Mostra Literária em Salvador exclui artistas negros

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A primeira capital do Brasil, Salvador, é mundialmente conhecida por sediar o maior carnaval de rua do planeta, com registro no Guinness World Records – Livro dos Recordes. Mas, é impossível pensar na cidade sem relacionar com a sua negritude, afinal 80% da população composta por negros e pardos, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2017.

Exatamente por esse motivo, a Mostra Literária de Salvador, que acontece no dia 13 de abril, no Teatro SESI Rio Vermelho, chamou a atenção dos soteropolitanos. Entre os escritores e influenciadores digitais que participarão de debates e oficinas não há negros. Consequentemente, o evento passou a receber questionamentos através de suas redes sociais.
Através da rede de relacionamento, Instagram, o ator Érico Brás criticou a Mostra de Salvador. “Esse evento me chama atenção por vários fatores. Mas um desses fatores é com certeza um grave erro. Me refiro ausência sistemática de negros na estrutura do evento.

Como falar de literatura Off sem levar em consideração a parcela majoritária de negros e negras que habitam a esfera artístico-literária de Salvador? Como ignorar o relato desses profissionais deixando-os de fora das mesas de debate? A essa altura, realizar esse tipo de evento, patrocinado com dinheiro público e ao mesmo tempo deixar de fora o relato literário dessa cidade majoritariamente negra é no mínimo um fracasso intelecto-literário” publicou o ator.

Diante do questionamento popular e das manifestações dos artistas e escritores, como a poeta Lívia Natália, Projeto Lendo Mulheres Negras, Sarau da Onça, Etiene Martins, dentre outros, a Mostra emitiu uma nota oficial admitindo o erro.

A organização da Mostra afirma que “reconhece que no processo de concepção da iniciativa houve falha. Ressalta, ainda, que nunca houve qualquer propósito de cercear participações e reafirma a disposição ao diálogo e ao acolhimento das críticas”, informaram. Como medida de retratação a organização buscou, de forma emergencial, convidar artistas e coletivos negros para suprir essa carência. Sandro Sussuarana, do Sarau da Onça, foi convidado e aceitou colaborar com o evento.


“Quando eu vi que na programação não tinha nenhum autor e nem autora negra, eu fiquei indignado, postei até no meu Instagram fazendo a crítica. Recebi a ligação de um dos produtores me explicando o que ocorreu, eu entendi. Como um produtor cultural, sei que erros acontecem. Se tratando de produtores brancos nunca foi do perfil deles fazer esse recorte e pautar a participação de autores que não são do seu circulo de vivência. Me dispus a ajudar na reparação do erro e expliquei o motivo dos nossos questionamentos, que não estávamos com isso pedindo esmola e nem para participar, mas que em uma cidade majoritariamente negra, autores desta área deveriam ao menos serem contatados a respeito deste evento”, explicou o poeta Sandro.

No entanto, as participantes do Projeto Lendo Mulheres Negras, criticaram a solução encontrada pela organização em convidar autores e grupos de última hora. Além de recusarem participar da Mostra, as participantes também se posicionaram em uma rede social. O convite tardio estaria “mostrando não só deselegância e amadorismo, mas, uma falta de pesquisa absurda”, afirmaram.



“Nós mulheres negras temos um duplo desafio, em ser mulher e ser negra, e esse desafio perpassa a invisibilidade, que considera nosso trabalho inferior ou menos relevante”, completa Evelyn Sacramento, Lendo Mulheres Negras.

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Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e com especialização em audiovisual pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, assessora de imprensa e idealizadora do portal Notícia Preta, um site de jornalismo colaborativo. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

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