‘Encontro Preto’ se consolida como movimento de fortalecimento do afroempreendedorismo no Rio

Não é só um belo par de brincos em forma de búzios, uma pomada natural para a pele ou um penteado estiloso. Cada produto ou serviço comercializado na feira “Encontro Preto – Consumo Diferenciado”, na Lapa, região central do Rio, é mais do que mercadoria. É representatividade, afirmação e fortalecimento do afroempreendedorismo. Nos próximos três sábados, a partir de 01/12, 14 marcas vão expor na 33ª edição do encontro, realizado sempre no Instituto Palmares de Direitos Humanos (IPDH), das 11h às 21h.

Chad, Cíntia Pereira e Emanuel Pereira: Idealizadores do Encontro Preto

O evento colaborativo tem a proposta de repensar o consumo responsável. Um diferencial dessa feira é que os produtos são fabricados pelos próprios expositores.

“Chamamos de consumo diferenciado porque as pessoas estão consumindo dos produtores. E é consciente porque a maioria das marcas tem essa preocupação com descarte de produtos, matéria-prima, meio ambiente” explica a afroempreendedora Cíntia Pereira, uma das idealizadoras do Encontro Preto.

Cíntia e o marido são sócios na marca Tendência Black, de moda adulta e infantil. Há quatro anos com o negócio, ela conta que a  feira amplia as possibilidades para os empreendedores: “Os clientes que frequentam já vão sabendo que vão consumir de um empreendedor preto, que fabrica seu produto. Quem vai comprar uma marca acaba conhecendo a outra e se forma uma rede”.

No Encontro Preto, cada expositor paga uma taxa. Esse valor mais o que é arrecadado com a venda de alimentos (veganos) é direcionado para a reforma do IPDH. O instituto sofreu um incêndio em 2010, que destruiu parte do seu telhado e danificou o sistema elétrico e hidráulico. “O espaço levanta a gente porque tem uma história. É local de encontro de pessoas negras, no Centro do Rio, e uma oportunidade para nós, empreendedores, que tínhamos dificuldade de encontrar um lugar acessível para expor”, destaca Cíntia.

Para a afroempreendedora Thayná Trindade, dona da Uzuri Acessórios, o sentimento comum de manter vivo o IPDH faz do Encontro Preto uma família: “Criamos uma unidade e um companheirismo muito grande em prol de um propósito maior, que é a reconstrução do Instituto Palmares, espaço muito importante para a comunidade negra. Além disso, a feira faz funcionar o movimento Black Money, onde o dinheiro gira na mão de pretos e pretas”.

Na pesquisa “Feira Afro: Análise de um mercado emergente no Rio de Janeiro”, realizada pelo Sebrae, 75% dos empreendedores disseram que as vendas são melhores durante as feiras e 70% fabricam seus próprios produtos. Ainda segundo o estudo, realizado em 2016, 50,3% dos consumidores responderam que o fato de empresário ser de cor preta influencia na decisão da compra.

Responsável pela pesquisa e gestora de projeto do Sebrae, Suzana Mattos, explica que as feiras afro integram um movimento político: “Mais do que um nicho de mercado, os afroempreendedores querem fortalecer politicamente a circulação de recursos entre a população negra. É um movimento político de fortalecimento da população negra e do empreendedorismo negro. Na pesquisa, a maioria dos empreendedores entrevistados afirmam que o principal motivo para ter aberto o negócio foi o fortalecimento da cultura afro”.

O “Encontro Preto – Consumo Diferenciado” será realizado nos três primeiros sábado de dezembro (1º, 8 e 15), na Avenida Mém de Sá, 39, Lapa, das 11h às 21h. Nesta edição, vão estar as marcas Mimos BantuNagô, Ayo, Nzinga, Crioula Criativa, Modash, Tendência Black, Negrita, Makebas, Nombeko.

 

Cintia Cruz

Formada em Jornalismo pela PUC-Rio, em 2008, é mãe do Benício, moradora da Baixada Fluminense e tem 36 anos. Trabalhou na Rádio MEC, trabalhou como assessora de imprensa, escreveu para a Revista Raça Brasil e foi freelancer do Canal Futura. Desde 2010, é repórter do Jornal Extra.

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