Afetividade negra é foco do novo álbum do Rico Dalasam

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O álbum “Dolores Dala Guardião do Alívio” traz reflexão sobre vivência afetiva dos pretos sulamericanos

Dentro de uma sociedade racializada como a brasileira, falar de afeto também perpassa por questões raciais inerentes a ele. Para além do aspecto social e político, o rapper paulistano Rico Dalasam lançou o seu segundo álbum da sua carreira chamado Dolores Dala Guardião do Alívio” (DDGA). O trabalho do artista dialoga com o lugar de desafeto que marca a vivência amorosa de muitas pessoas. Ele também enuncia o abalo da autoestima, amor próprio e saúde mental que o racismo indiretamente – e diretamente – causa na vida da população preta.

Um retrato dos impactos do racismo para a saúde mental dos negros pode ser observado com os dados do Ministério da Saúde, disponíveis na cartilha Óbitos por Suicídios entre Adolescentes e Jovens (2018). O levantamento mostra que a taxa de mortalidade por suicídio entre jovens e adolescentes negros é três vezes maior que a de pessoas brancas do mesmo grupo. O índice permaneceu estável de 2012 a 2016 entre pessoas brancas, mas teve aumento de 12% na população negra.

A desumanização e o preterimento do corpo preto é uma das nuances dos estigmas relacionados à sua imagem. O psicólogo clínico e mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Paulo Ricardo Licar, ressalta o fato que o racismo é um projeto de dominação da branquitude estruturado para afetar a autoestima dos pretos de forma cruel e gradual. Diante disso, ele questiona: “Como vou me amar, se tudo o que é vendido como amável não é preto?”. Essas ações e comportamentos que reforçam um padrão embranquecido de beleza são mecanismos, advindos do racismo, para distorcer a autoimagem da negritude.

Licar afirma ainda que, em relação à vida amorosa, “a população negra é atravessada por um histórico repleto de rejeições, solidão e preterimento, principalmente quando falamos de mulheres negras”. Isso fica ainda mais tangível com os dados, levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2018, em que estima-se que no Brasil 7,8 milhões de lares são geridos por mulheres negras. Deste total, 61% dessas mulheres são mães solo.

O psicólogo pontua que o álbum DDGA dialoga com um processo de reconhecimento que é doloroso, mas também libertador. Ao analisar a faixa “Braile”, desse álbum, ele percebe essa tomada de consciência no que diz respeito a relações afetivas de pessoas negras. No trecho da música, Rico canta:

Caro menino branco
Esse nosso encontro pede a lucidez
De saber o lugar que me encontro
E você, por sua vez
Se é pra andar ao meu lado, saiba que
Alguém foi senhor
Alguém foi escravo
E, entre nós, esse espaço
Pede alguns passos

A importância do diálogo trazido nesse álbum é nítida para quem escuta o som do Dalasam e se reconhece naquela realidade. O fotógrafo André Barcelos afirma ser genial observar as nuances que o rapper navega dentro do relacionamento que retrata nas músicas. “Ele mostra pontos em que ele vai querer se conectar, e os que ele verdadeiramente se conectou com essa pessoa. Mas, ele também mostra as diferenças que essa pessoa não está nem um pouco a fim de segurar”, explica.

Rico Dalasam

Barcelos, ao escutar o álbum, identifica que o caminho até chegar ao afeto, em muitos momentos, é doloroso para o povo preto. “São muitas vezes que a gente tenta mas não é correspondido só por causa da nossa cor de pele, do nosso jeito, do nosso corpo enquanto as pessoas brancas se deleitam do privilégio que é chegar ao afeto de uma forma muito mais fácil, pois o afeto foi feito por eles e ao molde deles”, conclui.

A psicóloga e diretora do Instituto Por Direitos e Igualdade (IDI), Thayná Trindade, reitera que a pessoa negra, no seu processo de entendimento de negritude, precisa pensar que na sociedade brasileira há o enfrentamento com uma realidade feita para odiá-la e fazê-la se odiar. “O negro foi sistematicamente apagado como exemplo de algo bom, inteligente, bonito, criativo, racional, para ser animalizado, infantilizado, violado, explorado e tutelado”, explica.

Diante desse contexto, estimular a autoestima e amor próprio para as pessoas negras é um ato político. Para a psicóloga, “o fim em si mesmo de qualquer luta social é a possibilidade de autonomia, liberdade e amor. Embora estejamos presos na racionalidade, em não abordar as questões afetivas quando falamos de lutas coletivas”. Ou seja, o ato de humanizar a existência de afetividade negra é, indiretamente, político. Como Bell Hooks diz no texto “Vivendo de amor”: o amor cura.

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