A violência e a hipersexualização dos corpos negros da diáspora até hoje

O Brasil mata 71% mais mulheres negras do que brancas, segundo dados do Atlas da Violência 2018. As negras também são as maiores vítimas de violência doméstica, de acordo com o Mapa da Violência 2015. Entre 2003 e 2013, o número de homicídios das mulheres negras saltou de 1.864 para 2.875 já os crimes envolvendo mulheres brancas caiu de 1.747 para 1.576 entre os anos. Estes dados revelam como a violência e a objetificação dos corpos negros não acabaram há 130 anos com a ‘abolição’ da escravatura. Eles permanecem até hoje, muitas vezes dissimulados em ideias pré-concebidas e enraizado no racismo histórico.

Aza Njeri, Doutora em Literaturas Africanas

Para entender a relação que temos com os corpos negros e como eles são vistos em nossa sociedade, conversamos com Aza Njeri,  Doutora em Literaturas Africanas.

Notícia Preta: Como foi construída a ideia de África em nossa sociedade ocidental e como ela influencia no processo de percepção dos corpos negros?

Aza Njeri: Primeiro temos que definir o que é sociedade ocidental, porque isso também deve ser tensionado. Ocidente é primeiramente uma estrutura de poder de cunho supremacista e que se relaciona intimamente com Europa e Estados Unidos, e com seu sujeito principal, definidor de toda essa estrutura de poder é o homem branco, entendido aqui como aquele sujeito de pele desmelanizada detentor de capital monetário e político, morador de grandes centros urbanos dos mais importantes países do ocidente.  E a dinâmica se estabelece desde o definidor para tudo o que o ocidente toca, tange, atravessa ou apropria, determinando e regulando a escala da humanidade. Quanto mais próximo você está deste definidor, mais humano você é. As consequências disso são profundas e diversas: desde uma história romantizada, silenciada, apagada e apropriada de África, negros e da negritude até a total desumanização desses corpos. Além de criar aberrações como “mendigo gato” que nada mais é do que um branco ocupando o lugar de mendicância destinado aos desumanizados negros. E que após essa “descoberta”, a branquitude se une, dá banho de loja, tratamento antidrogas, maquinário para começar o próprio negócio, leva para a tv e chama de mendigo gato.

Nossos corpos estão em perpétuo cárcere. A dominação é uma das bases estruturais das relações estabelecidas no ocidente. Não é não gostar do outro e se afastar dele (algo bastante africano), mas sim, é não gostar do outro e querer exterminá-lo”

Notícia Preta: Nossos corpos foram dominados por séculos e considerados não humano?

Aza Njeri: E porque deveríamos dominar o corpo? Nossos corpos estão em perpétuo cárcere, mental, espiritual, físico, a última coisa que precisamos é mais dominação.  A dominação é uma das bases estruturais das relações estabelecidas no ocidente. Não é não gostar do outro e se afastar dele (algo bastante africano), mas sim, é não gostar do outro e querer exterminá-lo da face da terra junto com sua descendência, cultura, território, tudo. Essa rede de roubos, mortes e destruição é o modus operandi estabelecido ao longo da história do encontro do povo anglo-europeu com qualquer outro povo não anglo-europeu. Que os digam os 90 milhões de ameríndios que viviam na américa em 1500 e que desapareceram em 1550 anos, restando apenas 10 milhões.

Notícia Preta: Poderia nos dar exemplos de pessoas ou situações históricas que foram exemplos concretos dessa desumanização?

Aza Njeri: São várias: Ota Benga é um deles. Pigmeu congolês que após ser levado a Europa para as grandes feiras do início do século XX, foi encarcerado no Zoológico de Nova York junto com um chimpanzé. Serraram-lhe os dentes e jogavam bananas aos domingos, momento em que reuniam quase mil pessoas para vê-lo. Mas eu olho essa questão entendendo que o ocidente nunca vai nos humanizar, porque nós não aparecemos na sua escala de humanidade, por estarmos tão distantes do definidor.

Desta forma, a auto-determinação consciente de si neste mundo é essencial para a humanização. E pensar em autodeterminar-se significa trabalhar a favor de uma agenda negra. Uma agenda econômica, política, cultural, espiritual e estar disposto a construir entre negros. E friso isso, porque somente nós negros conseguiremos nos humanizar a partir do nosso próprio eixo civilizacional que está localizado – territorialmente, espiritualmente, culturalmente, linguisticamente, filosoficamente, literariamente, artisticamente etc – em África e nos africanos continentais e na sua poderosa diáspora.

