Novas estações de VLT do Rio farão homenagem à cultura africana

Durante as escavações para a colocação dos trilhos do VLT, no Centro do Rio de Janeiro, em abril deste ano, foram descobertos alicerces e poços de uma loja de venda de escravos que funcionou provavelmente entre os anos 1860 e 1870. No local, também foram encontrados outros objetos históricos como, por exemplo, uma bola de ferro usada para colocar nos pés dos escravos para que eles não fugissem e outros vestígios da ocupação urbana do Rio a partir do século XVIII.

Ao tomarem conhecimento das descobertas, lideranças do movimento negro do Rio de Janeiro se reuniram para que as peças encontradas fossem preservadas. As negociações dos grupos com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o VLT levaram seis meses e terminaram com algumas das reivindicações dos movimentos sociais sendo atendidas. Na próxima segunda-feira (10), a cidade do Rio ganhará três novas estações de VLT com nomes referentes a história do povo negro na cidade.

Escavações das obras do VLT revelaram ossadas Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil

O primeiro pedido do movimento negro foi para não ter a escavação na região do cemitério dos Pretos Novos, conforme explica o Presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro (CEDINE), Luiz Eduardo Negrogun: “ Se escavam a área é preciso remover os ossos. Vão remove-los para onde? Ali não estão artefatos, são os restos mortais dos nossos ancestrais. Aquilo ali é um campo santo, uma área sagrada pra nós. Ali estão meus avós, meus bisavôs e tataravós. Se fosse uma área da comunidade judaica eles deixariam escavar? Então nossa área

não tem que ser escavada.  Tem que ser delimitada e reconhecida”.

A não escavação da região, para preservar as peças encontradas, interferiu no projeto inicial da obra que precisou ser alterado. Ao invés de penetrarem o solo em 70 centímetros para a colocação dos trilhos, os arquitetos optaram por fazer uma raspagem de 20 centímetros, que basicamente retirou cascalhos, e construir uma laje reforçada por onde passará o VLT.

Uma vez decidida a questão da obra, o movimento negro solicitou que os nomes das paradas do VLT exaltassem a importância histórica dos negros na região conhecida como Pequena África. O local é um símbolo histórico da comunidade afro-brasileira na Região Portuária do Rio e recebeu este nome porque nessa  região funcionava o comércio de escravos, que se tornou ilegal no Brasil em 1831, 50 anos antes da ‘abolição da escravatura’.  Entre 1850 e 1920, escravos libertos permaneceram na região trabalhando e  procurando trabalho.

Presidente do CEDINE – Luiz Eduardo Negrogun

“Inicialmente o VLT propôs três nomes para as estações, Duque de Caxias, Camerino e Santa Rita. Não aceitaríamos em hipótese alguma ter uma estação com o nome de Duque de Caxias, um militar, patrono do Exército, racista e exterminador. Isso foi uma briga. Solicitamos que fosse estação “João Cândido, Almirante Negro”. Questionaram. Até que definimos que esta seria a parada ‘Cristiano Ottoni – Pequena África’. Além desta, que fica na Central do Brasil, teremos as estações ‘Camerino Rosas Negras’, ‘Santa Rita – Pretos Novos’, em alusão ao cemitério, e ‘Parada dos Navios – Valongo’, explica o presidente do CEDINE.

Outra conquista do movimento negro é a demarcação da área aproximada ao sítio arqueológico Cemitério Largo de Santa Rita e a criação de um memorial: “O memorial será lúdico, com o chão feito em pedras portuguesas, uma rosa negra gigantesca central e outras rosas menores fazendo o contorno, simbolizando a luta das rosas negras. Teremos ainda um totem com informações da história do primeiro local onde se deu o sepultamento de Pretos Novos. É uma referência aos nossos ancestrais e também a resistência”, conta, Luiz Eduardo Negrogun.

Nesta segunda-feira (10), às 18h, acontece a viagem inaugural da linha 3 do VLT, saindo do Largo de Santa Rita, onde serão oficialmente divulgados os nomes das estações.

Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e com especialização em audiovisual pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, assessora de imprensa e idealizadora do portal Notícia Preta, um site de jornalismo colaborativo. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

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