“A fome tem CEP, cor e gênero”, diz diretor da Ação da Cidadania

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Mulheres, negros e desempregados são os mais afetados pela fome no Estado

A Ação da Cidadania Contra a Fome lançou, nesta quinta-feira (23) um relatório em que revela que quase três milhões de pessoas passam fome no Estado do Rio de Janeiro. Os dados fazem parte do recorte regionalizado do 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, publicado em maio deste ano, pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).

As mulheres negras são as maiores vítimas da fome no Rio de Janeiro – Arte: NP Dados

Ao todo, segundo o levantamento, 2,7 milhões de pessoas no Estado do Rio de Janeiro estão passando fome, o que corresponde a 15% de toda a população fluminense. Deste percentual, 38,6% são mulheres; e 37,6% são pessoas negras. Além disso, 68% dos desempregados estão em situação de insegurança alimentar grave.

Outro dado apresentado na pesquisa e que chama atenção é que 20,9% dos trabalhadores formais também estão em insegurança alimentar grave, revelando a queda nos rendimentos e qualidade de vida, mesmo das pessoas empregadas.

Rodrigo Kiko Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania enfatiza que as mulheres negras, maior parcela da sociedade brasileira, segundo o IBGE, são as mais afetadas. “A maior vítima é a mulher preta ou parda e com filho de até 10 anos em casa. A fome tem CEP, tem cor e tem gênero. O Rio de Janeiro é o reflexo disso”, afirmou o diretor durante o evento na sede da ONG.

Realidade cruel

Em 2018, 4,2% da população do Rio de Janeiro estava em insegurança alimentar grave, este número praticamente quadriplicou nos últimos anos, chegando ao patamar de 15,9% de pessoas passando fome. Um retrato da fome no Rio de Janeiro é a situação de Adriele Salles, mulher e negra, mora no Santo Cristo, região Central da capital, e tem quatro filhos. Ela conta que chegou ao ponto de dividir um pão para quatro pessoas e um ovo para duas. Segundo ela, a família enfrenta a fomo todos os dias.

Uma grande parcela de pessoas empregadas também estão passando fome no Rio de Janeiro – Arte: NP Dados

“Às vezes, a gente tem que deixar de comprar um arroz para juntar um negócio de bala para poder ajudar a comprar um feijão, um leite. Porque a gente não pensa na gente. A gente pensa nas crianças”, afirma em entrevista ao G1.

Políticas públicas

Rosana Salles, pesquisadora responsável pelo levantamento e professora de nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta a importância do retorno de políticas públicas para erradicação da fome no Brasil. “Ações como a Ação da Cidadania e outras cozinhas comunitárias são muito importantes. Só a transferência de renda agora não consegue dar conta da garantia de uma alimentação saudável em quantidade e qualidade adequada para as famílias. Porque você tem o preço dos alimentos, que está saindo do controle”, afirma a professora.

Para Kiko Afonso, o Rio de Janeiro é um retrato do Brasil, quando se fala de fome. “Mesmo sendo uma das regiões mais ricas do Brasil, você vê o espalhamento da fome para regiões urbanas mais ricas muito grande. No Rio de Janeiro, é um aumento de 400%. E você vê isso nas ruas, a quantidade de pessoas procurando emprego, pedindo comida e morando nas ruas”, pontua.

Leia também: 70% das pessoas que passam fome no Brasil são negras, aponta estudo

“Eu não consigo imaginar quase 60% do Estado do Rio de Janeiro em fome e a gente não estar em um estado de emergência, com a população junta, unida, para combater a fome”, finaliza Kiko Afonso.

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Igor Rocha

Igor Rocha é jornalista, nascido e criado no Cantinho do Céu, com ampla experiência em assessoria de comunicação e escritor nas horas vagas. Editor do Notícia Preta.

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