“Sentia como se não tivesse saída”, diz estudante que viveu em situação de rua e foi aprovado na USP

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“Me chamo Maurício Severino Araújo da Silva e tenho 31 anos. Até 2020 eu era pessoa em situação de rua e hoje curso engenharia civil na Universidade de São Paulo. As aulas na USP já começaram e é uma notícia maravilhosa”. Este foi o início da conversa entre a reportagem do Notícia Preta e o Maurício, que foi aprovado em engenharia civil, em uma das mais conceituadas universidades do país.

Maurício Severino é um dos calouros da USP neste ano- Foto: Arquivo Pessoal

Maurício viveu nas ruas até 2020 e só havia cursado até o sétimo ano do ensino fundamental. Depois de passar por várias dificuldades, natural de quem vive nas ruas das grandes metrópoles, decidiu estudar por conta própria e, assim, conseguiu o certificado do ensino fundamental pelo Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) e do ensino médio pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Diversas vezes me senti como se estivesse numa rua sem saída, sem ter como voltar. Mas, depois de conseguir o certificado do ensino médio, pensei em talvez fazer alguma faculdade de exatas”, afirma.

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Ele também revelou que durante seu processo de estudos, utilizava redes wi-fi de praças ou albergues, quando conseguia vaga, para baixar livros digitais e estudar a partir deles. “Para não morrer de depressão alimentada pelo álcool, comecei a elaborar um programa de estudos baixando livros digitais pelo celular. Quando estava em um albergue, estudava na biblioteca. Lá mesmo tentava carregar o máximo meu celular, pois quando estava na rua, lia alguma coisa e, no próprio aplicativo de bloco de notas do celular, anotava as coisas que considerava importantes para um provável futuro vestibular”, informa.

Números

Segundo dados do IPEA 2020, a população em situação de rua no Brasil está em torno de 221 mil pessoas, sendo que apenas 70% desse total foram cadastradas para ter acesso as políticas públicas. Assim, cerca de 71.000 pessoas são consideradas “invisíveis”, inclusive para terem acesso ao Auxílio Emergencial e a programas como o Bolsa Família.

A grande maioria dos moradores em situação de rua são homens e negros – Foto: Pexels

De acordo com um levantamento realizado pelo Programa Polos de Cidadania da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 78,8% da população em situação de rua em Minas Gerais se autodeclara parda e preta, e esses números podem ser maiores diante da ausência de um cadastro efetivo dessas pessoas. O estudo revela que Belo Horizonte, Contagem e Betim, concentram 52% dessa população (9.577 pessoas). Os dados são de janeiro deste ano.

Na capital do estado, onde 8.619 homens, mulheres, crianças e idosos foram cadastrados, a predominância de pessoas negras é superior à média estadual sendo de 83,71% de pessoas que se autodeclaram negras. Os dados consideram os cadastros efetivados pelas prefeituras municipais no Cadastro Único para Programas Sociais-CadÚnico, programa de amplitude nacional que objetiva mapear famílias de baixa renda no Brasil para a inclusão em programas sociais e desenvolvimento de políticas públicas.

Desigualdades e oportunidades

O estudante ressaltou ainda que as oportunidades são reduzidas para as pessoas negras e pobres, devido às desigualdades sociais e revela ainda as dificuldades que encontrou no caminho. “Infelizmente as pessoas menos favorecidas quando conseguem alguma coisa, conseguem de maneira atrasada. Seja um diploma universitário, seja ver um filho estudando programação na escola. A desigualdade é extrema, e às vezes super desmotivadora, fazendo com o que muitos desacreditem no próprio futuro”, lamenta.

Maurício lembra ainda que a persistência e a vontade foram fundamental para seu ingresso na universidade. “Diversas vezes me vi como um louco por insistir tanto. Era como se eu estivesse correndo numa esteira de academia com lama sem chegar a lugar nenhum. Então finalmente cheguei”, finaliza.

Para a mestranda em história política e educadora social, Jamile Lopes, a situação de Maurício é uma exceção e não pode ser vista como exemplo de meritocracia e sim como uma exceção. “A realidade das pessoas em vulnerabilidade é de apagamento, de invisibilidade, de falta de dignidade da pessoa humana. O que acontece com esse rapaz é um caso fortuito, não é a regra. É necessário que o Estado e as assistências sociais usem a imagem desse rapaz para se tornar o acesso à educação de qualidade, de um curso elitista ou não, seja um acesso equitativo para todos os jovens. E mais do que isso, que essa população seja respeitada, não seja repugnada por pessoas do meio privado ou do meio público”, afirma.

Jamille Lopes ressalta que a meritocracia ainda é um mito social – Foto: Afroafeto

“Que não sirva de massa de manobra. Que tenham acesso a saúde, moradia, alimentação, a ser quem eles são: respeitados e respeitáveis. Logo, não é possível que se use essa história para que se reforce a meritocracia. A realidade dessa população é muito amarga e é uma mancha no nosso país”, comenta.

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Igor Rocha

Igor Rocha é jornalista, nascido e criado no Cantinho do Céu, com ampla experiência em assessoria de comunicação e escritor nas horas vagas. Editor e coordenador regional do Notícia Preta

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