Dos amistosos internacionais às ligas europeias: cresce o racismo no futebol europeu

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A última semana de data Fifa na Europa, que serviu para as seleções do mundo inteiro disputarem amistosos e jogos oficiais, foi repleta de acontecimentos racistas envolvendo atletas estrangeiros, sejam por insultos à cor da pele ou então pela descendência das vítimas.

Os jogos que envolveram Alemanha e Sérvia, assim como Inglaterra e Montenegro, tiveram casos comprovados de racismo. Não à toa, em todos esses acontecimentos ficou explícito o passado inglório dos países, principalmente pela forma como foram legitimadas as discriminações.

No amistoso entre alemães e sérvios (20/3) que acabou empatado, foram identificados durante a partida cânticos de cunho neonazista em saudação à Adolf Hitler e discursos racistas com relação aos jogadores Leroy Sané e IIKay Gündogan, que defendem a seleção alemã. Graças ao vídeo postado por um torcedor na internet, três torcedores foram vistos proferindo as ofensas raciais e, assim, sendo detidos e intimados para prestarem depoimentos à justiça nacional. No vídeo postado pelo torcedor, notou-se que o discurso de ódio é voltado à cor da pele de Sané e à ascendência turca de Gündogan. Essa não é a primeira vez que acontece algo similar na seleção alemã, visto que o ex-convocado Mesut Özil, também com origem nos povos turcos, aposentou-se do selecionado nacional, alegando o tratamento diferenciado por parte dos dirigentes alemães, devido à sua descendência não-germânica.

Após a partida, o alemão Leon Goretzka saiu em defesa dos companheiros de seleção, em sua conta oficial do Twitter, fortalecendo a ideia de integração que tanto beneficia a sociedade alemã dentro e fora do futebol. “Xenofobia não tem lugar no estádio ou na sociedade. Eu venho do [Vale do] Ruhr, onde você responde a uma pergunta sobre sua nacionalidade com ‘Schalke’, ‘Dortmund’ ou ‘Boochum’. Para nós, integração não é uma questão, mas um fato evidente”, afirmou o meio-campista.

Em publicação feita no Twitter, a Federação Alemã de Futebol (DFB) se pronunciou categoricamente acerca do acontecido e afirmou se opor “a qualquer forma de racismo, discriminação e violência”. Atualmente, a população com descendência turca e negra na Alemanha tem sido o perfil ideal dos ataques racistas dentro do próprio país, a exemplo também do contexto da política de migrações que causam polêmica na sociedade local.

Racismo no futebol britânico e o ‘símbolo Sterling’

Sterling

Outro caso de racismo preocupante durante a data Fifa, foi durante a classificatória para a Eurocopa de 2020 entre montenegrinos e ingleses. A partida que aconteceu no leste europeu na última segunda-feira (25), teve como protagonista não somente o jogo, afinal a goleada da Inglaterra por 5 a 1 em cima de Montenegro não ficou batida, mas o preconceito que extrapolou as quatro linhas, sim.

Os atletas negros Raheem Sterling, Callum Hudson-Odoi e Danny Rose foram os principais alvos das ofensas racistas vindas da torcida adversária, o que causou furor entre as vítimas que estavam em campo, assim como o comandante do English Team, Gareth Southgate que foi reclamar publicamente do caso: “Eu claramente ouvi ofensas a Danny Rose quando ele recebeu um cartão no final. Não é aceitável. Não há dúvida na minha cabeça do que acontece, e vamos levar o caso à Uefa”, afirmou indignado.

No dia seguinte aos ataques, a UEFA abriu um processo disciplinar contra Montenegro por “comportamento racista”, devido aos cânticos da torcida local. A expectativa é que a entidade se pronuncie de forma mais contundente até 16 de maio.

Após a vitória da seleção inglesa, na entrevista concedida ao canal “BeIN Sports”, o jovem de 18 anos vítima dos ataques, Odoi, que havia sido convocado pela primeira vez para a seleção, repudiou os atos racistas. “Quando você está ouvindo coisas como essas dos fãs, não é certo, nem aceitável. Tomara que a Uefa lide com isso adequadamente. Quando eu e Rosey fomos até lá, estavam imitando macacos. Tivemos que manter a cabeça no lugar”, lamentou o jovem.

Enquanto isso, Sterling, talvez o jogador mais combativo em relação ao racismo no futebol atual e o alvo principal das ofensas em Montenegro, questionou a forma que os órgãos representativos da modalidade lidam com esses casos. “Estamos em 2019, é uma vergonha que isso aconteça. É hora de as pessoas no poder tomarem uma medida. Você pode multá-los, mas e aí? Você precisa fazer algo que vá fazê-los pensar duas vezes”, indagou.

O jovem atleta do Manchester City é o jogador que vem questionando o tratamento midiático e civil sobre os diversos casos de racismo na Inglaterra, sendo ele o envolvido ou não. Além disso, o atacante tem sofrido de forma constante ataques racistas dentro e fora de campo, a exemplo do jogo entre o clube em que atua e o Chelsea, válido pelo Campeonato Inglês, em dezembro do ano passado, quando ouviu dos torcedores adversários os insultos racistas. Após a partida, ele questionou a imprensa britânica e afirmou que a forma como a mídia local trata os jogadores negros no país “ajuda a alimentar o racismo”. Numa publicação feita pelo atleta em sua conta no Instagram, Sterling expôs duas manchetes do mesmo jornal, aonde o mesmo trata de forma diferente dois atletas do mesmo clube. No caso de Tosin Adarabioyo, zagueiro de 20 anos, a matéria questiona o fato do jovem negro ter comprado uma mansão para a sua mãe ganhando certa quantia, enquanto Phil Foden, branco, na mesma idade e com situação parecida, foi visto com normalidade o fato de ter comprado a residência avaliada em 2 milhões de libras.

O MANIFESTO DE RAHEEM STERLING NA ÍNTEGRA (TRADUZIDO):

“Normalmente eu sou a pessoa que não fala muito, mas quando acho que meu ponto precisa ser ouvido, eu falo. Olhando para o que foi dito no jogo com o Chelsea, como puderam ver pela minha reação, eu só podia rir, porque não esperava nada diferente. Por exemplo, você tem dois jovens jogadores começando suas carreiras no mesmo clube. Os dois fizeram a coisa certa, que é comprar uma nova casa para suas respectivas mães, que deram muito amor e dedicaram muito tempo para ajudá-los a chegar onde estão. Mas olha como a mensagem é colocada para o jogador negro e para o jogador branco. Isso é inaceitável. Os dois são inocentes e não fizeram nada errado, mas (o problema) é a maneira como foi colocado. Esse jovem negro é visto de maneira negativa. Isso ajuda a alimentar o racismo e comportamentos agressivos. Os jornais não entendem como as pessoas são racistas hoje em dia, mas tudo o que eu digo é: pensem novamente sobre publicidade justa e deem chances iguais a todos os jogadores.”

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Luis Fernando Filho

Jornalista formado pela UFSM, militante dentro dos movimentos negros e estudantis, com experiências em veículos de comunicação independentes. Um amante do futebol e apaixonado por histórias de pessoas reais. Minha maior paixão é a reportagem.

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