Livro ‘Gabyanna Negra e Gorda’ fala sobre solidão, amores e preconceito

Por muitos anos a contadora Gabriela Rocha lutou contra a balança e contra o racismo. Até que um dia decidiu escrever um livro sobre o duplo preconceito que sofre e empoderar mulheres negras e consideradas ‘acima do peso’. Assim nasceu o livro Gabyanna Negra e Gorda, que será lançado na próxima terça-feira (18), no OTHELLO Centro Cultural, no Rio de Janeiro.

A autora criou a personagem a partir de histórias que aconteceram com ela mesma e outras que presenciou. No livro, Gabyanna é uma jovem independente, que adora bailes de charme, shows, bares e viagens. Muito apaixonada pela vida, ela não tem medo de sonhar e acreditar que um dia pode encontrar um homem disposto a assumi-la publicamente, um dos grandes desafios das mulheres negras.

os caras com quem ficava (escondido) sempre apareciam (em público) com uma mulher branca e magra”, diz autora

Gabriela Rocha, autora do livro Gabyanna Negra e Gorda

Confira a entrevista que a autora concedeu ao Portal Notícia Preta:

Com quantos anos você começou a perceber que sofria um duplo preconceito, por sua cor e por seu corpo?

Sobre a cor, acho que foi desde a época do ensino médio, pois sempre estudei em escolas católicas particulares em Brasilia, então já me via diferente, pois a maior parte dos meus colegas eram brancos e até então neste ambiente todos os meninos da escola só queriam ser meus amigos mesmo, apesar de todas as outras meninas branquinhas magrinhas já terem um namoradinho aqui, outro ali. Sobre o corpo, já foi mais adulta, por volta dos 21 anos, quando via que os caras com quem ficava (escondido), sempre apareciam (em público) com uma mulher branca e magra (ou gostosa, de acordo com a sociedade).

Quais são as situações mais desconfortantes que você já viveu e vive?

Já fui considerada a faxineira/empregada no meu próprio apartamento no Rio, por entregador de água, por vizinho, ou por alguém que fosse me prestar um serviço. Já não quiseram pegar o elevador comigo num prédio da Zona Sul do Rio de Janeiro. Já fiquei esperando por táxis pararem pra mim em Salvador, sendo que vários passaram vazios. Já teve estrangeiro que falou na minha cara que queria me “pegar” porque eu era negra e queria “me” experimentar. Aqui na Noruega sofri uma das coisas mais chocantes, racismo de um homem português. Estávamos eu e outra colega negra tomando um chopp num bar e como falávamos português ele identificou o idioma e veio falar conosco. Eu sou gerente tributária na área de óleo e gás e ela também numa firma de consultoria também aqui em Oslo. Ele nem sequer tentou perguntar o que nós fazíamos e já foi emendando dizendo que como éramos novas na cidade, a melhor forma de começar a arrumar emprego era aplicar para as firmas de limpeza.

Como aprendeu a encontrar teu espaço em meio uma sociedade repleta de preconceitos?

Eu sempre ignorei o racismo, no sentido que eu via que ele estava acontecendo, mas passava por cima, ou seja, eu traçava aquela meta e não olhava pros lados, nem pra trás. Mas acho que a autoconfiança foi construída pelo fato de eu ter sempre vivido em ambientes mais brancos que negros, então eu internalizei que era diferente mesmo. Meus pais tiveram condições financeiras em me dar uma boa educação e nisso que eu me apegava. Acho que consegui encontrar meu espaço e ser respeitada principalmente na área profissional (por conta da educação), mesmo sabendo que tinha gente que não gostava de mim por eu ser negra, mas me engoliam por não ter opção.

Um dos grandes desafios da mulher negra é encontrar um amor que a assuma. Como é isso para uma mulher que sofre um preconceito duplo?

