Dear white people…

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Desde que me tornei negra e comecei a pensar em todas as formas de discriminação que sofri até mesmo pelos meus amigos brancos, fruto de um racismo estrutural na maioria das vezes, pensei que tava tranquilo e favorável conviver com pessoas de outra etnia. Me sentia com ferramentas suficiente para poder me posicionar sempre que precisasse, e acreditei que eles me escutariam quando eu me sentisse ofendida. Que praticariam a empatia. Como diz Yuri Marçal: ledo, ledo engano.

Deixando de lado as minhas experiências particulares, o assunto do momento no black twitter – a escalação de José Padilha para dirigir a série da Globo sobre Marielle Franco – me fez pensar novamente sobre a esquerda branca brasileira. Essa parcela da população que ainda acha, em 2020, que tem algo para ensinar e que precisa ajudar a população de etnia diferente.

Em publicação no Instagram, Antonia Pellegrino justifica ser a “criadora” da produção porque conhecia Marielle, que era vereadora e possivelmente conhecia 23749284928429 pessoas, e ela tinha sido a cupido da relação dela com o nosso provável (para não dizer eterno) candidato a prefeito do Rio de Janeiro. Após receber uma enxurrada de críticas, ela, em entrevista para Mauricio Stycer disse que “Se tivesse um Spike Lee, uma Ava DuVernay…”, suspira, citando dois cineastas americanos bem conhecidos. “Mas asseguro que vai ter muitos profissionais negros envolvidos na série”. [É aqui que agradecemos pela generosidade? Não, pera…]

José Padilha foi além para justificar o ‘sim’ ao convite. Em artigo escrito para a Folha  de São Paulo, ele começou a citar Malcon X para dar a entender que o branco não é inimigo do negro. Isso mesmo que você leu. Não preciso continuar…

É possível elencar uma série de questões e problemas dentro do anúncio oficial dessa série. A começar pelo anúncio. Nós do Notícia Preta e, pelo que acompanhamos nas redes sociais, nenhuma outra mídia alternativa foi convidada para fazer parte de debates ou conversas sobre a série, coletivas nem lançamento. Isso porque Marielle Franco sempre foi taxativa ao dizer que era uma mulher, negra, favelada e lésbica. Por acaso não somos sementes de Marielle?

Há tempos, principalmente após a implantação do sistema de cotas e ação afirmativa, estamos reivindicando o fato de nós negros deixarmos de ser objetos de estudo para virarmos sujeitos e pesquisadores de nossa própria História. Vivemos num mundo capitalista, não negarei, e Antonia Pellegrino tem dinheiro e conhecimento suficientes para fazer um projeto como esse sair do papel e ser produzido por uma grande emissora. Mas será que ela que se diz feminista  e amiga de Marielle, a ponto de se sentir à vontade de liderar um projeto de tal magnitude, não parou para pensar que era hora de colocar em prática conceitos básicos como empatia e sororidade? Este último por sabermos que temos algumas diretoras brilhantes e roteiristas brilhantes no Brasil que, com certeza, teriam a sensibilidade de saber contar a vida da imensa mulher que é Marielle; e empatia por entender o lugar de fala da amiga e buscar com todo o recurso que tem em mãos profissionais negros que pudessem produzir junto com ela algo de tamanha importância pra gente. 

Aqui abro um parênteses para dizer que eu, que não sou do mundo do audiovisual, penso de imediato na produtora Cabine e na Yasmin Thainá, cineasta brasileira, roteirista e diretora do curta-metragem Kbela.

A resposta para a última pergunta é: eles sabem desses conceitos, sabem exatamente o que estão fazendo e não se importam! José Padilha ao escrever este artigo mostra que não quer largar o seu lugar de homem branco rico privilegiado e pratica o tão difundido mansplaining – ouso chamar aqui de racesplaining -, quer dizer, está tentando explicar para nós negros que ele é amigo, que ele tem conhecimento suficiente de violência no Brasil para dirigir uma série como essa. Ele quer ajudar a gente, contar sobre fatos que nos atingem diretamente diariamente, porque ELE sabe como fazer. Antonia e Padilha ganham fama e dinheiro às custas de sangue negro, porque a série é sobre isso, sobre o sangue negro que escorre no asfalto do Rio de Janeiro por causa da necropolítica praticada no Estado. Se isso não é apropriação cultural, não sei como poderia chamar.

Eles tiram da gente a possibilidade de contar nossas dores, tomam para si o direito de falar de uma luta que é nossa, de uma questão que nos aflige e nos mata. Não nos dão o direito de contar a NOSSA versão dos fatos. Eles se apropriam da imagem de Marielle, uma mulher negra, favelada e lésbica, tudo o que eles não são, se apropriam da luta e representatividade política dela, para romantizar uma violência que, como já disse, nos atinge. E ainda colocam a culpa no racismo estrutural, motivo pelo qual não temos diretores nem roteiristas negros e qualidade.

Não é apenas sobre a cor da pele ou ser de direita ou esquerda, é sobre empatia. É sobre lugar de fala. De que adianta participar de encontros na casa de Camila Pitanga com Djamila Ribeiro se não conseguem colocar em prática conceitos tão básicos? 

Isso tudo só reforça a percepção de que a maioria dos brancos só está ao nosso lado porque é hype, porque pega bem falar que não é racista e que está com a gente. Eles nunca abrirão mão de seus privilégios, de serem os protagonistas de qualquer história. As estratégias mudam constantemente para que a prática de silenciamento e apagamento continuem atualizadas e sendo colocadas em prática. Por isso é importante reforçar aqui que já passou da hora de atualizarmos as armas para lutar contra esse racismo instituído. Não podemos deixar que calem a voz das sementes de uma mulher eleita!

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Lídia Michelle Azevedo

Formada em Comunicação Social - Jornalismo pela UFRJ, em 2009, já passou pelas redações do Jornal dos Sports, Assessoria de Imprensa do IBDD (Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiencia) Revista Ferroviária, Expresso, Extra, Canal A e atualmente está na assessoria de comunicação da Fundação Cecierj.

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