E se fosse o contrário? Sempre foi.

Era um encontro para mulheres negras aprenderem a tocar jongo. A proposta: heterogeneizar as rodas de jongo, tocada majoritariamente por homens. Com mulheres negras tocando, haveria mais homens para a dança, feita sempre com um casal no meio da roda. Jongo, ritmo de origem africana, trazido ao Brasil pelos negros de origem Bantu.

Foto: Iphan

Mas isso chocou, de alguma forma, mulheres e homens brancos. Alguns deles reivindicaram uma oficina “para todos os gêneros e classes”, falaram em segregação, questionaram com a frase “e se fosse o contrário”? Resolvi problematizar esse “contrário” e lembrei das inúmeras situações que esse tal “contrário” ocorreu. Não foram poucas as vezes. Ao longo da minha infância. Da minha história. Desde quando, no colégio católico, não tinha a opção “candomblé” (entre tantas outras) para marcar na ficha de matrícula a pergunta sobre a religião seguida pelo aluno. Lembrei também das escolhas de alunos para o principal casal da festa junina da escola. Nunca estive lá.

Dez anos depois, ainda sofria as consequências do “contrário” na minha vida. Quando, por exemplo, um colega branco do curso de Comunicação Social conquistou a bolsa de iniciação científica a qual nós dois concorríamos. Ele foi selecionado, mas já fazia dois estágios. Não deu conta. Eu vi ali desperdiçada minha chance. Ainda hoje vivo, a cada dia, um episódio de segregação.

Mas quis sair do campo pessoal e ver se encontrava o “contrário” nas estatísticas. Pesquisei. Vi que, segundo o IBGE, em 2015, 12,8% dos negros, entre 18 e 24 anos, eram estudantes em instituições de ensino superior no Brasil. Jovens brancos eram 26,5%. Os dados do instituto também mostram que, em 2016, o percentual de analfabetismo de negros era de 9,9% e de brancos, 4,2%. Também fomos e somos segregados na saúde. O exame de mamografia é feito por 66,2% das mulheres brancas e 54,% de preta, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), divulgada em 2015.

Ou seja, a segregação, a exclusão, traduzidas na palavra “contrário”, sempre nos foram impostas. Mas esse grupo incomoda quando decide se movimentar e se fortalecer, reverter a submissão. Seja numa roda de jongo, ou na luta por direitos essenciais. Se você ocupa um espaço, mesmo aquele que é seu por tradição e cultura, vai criar mal-estar.

Recentemente, entrevistando o fotógrafo Januário Garcia, o Janu, sobre o 1º Festival de Artes Negras em Nova Iguaçu — Janu foi o grande homenageado do evento — fiquei com os olhos marejados ao me despedir. Janu viajou o mundo documentando a diáspora africana. Também foi fotógrafo dos veículos O Globo, Jornal do Brasil, O Dia, A Tribuna, Manchete, Fatos & Fotos e Revista da Unesco. Quando eu estava de saída, após aquela aula/entrevista, ele me disse: “Quando estamos naquele espaço, temos que ser sempre mais do que os brancos. De qualquer jeito, vão nos colocar para baixo. Então, se soubermos mais, vamos ficar iguais”.

Que nos movimentemos e possamos aprender cada vez mais. E que esse “contrário” seja cada vez mais raro e se reflita em números positivos nas estatísticas. Viva as mulheres negras, os tambores, a cultura, que é tão nossa.

Cintia Cruz

Formada em Jornalismo pela PUC-Rio, em 2008, é mãe do Benício, moradora da Baixada Fluminense e tem 36 anos. Trabalhou na Rádio MEC, trabalhou como assessora de imprensa, escreveu para a Revista Raça Brasil e foi freelancer do Canal Futura. Desde 2010, é repórter do Jornal Extra.

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