Rainha do Congo Diambi Kabatusuila chega ao Brasil nesta quarta-feira, 27

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A rainha Diambi Mukalenga Mukaji Wa Nkashama(Rainha da Ordem do Leopardo), da República Democrática do Congo, chega ao Brasil nesta quarta-feira, 27, para promover um encontro intercultural e uma troca de informações com comunidades indígenas e casas de matriz africana que preservam saberes do Congo Kinshasa.

A turnê “Pela paz no Brasil” conta com visitas a quatro estados brasileiros: ela chega em Salvador, dia 27,  segue para Minas Gerais, de 6 a 8 de março, Rio de Janeiro, de 9 a 12 de março, e São Paulo, de 12 a 15 de março. A agenda prevê encontros em universidades, com coletivos étnico-raciais, tour pelos pontos turísticos de referências históricas para os povos indígenas e negros, visitas em espaços religiosos e em projetos sociais com crianças.

Rainha do Congo Diambi Kabatusuila

Em carta de confirmação à sua anfitriã, Cristiane Papiôn, coordenadora do  Observatório Cultural das Aldeias (OCA), a rainha se mostrou ansiosa pela visita:

“Estou ansiosa pela oportunidade de trocar informações de nossas culturas mútuas, passar um tempo com as pessoas bonitas do Brasil”.

A rainha estará acompanhada de uma comitiva de aproximadamente oito pessoas. Entre as autoridades, estão a princesa Laurence – DRC / BE, Embaixador Chabal – Zâmbia e o Honorável Mamadou Diop Thioune. Ainda fazem parte da comitiva: April Robbins – Bobyn – USA, Prince Randy – Benin,  Terry Riggs – Nigéria / Reino Unido, Alfa Kuaba – Angola / UK, Elaji Malik – Senegal.

Cristiane Papiôn conta que a articulação para a vinda da rainha ao Brasil começou ano passado, quando as duas se encontraram, por acaso, no Cristo Redentor e ela foi reconhecida como irmã ancestral da rainha:

“A amizade com a rainha Diambi iniciou no ano passado, quando ela veio na comitiva do rei de Ifé, junto ao Instituto Expo Religião. Estava na sombra do Cristo e ela veio sorridente e viu as nossas semelhanças, o colar de dentes de onça, uma proteção ancestral, a irmandade que nos religa aos ancestrais de África e do Brasil”.

Diambi escreveu para Papiôn, dizendo que gostaria de voltar ao Brasil e encontrá-la novamente. Papiôn, conhecida no meio das políticas culturais e de intolerância religiosa no Brasil, contactou os parceiros para agenda local e novas parcerias.

Rainha Diambi e Cristine Papiôn

Rainha visita terreiros de umbanda no Rio

Na visita ao Brasil, a rainha irá celebrar a memória da Diáspora Africana entre os povos originários e o povo do Congo, com foco na ancestralidade dos descendentes africanos, em visita à Casa de Pai Fabrício, uma das casas de umbanda mais antigas do Rio e que praticam a umbanda africanista com raízes do omolokô. A casa completa, em 2019, 105 anos de existência, somente na cidade de Queimados, Baixada Fluminense.

Pai Fabrícius, zelador da Casa de Pai Fabrício, ressalta a importância histórica e religiosa de uma rainha do Congo, uma de suas raízes ancestrais: “A visita da Rainha Diambi em nossa casa significa muito mais do que o fortalecimento cultural religioso entre a religiosidade afro-brasileira e a cultura africana. Representa a aproximação de nossa ancestralidade através de nossas práticas religiosas, já que nossa base foi sempre dentro da doutrina da falange do grupo dos africanos, em especial dos povos de Congo, Mina e Moçambique que compõem a seara espiritual da gira de todas as Casas da linhagem de Pai Fabrício, difundida por nosso idealizador, Custódio de Souza Caravana, no século XIX”.  

A Casa está preparando um jantar afro-indígena e também a apresentação especial da tradicional Congada de Pai Fabrício, que acontece na casa por ocasião da Festa de São Sebastião/Oxossi, em janeiro. A Congada conta a história do Rei do Congo, origem da rainha. Também estão previstas várias apresentações de danças africanas pelo grupo de ação social e pesquisas culturais “Origens”.  

No domingo, 10, a rainha visita  a Casa Ilé Ti Oxum La Lia Obá Ti Odou Ti Ogum Alpep – Corte Real da Nação Ijexá, em  Belford Roxo, também na Baixada. O terreiro está passando por um processo de tombamento como Patrimônio Cultural e Imaterial do estado do Rio de Janeiro.

Neste mesmo dia, a rainha vai até a Casa Muna Nzo Mavuemba Nkosi Biole (Casa Sagrada dos Divinos Leões), em Vaz Lobo, Zona Norte do Rio de Janeiro.

Rainha Diambi

Uma rainha com muitas qualificações

Diambi Kabatusuila, nascida na Bélgica, é filha de mãe belga e pai congolês diplomata. Ela cresceu em Kinshasa, na República Democrática do Congo. A rainha tem uma extensa experiência de multiculturalismo não apenas por causa de sua própria formação, mas porque viajou e viveu em muitos países diferentes. Ela fala seis idiomas, tem dois filhos e um neto.

Rainha Diambi é doutora em Direito e em Filosofia, mestre em Psicologia Aplicada e em Aconselhamento em Saúde Mental. Trabalhou como terapeuta de saúde mental de bebês e crianças, e é especialista em dependência de substâncias.  Ela também é professora de Matemática e Francês. Como bacharel em Finanças e Economia, trabalhou durante vários anos como consultora econômica no Observatoire Social Européen em Bruxelas para a Comissão Europeia e outras agências governamentais na UE.

Diambi Kabatusuila foi coroada como a governante do povo Bena Tshiyamba de Bakwa Indu da região central de Kasaï, parte do antigo Império Luba na República Democrática do Congo, em 31 de agosto de 2016. Agora, detém o título de Diambi Mukalenga Mukaji Wa Nkashama (Rainha da Ordem do Leopardo). Ela foi investida e introduzida em Kinshasa pela Associação de Autoridades Tradicionais e Consuetudinárias do Congo em 5 de agosto de 2017.

A rainha é diretora executiva do Umoja Institute, em Nova Orleans, nos Estados Unidos, vice-presidente do FOKABE, sem fins lucrativos em Kinshasa, na República Democrática do Congo, presidente do conselho de Administração da African Views, Nova York, nos Estados Unidos. Desde muito jovem, Diambi sempre se interessou muito por todas as questões relativas à restauração da identidade africana, através do estudo da história africana e do patrimônio cultural tradicional do continente. Um de seus principais projetos, além da empresa de desenvolvimento rural da Kasaï Central, é buscar alianças para mudar a narrativa sobre o povo africano.

“As expressões das culturas africanas foram tão brutalmente reprimidas e demonizadas durante vários séculos com o único propósito de explorar os africanos e suas terras, que muitos africanos perderam o senso de si e o que significa ser africano hoje. Os africanos em todo o mundo acostumaram-se a acreditar que não são dignos e que a única maneira de melhorar sua vida é adotar e imitar todos os padrões do Ocidente para reger todos”, observa.

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Cintia Cruz

Formada em Jornalismo pela PUC-Rio, em 2008, é mãe do Benício, moradora da Baixada Fluminense e tem 36 anos. Trabalhou na Rádio MEC, trabalhou como assessora de imprensa, escreveu para a Revista Raça Brasil e foi freelancer do Canal Futura. Desde 2010, é repórter do Jornal Extra.

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