Baixada Fluminense: um cemitério clandestino

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Bairros da Baixada Fluminense ocupam a lista de municípios mais violentos do país e Queimados lidera o índice de homicídios no Brasil, aponta Atlas da Violência

Luciene Silva, integrante da Rede de Mães, em audiência pública na Alerj

Essas vítimas não são marginais, não nasceram de chocadeiras. Esses jovens nasceram de mulheres que os gerou por nove meses, mas que perderam seus filhos para a polícia”

Luciene Silva, integrante da Rede de Mães e familiares da Baixada Fluminense, iniciou a audiência pública ocorrida na última sexta-feira(29), na Alerj. Dividindo a mesa com professores e profissionais da justiça, sob mediação das Deputadas Estaduais Dani Monteiro e Renata Souza, Luciene falou sobre a dor de perder o filho para o Estado e a falta de empatia da sociedade no acolhimento das vítimas secundárias.

 Rafael da Silva Couto, filho de Luciene, foi executado junto a outros 28 jovens, no episódio que ficou conhecido como a maior chacina do Estado do Rio de Janeiro.

Na noite do dia 31 de março de 2005, policiais à paisana executaram jovens que atravessaram o caminho que ia de Nova Iguaçu a Queimados, ambos municípios da Baixada Fluminense.

Apesar de a execução ter tomado conhecimento mundial e os 11 assassinos terem sido acusados, suas fardas os protegeram. Marcelo Barbosa de Oliveira, Maurício Jorge da Matta Montezano, Sedimar Gomes e Walter Mário Tenório Mariotini Valim foram absolvidos pela justiça por falta de provas, enquanto o restante do grupo sequer teve o nome vinculado ao processo, sob alegação de não haver contato destes com os demais acusados.

A demora e insatisfação no processo judicial fez com que parentes criassem a Rede de Mães e Familiares da Baixada Fluminense, com objetivo de se fortalecerem e, juntos, cobrarem por justiça. Hoje, 14 anos após a chacina, familiares seguem no desafio de manter a memória das vítimas e, através de reuniões, audiências e militância, rogam pela vida de jovens da Baixada que estão na mira do Estado.

Familiares vitimas da violência na Baixada Fluminense

Ser bacharel em direito e cursar aulas sobre prevenção à vida parece não funcionar para a polícia que mais mata.

À frente do policiamento da Baixada Fluminense, Coronel Amaral reconheceu o aumento no índice de mortes durante intervenções do Estado, antes conhecido como “autos de resistência”.

Por outro lado, o coronel afirma que as condições de trabalho corroboram para o alto índice de letalidade policial, tendo em vista que, para uma população de mais de 500 mil habitantes de Belford Roxo- eleito o município mais violento do mundo- a PMERJ conta com menos de 400 homens em condição de trabalho.

Para os familiares, a falta de policiais não justifica o alto índice de corpos desovados, o que transforma a Baixada Fluminense em um grande cemitério clandestino.

A taxa de resolução de homicídios mal chega a 10% e esse baixo nível, aliado ao medo de serem as próximas vítimas, faz com que familiares não denunciem os responsáveis pelo crime. O receio de ter o fim em um valão, bem como tantas outros assassinados, faz com que o número real de vítimas não apareça em dados públicos. Caso a política de proteção à testemunha de fato funcionasse, dados mostrariam a realidade por trás da verdadeira face da Baixada Fluminense: terra de bicheiros, políticos milicianos e Estado homicida.

Enquanto vivem ao Deus dará, moradores da Baixada Fluminense organizam frentes de combate à violência policial contra a população, sobretudo jovens negros e pobres. Como cegos em tiroteio, mas sem perder a visão intelectual, a potência da Baixada segue desviando de balas, não as que adoçam a vida, mas sim as que aceleram a partida.



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Ana Paula Souza

Estudante de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e trabalha como jornalista da Agência Narra, cuja sede é o Observatório de Favelas.

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