, em uma análise de recorte de raça e cor, sobre partos e nascimentos, existe enorme contraste entre os atendimentos prestados a mulheres grávidas brancas e mulheres negras: mulheres negras estão nitidamente a mercê de um tratamento pré-natal inadequado, com números inferiores de consultas. Além disso, mulheres negras parecem peregrinar mais em busca de atendimento hospitalar no momento de internação para o parto. Sem falar das incontáveis vezes em que vivenciam a ausência de seus companheiros.

Infelizmente, é mais comum do que se imagina escutar nas salas de maternidades brasileiras que “mulheres pretas têm quadris mais largos e, por isso, são parideiras por excelência”, ou ainda “negras são fortes e mais resistentes à dor”. Essa violenta e falsa percepção faz com que mulheres negras recebam doses menores de anestesia e analgésicos para o controle da dor nos partos. Estudos ainda apontam que 60% da mortalidade materna são de mulheres pretas, vítimas de violência obstétrica gerada, normalmente, pelo racismo institucional.

Sobrevivendo a tudo isso, ao ver o filho nascer, surge a expectativa do que virá pela frente para o rebento: ao mesmo tempo em que se delicia com registros de situações vividas pelo filho, a mãe também (re)lembra todas as dificuldades pelas quais o pequeno passará, haja vista a posição que insistem em dar ao negro dentro da sociedade e tudo pelo que ela mesma passou – com o coração na boca, a nova mãe sabe que o seu filho precisará se desdobrar para mostrar sua capacidade, para se representar socialmente, para ser reconhecido como ser humano capaz, competente e íntegro.

Ainda que se perceba algum tipo de mudança no cenário racista acima apresentado, mães negras sabem que, para um filho ou filha negros, sonhar ainda é algo que não foi permitido. Quando homem, adolescente e preto, a certeza é de que raramente não será seguido ao entrar em shoppings ou afins, afinal, com essa cor, ou é ladrão, ou traficante; se der sorte, pode até virar um pagodeiro ou jogador de futebol. Já para a mulher negra, romântica e sonhadora, se chegar a conhecer outras cidades ou países, com certeza se prostituiu. Chegando a TV, ‘ótimos’ papéis estão reservados: chefe do tráfico e/ou a amante ou empregadinha curvilínea.

Uma mãe preta ama incondicionalmente como toda mãe. Na realidade, ouso dizer que ama até mais, pois precisa sobreviver e dar sobrevida aos filhos em uma sociedade que ainda teima em negar a existência do racismo e suas abomináveis consequências.

A mãe preta sabe que, a qualquer momento, pode ser espancada por um policial na frente de um filho; sabe que um filho pode estar sendo sufocado até que lhe falte ar para viver; que um filho pode sair para trabalhar, ir para escola ou mesmo curtir com os amigos, e nunca mais voltar; que a cor da pele é alvo de balas ‘perdidas’; que um filho de 5 anos pode cair do nono andar de um prédio enquanto leva os cachorros da patroa para passear, pois ela, a patroa, não permitiu que a funcionária e mãe ficasse em casa em plena pandemia.

A busca da mãe preta (e dos negros, de maneira geral), não é por favores, mas sim por humanização. A maternidade vem sim recheada de desafios; todavia, o tom da pele ainda determina a intensidade deles.

E mesmo com todo esse cenário de descrença, o meu desejo é o de que todas as mães tenham dias felizes. E as mães pretas, especialmente, tenham dias repleto de esperança, coragem (essa que nunca falta) e, principalmente, PAZ.

Cristina Tadielo é mãe, Advogada, Educadora Psicopedagoga Especializanda em Direitos Humanos e relações Étnicos Raciais; Pós-graduanda em História e Cultura Indígena e Afro brasileira
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