Ahhh isso é bem complicado, você dá uma pirada. Óbvio que nunca cheguei a ter “ódio” da minha cor por não ter encontrado um parceiro até certo ponto da minha vida. Mas durante toda minha vida (farei 40 anos em janeiro) tentei todas as dietas possíveis e imagináveis (só não tentei cirurgia porque tenho medo), mas já tomei todas as anfetaminas, sibutraminas que você imaginar para conseguir ficar com o corpo aceito. Sobre a cor da minha pele, bem não tinha muito o que fazer mas deixar o cabelo “bom” era sempre uma odisséia, diferentes salões, diferentes cabeleireiros , diferentes produtos e ainda deixava meu cabelo “bom” o suficiente. Hoje uso ele natural mesmo. Mas como eu disse, sobre a relação com a cor da minha pele, eu tentava não pensar nisso, eu sabia que o preconceito estava ali e criei uma espécie de mecanismo, onde eu só me interessava por pessoas que se interessavam por mim (relacionamento, amigos, família), quem não se interessava, eu não pensava se era porque eu era negra ou não, simplesmente ignorava.

Como e por que você decidiu escrever esse livro?

Eu comecei a pensar em escrever esse livro em 2007, tinha 28 anos, ainda solteira e muitas histórias pra contar de relacionamentos desastrosos. Mas o tempo passou, eu não tinha nem tempo, nem dinheiro pra investir e além disso eu sou contadora então não é todo dia que estou inspirada, criativamente falando. Porém, quando vim morar na Noruega em 2016, eu tinha muito tempo livre depois do trabalho, porque não tinha amigos, família nem nada, então resolvi usar meu tempo livre pra começar a trabalhar no livro. Eu já tinha muitas histórias que queria contar arquivadas em texto ou áudio, acumulados durante todos esses anos, então peguei esse material e comecei a trabalhar nesse projeto. Trabalhei por 2 anos em silêncio e a maioria das pessoas (incluindo meus pais), só ficaram sabendo dias antes do lançamento.

Este livro é baseado em histórias reais? Se sim, elas aconteceram com que?

Sim, o livro é baseado em histórias que aconteceram comigo mesma e ao longo da minha vida, então a minha ideia foi criar a personagem central e os outros personagens, para poder contar essas histórias de maneira mais livre, criando ou aumentando outras situações que não são reais para que o livro fizesse sentido, não expor as pessoas envolvidas e ao mesmo tempo passar a mensagem.

O que você pretende lançando esta obra?

Eu pretendo mostrar pra todas as meninas pretas e gordas que estão mundo a fora que elas não estão sozinhas, que elas não podem se deixar abater, que racismo e gordofobia não é culpa delas. Elas são livres e lindas pra serem o que quiserem, como quiserem e quando quiserem, afinal somos todos seres humanos. O que o outro pensa sobre você, não pode mudar sua essência. Tem que confiar e seguir.

Como manter sua saúde mental em uma sociedade extremamente preconceituosa quando se é uma mulher negra acima do peso sem cair no esteriótipo da “gordinha engraçada amiga de todos”?

Pois é, eu sempre caio nessa cilada (risos). Mas é uma questão de tempo e autoconhecimento. Nesse processo, você tem que saber quais são os seus limites e não deixar que as pessoas abusem de você, o que significa ter que se impor quando for necessário e não ter medo. No final, quem te aceita do jeito que você é, é o que realmente importa, o resto é lixo.

Serviço:

Lançamento do livro Gabyanna Negra e Gorda

18/12 – terça-feira, das 18h às 22h.

Local: Othello – Centro Cultural. (Rua Moraes e Vale, 15 – Lapa.

Editora Schoba

Páginas: 177

Preço: R$ 40

Discotecagem de Re.Fem

Thais Bernardes

Cursou Relações Públicas na UERJ onde ingressou pelo sistema de cotas. Através de um programa de intercâmbio da Universidade, formou-se jornalista pelo no Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris. Após a graduação especializou-se em audiovisual pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), na França. Atuou como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio.

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