“A mulher negra não tem liberdade de assumir sua beleza”, afirma psicóloga sobre falas no BBB 22

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Há alguns dias, o ator e participante do Big Brother Brasil (BBB 22), Douglas Silva, o DG, defendeu que a participante mineira Natália Deodato é “uma princesa africana”. Na última semana, a participante Laís tentou elogiar Lina ao dizer que preferia o cabelo dela natural do que as tranças. Além de outras falas que constantemente são creditadas às pessoas negras, como “cabelo duro”, que é clássico quando se fala em cabelos crespos, por exemplo. 

DG e Natália se abraçam durante conversa que ambos se emocionaram – Foto: Reprodução TV Globo

Essas falas repercutiram nas redes sociais e para a Psicóloga Clínica, Maryllis Braga, a cobrança estética de homens e mulheres pretos, deveria servir de pauta para discussão. “Historicamente fomos taxados como inferiores em diversos aspectos, e ainda existe o mito do que seria beleza. Ainda no dia atual, temos que lidar com a situação da mulher negra não ter acesso a liberdade de assumir sua beleza da forma que gostaria porque a sociedade tenta moldar e colocar de volta num padrão no qual foi estabelecido séculos atrás”, afirma. 

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Ela ressalta ainda que essa falta de liberdade chega a ser fútil, mas ainda é danosa para a grande maioria das pessoas negras. “A escolha do outro não deveria fazer diferença. Mas faz, quando uma mulher branca fala da estética da mulher negra. Laís do BBB não tem nenhuma responsabilidade com o que diz, e não se importa em como a mulher preta vai se sentir ao escutar tal discurso sobre o seu cabelo”, completa.

Em relação às falas de DG sobre Natália, Maryllis é enfática ao dizer que o reconhecimento de ambos faz com que eles se acolham. “A beleza é uma construção que vem através da transgeracionalidade. Homens e mulheres pretos são lindos. Douglas enxerga a Natália porque é semelhante. Ele enxerga uma beleza que vai além da física. Esse movimento de ver a Natália como princesa, é de acolher, compreender, empoderar, apoiar e elevar qualidades, que muitas vezes são questionadas”, comenta.

Maryllis Braga é enfática ao dizer que existe um “cinismo coletivo das mulheres brancas” – Foto: Arquivo Pessoal

Olhar fotográfico

Erik Jonatas Gonçalves, ou Eris Colors, 22 anos, realiza ensaios fotográficos com pessoas comuns. Ele se considera uma pessoa que retrata a realidade e beleza negra através da fotografia e preza pela realidade de cada momento. “Em meus projetos, não convido apenas pessoas que são ou já foram modelos. Na verdade, gosto muito de convidar as pessoas mais simples, que nunca tiveram oportunidade de fazer um ensaio, ou sequer imaginaram fazer um, por não ter autoestima. Sabemos que é muito difícil para nós, negros, olharmos no espelho e nos vermos bonitos quando estamos passando por aquela fase de aceitação então minhas fotos são justamente para mostrar essa beleza. Então, gosto de ter a experiência real de trazer o novo para eles. Esse trabalho traz para as pessoas uma nova perspectiva”, afirma. 

Eris ressalta ainda que o trabalho que ele realiza é delicado e emocionante, principalmente ao ver o resultado e o reconhecimento das pessoas. “Eu recebo diversas mensagens de pessoas falando sobre a história delas antes de fazermos um ensaio, depois que faço as fotos, as pessoas até choram, dizem que nunca se imaginaram dessa forma e hoje conseguem se amar”, comemora.

“Somos acostumados, desde pequenos, a ver princesas brancas apenas, mas em todo trabalho que faço tem muita conversa antes do ensaio. Nesse momento acho importante conhecer a pessoa e também trazer coisas novas para a mente delas, como o fato dela ser uma princesa ou rainha e vai ser a modelo do projeto, elas sempre gostam muito porque veem como uma oportunidade de algo que nunca veio até elas”, completa Eris. 

“Para a mulher preta, esses comportamentos [falas racistas] atingem diretamente gerando insegurança com sua aparência física, insegurança com seu corpo, rosto, roupa e cabelo. A faz questionar sobre quem ela realmente pode ser”, ressalta Maryllis que completa. 

“Existe um cinismo coletivo de mulheres brancas, que acham lindo ver mulheres pretas empoderadas. Quando essas mulheres se revelam, a mulher branca não consegue lidar com a potência, a presença e a beleza que estão diante de si. Por isso acontece o ataque” finaliza Maryllis. 

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Igor Rocha

Igor Rocha é jornalista, nascido e criado no Cantinho do Céu, com ampla experiência em assessoria de comunicação e escritor nas horas vagas. Editor e coordenador regional do Notícia Preta

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