A carta da Rita – artigo de uma professora que combate o racismo na escola

Por: Sheila Cardoso – Professora

Todos os anos quando assumo uma turma faço milhares de planos de aula na minha cabeça e ao ver os alunos pela primeira vez começo a refazer mentalmente meus planos de aula. Mas naquele ano quando vi meus aluninhos pela primeira vez senti uma alegria muito grande em perceber que a maioria da classe era de alunos negros, muitos retintos. Comecei a imaginar como poderíamos aprender e quanto seria prazeroso trabalhar a temática do negro ali dentro.

Sheila Cardoso leciona em uma escola municipal em São Paulo para alunos do ensino fundamental

Algumas semanas após assumir a turma percebi que a maioria das crianças não gostava de escrever, dia de produção de texto quase ninguém sorria e aquilo me afligia, então tive a ideia de confeccionar uma caixinha de correio para sala, enfeitei e deixei a mais bonita caixinha que consegui. Propus que trocassem cartas ou bilhetes entre si, designei que teríamos um entregador de cartas por dia e fizemos alguns combinados e eles começaram a se interessar em escrever.

Certo dia, no início da aula percebi minha aluninha Rita muito quieta e questionei se ela estava bem, a menina de 9 anos apenas balançou a cabecinha que sim, mas seus olhos negros brilhavam mais que o habitual e aquilo me inquietou e fez prestar mais atenção à menina. Cada vez que eu olhava para ela a sentia mais triste, ela terminou seu dever e abaixou a cabeça sobre o caderno. Eu fui até a mesa dela e coloquei a mão sobre sua testa para averiguar se não havia febre, não tinha e ela não me olhou, então abaixei sobre sua mesa e perguntei se ela estava bem. Ela ergueu os olhos para a direção dos meus e respondeu baixo que sim, mas não me convenceu e eu perguntei se alguém havia chateado ela, brigado, se alguém em sua casa estava doente e ela apenas balançava a cabeça que não. Voltei a atenção ás outras crianças e continuei a aula, mas sempre com os olhos mais fixos em Rita, sem entender o que acontecia .

No meio da aula eu já estava inquieta com a tristeza de Rita, que nada me dizia e Sofia sempre atenta a tudo veio a minha mesa e disse que sabia o motivo da tristeza de Rita, eu logo interroguei a coleguinha que me respondeu que Rita ficou chateada com uma cartinha que colocaram no meio do caderno dela. Antes que eu perguntasse, como não vi ninguém ir até a mesa de Rita, Sofia me disse que a carta foi colocada no meio do caderno que estava na prateleira. Pedi a Sofia que voltasse para o seu lugar. fui à mesa de Rita e pedi a carta, ela apenas me olhou com mais tristeza ainda. Insisti que sabia que ela tinha recebido uma carta e queria ver, Rita sentou melhor em sua cadeira, abriu o caderno e me entregou um envelope mau feito com folha de caderno, eu peguei o envelope e a sala emudeceu. Puxei a carta que estava dentro e, olhando para Rita que já tinha os olhos úmidos, abri  e vi  um desenho apenas de rosto e ombros, o rosto era riscado de lápis preto, tinha uma testa larga, dois círculos brancos abaixo indicando os olhos, um recorte de focinho de porco colado para indicar o nariz , uma boca que ocupava toda a largura do rosto pintada de marrom e pedacinhos de palha de aço representando o que poderia ser os cabelos, abaixo escrito com letra bastão o nome da menina.

Fazia seis anos que eu não sentia a dor que me invadiu ao ver aquele desenho, voltei os olhos para Rita que estava em lágrimas silenciosas, molhando completamente seu caderno, respirei fundo e perguntei para a sala se alguém gostaria de me falar sobre aquele projeto horroroso de carta. A sala permaneceu muda. Eu aguardei aproximadamente um minuto, olhando para aquelas crianças de tantas cores tentando entender quem seria o autor de tamanha maldade e como ninguém me respondeu, comecei a perguntar a cor de cada aluno, um respondeu chocolate, outro café com leite, outro branco, um aluno negro disse que era branco. Rita foi a única a se definir como negra e apenas um menino disse ser preto e ali percebi que meu trabalho estava raso demais, superficial demais para aquela turma. Perguntei se tinham noção que aquilo que eles chamavam de carta era crime e o que acreditavam que deveria ser feito com o autor da tal carta. Como ninguém se manifestava pedi que todos escrevem para mim mudando suas letras e colocassem o nome do autor da carta, caso contrário todos seriam suspensos e deu certo, dos 28 alunos presentes 22 escreveram os mesmos nomes, de dois meninos brancos.

Naquele dia após me despedir dos alunos entrei no meu carro, fechei a porta e chorei muito mais que a Rita, muito mais que eu poderia imaginar um dia que choraria por uma cartinha maldosa de criança. Eu olhava para aquele desenho e meu coração parecia não bater, eu perguntava para Deus como eu lecionando há mais de uma década, tendo feito minha monografia com o título de O preconceito racial no espaço escolar poderia ter deixado aquilo acontecer. Eu chorava por não ter brigado mais no início das aulas e imposto meu projeto Diamante Negro que trabalha exatamente o preconceito racial, chorava sem saber como reverter aquilo e tirar a tristeza do coração de Rita, não permitir que aquilo marcasse ela. Chorei por muito tempo e depois comecei a escrever para os gestores da escola o acontecido, fui amparada por ambos diretores que se prontificaram a já convocar os pais dos meninos autores da carta e assim foi feito.

A carta de Rita ainda faz meu coração doer quando lembro de suas lágrimas silenciosas ao meu ver com a carta, mas ela me fez recordar minha monografia, recordar meu artigo da Pós, sobre a interpretação do desenho infantil e me fez abrir uma militância dentro daquela sala. Mesmo meus colegas professores tendo rejeitado meu projeto, por eu ter entrado depois deles na escola e eles talvez não sentirem muita necessidade da minha temática, coloquei em prática tudo que pude do meu projeto: as biografias dos negros notáveis, a pesquisa sobre o movimento eugênico no Brasil, uma série de vídeos sobre o racismo estrutural e trouxe para a leitura diária de início de aula o livro  Um defeito de cor, da Ana Maria Gonçalves, claro que esse livro não é indicado para um quarto ano do ensino fundamental, mas lendo de forma mais romântica e pulando os trechos mais adultos no decorrer dos capítulos.

Alguns meses depois voltei a perguntar a cor de cada criança e para minha surpresa apenas 4 crianças dos 34 alunos se declaram brancos, confesso que segurei as lágrimas que só caíram novamente na última semana de aula, quando recebi uma cartinha de Rita me dizendo que quando crescer quer ser professora como eu e me presenteando com uma linda africana de cerâmica, com 30cm de altura.

2 comentários em “A carta da Rita – artigo de uma professora que combate o racismo na escola

  • 13 de dezembro de 2018 em 07:04
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    Que linda e emocionante essa Carta da Rita, esse trabalho feito por essa professora é muito importante, coisa que deveria fazer parte da grade curricular de todos os professores do estado ou da rede particular, pois as crianças de hoje desconhecem a cultura negra e ainda são muito preconceituosas, precisamos de mais professores assim nas escolas.

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  • 14 de dezembro de 2018 em 22:07
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    Impossivel não se emocionar!

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