Em tempos de coronavírus, contadora de história ensina cultura afro-brasileira às crianças

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A pedagoga Kemla Batista criou há 11 anos o projeto ‘‘Caçando Estórias”, que relaciona a contação de histórias com o audiovisual, o teatro de objetos, a musica e a dança, tudo através da africanidades. E como o próprio nome sugere coloca a criança num patamar de descobrir o universo das tradições afro-brasileiras e ser agente criadora de arte.

Kemla Batista criou o ‘Caçando Estórias’ há 11 anos com a missão de ensinar a cultura afro-brasileira às crianças

Desde a pandemia do novo coronavírus, a contadora de histórias decidiu usar a internet para conversar com os pais e as crianças que estão em quarentena. 

“As lives surgiram como a moda nesse momento difícil. Os criadores de conteúdo na internet se mobilizaram e eu percebi que na grande maioria eram brancos, que falavam para brancos, e senti a necessidade de falar para aqueles que são a maioria em nossa população”.


Mais da metade da população brasileira é negra (54%). E as condições de vida dessa população é na grande maioria das vezes caracterizada pela pobreza e exclusão social, determinadas pela discriminação e o racismo estrutural. E foi pensando em reverter esse quadro que é especialmente prejudicial as crianças pretas e pardas que a Kemla começou a realizar esse trabalho a partir de uma perspectiva não racista.


“Entendendo que a maior parte da população é composta por negros e ciente de que essa população está em sua maioria nas áreas de periferia, onde a água não chega, onde o álcool em gel não chega, onde tudo é mais difícil, eu decidi fazer esse trabalho para conscientizar o público branco e para todas todas as crianças se sentirem representadas. Não é só sobre contar histórias e divertir, pois o que estou fazendo também tem um objetivo social muito grande. O vírus do Covid-19 está aí e vamos combater, mas o vírus do racismo estrutural é permanente e também precisamos derrotar”. 

Natural de Pernambuco e radicada no Rio de Janeiro, Kemla ressalta que as infâncias são diversas e defende a importância de darem espaços para outras narrativas. ”escolhi o quintal da minha casa para ter diariamente esse encontro com os internautas. Todos os dias estou fazendo lives educativas para pais e filhos”.

Segue a introdução de algumas histórias que Kemla Batista conta em seu Instagram @cacandoestorias

No caminho eu conto
O espetáculo investiga a ancestralidade africana na cultura brasileira desde a tradição oral, passando pela música, pelas danças, e religiosidade. Conta a história de Eulália Ajimuda, uma vendedora de acarajés da Praça XV que nos conta histórias de Esù senhor dos caminhos e guardião das encruzilhadas em três fases: A infância, a juventude e a vida adulta. Ela recebe dele a missão de contar seus feitos maravilhosos, distribuir alegria, prosperidade, fertilidade, boa sorte e muito axé. Através dos contos narrados repensamos valores fundamentais a vida, como a amizade, a cooperação, a gratidão e a determinação. Uma bela oportunidade para a desconstrução dos preconceitos e estereótipos sobre a cultura afro-brasileira

Por que Oxalá usa Ekodidé?
A história de Oxalá reconhecendo e prestando homenagem a Oxum, correu mundo. O texto narrado é uma adaptação de diversas versões do mesmo conto e encanta o público pela abordagem intimista, pela musicalidade, e doses de humor que a contadora de histórias empresta. Com duração de 45 minutos a apresentação promove o diálogo de linguagens artísticas como a narração oral, música, dança e artes têxteis. Uma chance para o público aprender com tradições africanas que valorizam a sabedoria e a potência do poder feminino.

Kemla Batista escolheu o quintal da sua casa para fazer as transmissões ao vivo. Foto: arquivo/pessoal

Contos do Lado de Lá
Uma seleção de narrativas de diversos povos africanos. São fábulas de animais, aventuras e contos sobre a natureza e de como as histórias e espalharam pela terra. Fazendo uma reverência a estas pessoas que atravessaram e ainda continuam atravessando o oceano trazendo suas histórias, memórias e cultura, diversidade é que foi criada a contação de histórias “Causos do Lado de Lá”. Do lado de lá do Oceano está boa parte da influência cultural do Brasil, está a riqueza dos saberes de povos tradicionais. Um oceano separa, porém o coração une os povos pela palavra. Uma investigação de contos, narrativas, saberes, memórias, cheiros, cantigas e brincadeiras que vieram do “lado de lá” do Atlântico e que estão aqui para encantar todas as crianças. 


O Príncipe e o Pavão
Através dos itans (contos míticos) as crianças conhecem um pouco sobre o príncipe africano Logun Edé, suas aventuras, travessuras e seu carinho por um animal também majestoso, o pavão.  Por sinal, na Àfrica, consideram que o pavão e o príncipe tem características de comportamento muito parecidas. Ora aberto e encantador. Ora fechado, indeciso e pensativo. E como uma história puxa a outra, a contadora de histórias Kemla Baptista apresenta”O pavão do abre e fecha” de Ana Maria Machado, usando técnicas do teatro de objetos. Uma oportunidade para se encantar, divertir e aprender como os contos da tradição oral e mitos de deuses reis e rainhas africanos se relacionam e podem interagir com textos fundamentais na literatura brasileira.  


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Thiago Augustto

Um filho negro adotado. Thiago Augustto faz questão de marcar sua existência pela raça e pela oportunidade de viver. Transformou o tabu da adoção num grande motivo de orgulho. É criador de conteúdo e palestrante. Se formou em jornalismo em 2014, desde então, trabalha na TV Globo Recife, atuando como produtor e repórter. No Notícia Preta, é editor e coordena os colaboradores das regiões norte e nordeste. Em 2021, criou o Futuro Black - um banco de talentos e de fontes profissionais pretas.

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