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Em que momento aprendemos a nos odiar?

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*Por Marina Lopes

Um dia desses eu estava no ponto de ônibus, concentrada no app que mostra o horário dos
veículos que sobem para a UFJF. De repente, muito do nada mesmo, aparece um homem
negro, aparentemente bêbado e diz a seguinte frase: “melhor colocar uma peruca do que esse
seu cabelo aí”. Naquele dia o meu cabelo estava belíssimo, como sempre esteve. Também
nesse dia garfei o cabelo para valorizar o meu corte novo. Eu aprendi, depois de um longo e
doloroso processo interno, a amar minhas características ancestrais. Ele e muitos dos nossos,
infelizmente não.

Foto: Freepik

Na luta contra o racismo e todas suas camadas, o amor, seja ele próprio ou com relação ao
outro, deve ser mais abordado e utilizado como arma de resistência. Bell Hooks (p.93,94), em
seu livro “Tudo sobre o amor. Novas perspectivas”, expõe de forma profunda a importância do
amor e principalmente do autoamor para nosso povo. Ainda que autora se baseie em um
contexto estadunidense, muito disso se reflete em nosso país:


“O compromisso de dizer a verdade estabelece os fundamentos para a abertura e a
honestidade, que são a pulsação do amor. Quando podemos nos ver como realmente
somos, e nos aceitamos, construímos os fundamentos necessários para o amor-próprio.
Todos já ouvimos a máxima: “Se você não se ama, não poderá amar mais ninguém”.
Soa bem. No entanto, é muito comum sentirmos certo grau de confusão ao ouvir essa
afirmação. A confusão surge pois a maioria das pessoas que pensam não serem dignas
de receber amor tem essa percepção porque, em algum momento de sua vida, foi
socializada por forças fora de seu controle para se ver indigna de amor. Nós não
nascemos sabendo como amar alguém, quer se trate de nós mesmos ou de outras
pessoas”

Quantos de nós já nos odiamos ao olhar no espelho? Já tentamos chegar o mais próximo de
um padrão branco alisando nossos cabelos, fazendo cirurgias, buscando um corpo que não é
nosso? Quantos de nós já acreditaram não merecer o amor? Por muitas vezes esse auto ódio
se externa e ataca de forma direta o que é semelhante. Eu não culpo o homem negro que
falou sobre meu cabelo, por que eu entendo a tristeza de ver um igual se odiando tanto, a
ponto de querer que o seu semelhante também se odeie.

Mas, mesmo compreendendo não deixa de ser triste. Quando eu entrei no ônibus depois daquela frase, eu só conseguia pensar que precisamos utilizar o auto amor como forma de resistência, porque nos odiar também faz parte projeto de extermínio que o racismo nos impôs.

Marina Lopes é jornalista e escritora
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