“Cada recorte de diversidade que a gente carrega é um dificultador para nós mulheres negras”, diz Patrícia Santos, CEO da EmpregueAfro

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No Dia Internacional da Mulher, a empreendedora também ressalta quanto o machismo ainda atrapalha as negociações de mulheres negras

8 de março é celebrado o Dia Internacional da Mulher e uma pesquisa da  Global Entrepreneurship Monitor (GEM), em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) mostra que 34% dos empreendedores brasileiros são mulheres. Além disso, o estudo mostra também que não há diferença em percentual entre mulheres e homens quando se fala em empreendedorismo inicial e existe um maior abandono feminino no empreendedorismo. 

Patrícia Santos trabalhou sete anos como voluntária até a EmpregueAfro se tornar uma consultoria de RH – Foto: Arquivo Pessoal

Patrícia Santos, CEO Fundadora da EmpregueAfro, consultoria em Recursos Humanos focada em diversidade Étnico-racial, conta que a empresa tem 17 anos, mas durante os sete primeiros anos, o mercado não apostava financeiramente na consultoria e o machismo, ainda hoje, discrimina as mulheres nos negócios. “Dificulta a nossa gestão e negociação, e as cargas duplas e triplas que a gente carrega como mulheres, mães, negras e periféricas. Cada recorte de diversidade que a gente carrega tem um dificultador a mais e é difícil ser mulher, negra estar a frente de um negócio e superar todas essas barreiras que são estruturais na nossa sociedade. Mais fácil desistir e voltar para o mercado de trabalho ou nem isso. Vai da realidade de cada mulher”, relata. 

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Ainda de acordo com Patrícia, as mulheres têm tido mais espaços em relação às grandes marcas e puxadas, em partes, por mulheres brancas. “Eu acredito que nós mulheres, principalmente, ganhamos mais espaços quando as grandes marcas tentam acessar esses espaços e a maioria das mulheres que abrem caminho são as mulheres brancas. Elas enfrentam tanto machismo que começam a perceber que faltam mulheres negras e o próximo passo é puxar um pouco de mais mulheres negras para esses espaços que elas conquistaram”, comenta. 

Patrícia ressalta ainda a importância do feminismo negro nessa mudança de realidade, quando se fala em mulher negra e mercado. “O feminismo evolui para a discussão do feminismo negro, principalmente do final dos anos 2000 para cá, e é só quando uma mulher chega que ela puxa a outra. É muito mais difícil ter homens no seu quadrado do privilégio que decidam fazer algo em prol da inclusão. Falo isso porque 90% dos nossos contratos são geridos por mulheres brancas”, afirma.

Credibilidade questionada

As pessoas negras em geral, especialmente mulheres, precisam demonstrar sua capacidade técnica a todo momento e atender com excelência todas as demandas apresentadas. Patrícia enfatiza que, nas negociações com grandes marcas, é necessário apresentar uma competência técnica “muito acima da média para ser reconhecida como potencial fornecedor”. “Bem difícil. A gente tem que ter uma postura ética, elegante, muito forte na hora da negociação, demonstrar força, capacidade técnica, conhecimento consistente, para daí conseguir vencer e vender nossos serviços. Eu percebi isso no começo, quando decidi sair do projeto social para uma consultoria e profissionalizar a Empregue Afro”, revela.

Patrícia ressalta o quanto o machismo ainda atrapalha as negociações – Foto: Arquivo Pessoal

A CEO Fundadora da EmpregueAfro ainda se mantém atualizada e estudando para ter mais credibilidade no mercado. “No começo eu via mesmo uma grande dificuldade de reconhecimento da minha credibilidade como profissional e eu fui aprimorando meus conhecimentos, tanto que, agora, eu estou cursando meu segundo MBA, com 20 anos de carreira. Me forço a me especializar cada vez mais para manter minha credibilidade e reconhecimento no mercado”, finaliza. 

Mulheres na política

Dia 24 de fevereiro completou 90 anos do sufrágio feminino, porém, um estudo da Coalizão Negra por Direitos, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), revela que mais da metade dos municípios brasileiros não elegeram nenhuma vereadora negra nas eleições de 2020. 

De acordo com a pesquisa, 57,2% dos municípios não elegeram nenhuma vereadora negra ou parda no último pleito municipal e 15,7% não tem nenhum vereador negro em seus quadros. Considerando que o Brasil possui 5.570 municípios, em números absolutos, 57,2% significa que 3.184 municípios não têm sequer uma representante negra em suas câmaras municipais. 

“Caso o acesso aos espaços formais de tomada de decisão política fosse igualitário do ponto de vista da raça e do gênero, seria esperado que a participação de cada um desses grupos nas câmaras municipais fosse semelhante às suas proporções na sociedade, pois não há um gênero ou uma raça naturalmente mais propensa ou apta a ganhar eleições”, explica Luciana de Oliveira Ramos, coordenadora da pesquisa.

História do 8 de março

No dia 8 de março de 1911, 130 mulheres foram presas e carbonizadas em uma fábrica têxtil em Nova Iorque, depois de reivindicarem melhores condições de trabalho e igualdade de tratamento em relação aos homens. No entanto, este foi um momento marcante de uma trajetória de lutas das mulheres por direitos iguais. 

Desde o final do século XIX, organizações femininas protestavam em diversos países europeus e nos Estados unidos por igualdade de tratamento e também pelo fim do trabalho infantil, principalmente nas indústrias. 

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Igor Rocha

Igor Rocha é jornalista, nascido e criado no Cantinho do Céu, com ampla experiência em assessoria de comunicação e escritor nas horas vagas. Editor e coordenador regional do Notícia Preta

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