Ota Benga foi capturado no Congo e se tornou a principal atração do Zoológico de Nova York em 1906

Notícia Preta: Como podemos reconhecer nossos corpos afro-brasileiros através da arte e da cultura?

Aza Njeri: Nós pulsamos arte, respiramos culturas. Somos sementes. Quanto mais enterram, mais brotamos. A cultura e a arte de expressão corporal é africana. Inegável isso. Nosso coração bate no ritmo do atabaque. Caminhamos com ritmo, falamos com ritmo, pensamos em ritmo, como nos fala o professor Julio Tavares, o ritmo é uma categoria que basila a afrodiáspora brasilera.

Notícia Preta: O fato do negro ser considerado muitas vezes, por um pensamento ocidental, como menos inteligente tem alguma relação com o fato de não ocuparmos em pé de igualdade os espaços de poder? E como essa “ideia’ de ‘menos inteligente’ foi introduzida em nossa sociedade?

Aza Njeri: Para se escravizar esse contingente populacional da forma como aconteceu, precisava de muito mais do que a força física. Precisava da escravidão mental. O brasil é doutor em subalternização do negro e perito em alienação mental.

Notícia Preta: Somos um país majoritariamente negro governado por uma minoria branca. Isso tem uma relação com o apagamento da nossa fala?

Aza Njeri: Sim. Entendo que são os trinetos dos escravocratas e dos bandeirantes assassinos de indígenas que continuam nos mesmos espaços que sempre estiveram. Então, assim como os seus trisavôs, eles continuam silenciando, apagando, debochando, desrespeitando… e quando há uma reação, como estamos vendo nos últimos anos, eles entram em pânico, porque isso remete diretamente a toda uma memória ancestral que reivindica uma vingança por parte dos oprimidos.  A questão que se tem que observar é, porque a gente permite esse cenário? Precisamos nos inspirar nos quilombos, mas pra isso, o ocidente tem que começar a morrer dentro de si.

A diáspora negra nasceu a partir do sequestro violento dos nossos ancestrais pelos brancos europeus. Eles resistiram, se organizaram (…) Não podemos deixar isso morrer virando “eurolatinos”

Notícia Preta: Como o negro pode ter seu lugar em uma sociedade com ideias universais?

Aza Njeri: Só se ele se vender para o sistema do ocidente e então passará ser o negro da cota que chegou lá. Ser universal significa ser homogêneo à Europa branca e a todo o seu pensamento e estrutura. A diáspora negra nasceu a partir do sequestro violento dos nossos ancestrais pelos brancos europeus. Eles resistiram, se organizaram, sobreviveram sendo homens e mulheres negros que sabiam seus valores, crenças e saberes. Não podemos deixar isso morrer virando “eurolatinos”.

Notícia Preta: O corpo negro é, muitas vezes, hipersexualizado. Como isso se explica e o que podemos fazer para mudar isso?

Aza Njeri: Por conta do total desrespeito e desumanização que o homem branco tem e teve ao longo da história com os corpos das pessoas negras. Há uma cultura que se cria a partir desses corpos e um de seus braços é a hipersexualização. Inclusive, para mim, ela é sobre todos os corpos negros. Homens e mulheres, não importando a idade. Seremos sempre os melhores, os mais bem-dotados, os mais quentes e principalmente aqueles objetos com os quais pode-se fazer todas as violências possíveis.

Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e com especialização em audiovisual pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, assessora de imprensa e idealizadora do portal Notícia Preta, um site de jornalismo colaborativo. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

Um comentário em “A violência e a hipersexualização dos corpos negros da diáspora até hoje

  • 12 de janeiro de 2019 em 13:52
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    Um texto que nos alimenta teoricamente e socialmente. Os pesquisadores negros devem de fato realizar a leitura do mesmo e propagar em suas salas de aulas ou nos espaços que estejam construindo novas epistemologias, onde a chave se relacine com a perspectiva a AFROCENTRICIDADE, assim construiremos nossos cânones. Pois nosso sentido não é construir uma guetificação mas espaços onde e quando seja possível uma equidade.

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