70% das pessoas que passam fome no Brasil são negras, aponta estudo

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Dos mais de 33 milhões de brasileiros que passam fome, 70% são negros. É o que revela a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan) que, nesta quarta-feira (8), divulgou um novo levantamento com os números alarmantes em relação à fome no Brasil.

O número de brasileiros em insegurança alimentar grave quase dobrou desde 2020, epicentro da pandemia da Covid-19, e 70% dessas pessoas são negras (pretas ou pardas).

Ao todo, mais de 125 milhões de brasileiros estão em algum grau de insegurança alimentar – Foto: Getty Images

Para a pesquisadora da Rede Penssan e integrante do Grupo de Trabalho de monitoramento e relatoria da Rede Penssan, Rosane Salles-Costa, os dados revelam a desigualdade racial ainda existente no Brasil, em pleno 2022. “Mais uma vez o inquérito reforça essa desigualdade racial. Os números mostram que quando a pessoa de referência na casa é branca, a insegurança alimentar chega a ser 8 pontos percentuais mais baixos, quando comparado com uma pessoa negra é líder familiar, atingindo patamares expressivos”, analisa.

Ela ressalta também que este recorte social inclui aspectos não econômicos das desigualdades
relacionados à raça/cor da pele, gênero, e grau de escolaridade, definidores das vias de inserção das famílias na sociedade e da participação na distribuição da renda. “Tais aspectos resultam em mais
exposição ao risco de fome e em precárias condições de acesso à alimentação adequada e saudável”
, completa.

A pesquisa Vigisan (Inquérito Nacional Sobre Segurança Alimentar no Contexto da Pandemia Covid-19 no Brasil) também revelou que, entre os anos de 2020 e 2022 o número de pessoas com algum tipo de insegurança alimentar subiu de 116 milhões para 125,2 milhões, chegando a 58,7% da população brasileira. Isso significa que esta parcela da sociedade está preocupada com a possibilidade de não ter alimentos no futuro ou já passam fome atualmente.

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Além disso, o relatório mostra que as casas em que algum familiar estava desempregado a insegurança alimentar moderada ou grave foi maior que nas demais residências. “Esse destaque do emprego precisamos ressaltar e assinalar que é um dado importante das medidas de insegurança alimentar. Outro dado importante de se ressaltar é que, infelizmente, a gente observa que, quando o homem é a pessoa de referência da família, temos uma segurança alimentar maior, quando comparado com uma família que é chefiada por uma mulher. O inverso acontece, aumentando a insegurança alimentar quando a mulher é a referência na família”, comenta.

Os lares com desempregados são mais vulneráveis – Arte: Rede Penssan

Regionalização da fome no Brasil

O levantamento revela também que as pessoas do campo estão mais suscetíveis à fome, chegando a 60% do total de pessoas com algum grau de insegurança alimentar e 18,6% relataram insegurança alimentar grave. O nordeste é a região que concentra o maior número de brasileiros com fome, 12 milhões. Proporcionalmente, o Norte do país é a região com maior quantidade de pessoas em situação de insegurança alimentar, atingindo 71,6% dos moradores.

“É manifesto e de grande magnitude o aumento da insuficiência de alimentos nos lares brasileiros entre 2018 e 2021/2022, em todas as macrorregiões. Entretanto, como um espelho da desigualdade no
Brasil, essa evolução negativa da insegurança alimentar moderada ou grave ocorre com mais intensidade nas regiões Norte e Nordeste, com prevalências em 2021/2022″
, afirma o documento.

O Norte e Nordeste do país são as regiões mais atingidas pela fome – Arte: Rede Penssan

Gênero

Os lares comandados por mulheres também foram foco da pesquisa, que apontou uma maior suscetibilidade de insegurança alimentar moderada e grave nesses locais. De acordo com o estudo, As casas comandadas por homens tem 25% de chance de desenvolver insegurança alimentar de moderada a grave, enquanto nos lares em que as mulheres são referência, esse percentual salta para 36,7%. Quando se trata apenas de insegurança alimentar grave, as casas que possuem mulheres como líderes, somam 19,3% e nos locais chefiados por homens, 11,9%.

Arte: Rede Penssan

“Efeitos negativos sobre a segurança ou insegurança alimentar ao longo do último ano apareceram mais fortemente nas condições que fragilizam, sobretudo, as mulheres que se encontravam nos segmentos mais empobrecidos da sociedade. Em 2021/2022, nos domicílios com renda per capita de até 1/2 salário mínimo (Tabela 10), a prevalência da SA era 20,8% menor quando as mulheres eram a pessoa de referência”, avalia Salles-Costa.

“A gente sabia da gravidade do cenário da fome, mas não imaginava que seria da forma que presenciamos hoje”, conclui. 

Ação da Cidadania

O diretor-executivo da ONG Ação da Cidadania, Rodrigo Afonso, ressalta que a Organização, fundada pelo Sociólogo Hebert de Souza, o Betinho, realizou e ainda realiza ações, desde a década de 1990 visando minimizar as danos causados pela fome, mas vê o país retroceder, de forma vertiginosa, em tão pouco tempo. “Em 29 anos de luta contra a fome, a Ação da Cidadania se vê diante de um dos piores momentos dos números da fome desde sua fundação. Não podemos mais tolerar que 33 milhões de pessoas não tenham o que comer em um país com tanta diversidade como o Brasil. É um retrocesso total”, afirma.

“Nossa instituição nasceu com a comoção de Betinho ao se deparar com esse mesmo número de brasileiros em Insegurança Alimentar grave. Hoje, estamos aqui revivendo a mesma tragédia”, finaliza

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Igor Rocha

Igor Rocha é jornalista, nascido e criado no Cantinho do Céu, com ampla experiência em assessoria de comunicação e escritor nas horas vagas. Editor e coordenador regional do Notícia Preta

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