Negros representaram 75,7% das vítimas de homicídios no Brasil, revela Atlas da Violência

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Dados do Atlas da Violência, divulgados nesta quinta-feira (27) revelam o que os assassinatos de negros aumentaram 11,5%, entre 2008 e 2018, e os de não negros caíram 12,9% no mesmo período. Em 2018, os negros representaram 75,7% das vítimas de todos os homicídios.

A chance de um negro ser assassinato é maior nas regiões Norte e Nordeste, de acordo com a análise das taxas de homicídio por 100 mil habitantes por estado. Em 2018, Roraima foi o estado com a maior taxa (87,5), vindo em seguida Rio Grande do Norte (71,6), Ceará (69,5), Sergipe (59,4) e Amapá (58,3).

De acordo com a classificação do IBGE, os negros são representados pela soma de pretos e pardos, e os não negros é o grupo formado por brancos, amarelos e indígenas.

A diferença entre as taxas de homicídio dos negros para os não negros significa que, na prática, para cada indivíduo não negro morto em 2018, 2,7 negros foram mortos. Em alguns estados essa discrepância é ainda maior. Em Alagoas, para cada não negro assassinado, morreram 17 negros.

“As mortes de negros puxam duas vertentes – primeiro que o negro sofre discriminação no trabalho e na diferença educacional, por exemplo, então é uma trajetória que o torna mais vulnerável à violência. Além disso, tem o racismo que mata – a ideia do negro perigoso, uma ideia que muitas vezes culmina no uso da força contra ele”, explicou Daniel Cerqueira, coordenador da pesquisa, durante a entrevista coletiva online.

Entre 2008 e 2018, alguns estados que registraram aumento das taxas de homicídios de não negros superiores às de negros. O que “não necessariamente significa que o racismo e a racialização deixem de incidir sobre os eventos violentos”, de acordo com o estudo. No Amapá, por exemplo, foi registrado aumento de 196,6% nas taxas de homicídios de não negros e de 61% nas de homicídios de negros, seguido do Amazonas, que registrou um aumento de 137,8% nas taxas de homicídios de não negros e de 53,4% de negros.

A pesquisa explica que isto ocorre pois, a região amazônica apresenta “população descendente de três matrizes principais (negra, indígena e branca), sendo que as relações raciais (…) combinam essas matrizes com identificações que consideram o elemento indígena”.

Homicídios de mulheres negras aumentaram 12,4%

A desigualdade racial também é vista nos casos de feminicídio. Em dez anos, os homicídios de mulheres negras aumentaram 12,4%, enquanto os assassinatos de mulheres não negras reduziram 11,7%.

Em 2018, 4.519 mulheres foram assassinadas no Brasil, entre negras e não negras, uma taxa de 4,3 homicídios para cada 100 mil habitantes do sexo feminino, o que indica que uma mulher foi assassinada a cada duas horas.

Foi registrado um aumento de 4,2% nos assassinatos de mulheres em todo o país. Em alguns estados, a taxa de homicídios em 2018 mais do que dobrou entre 2008 e 2018, como, por exemplo, no Ceará (278,6%), Roraima (186,8%) e Acre (126,6%). Já as maiores reduções foram no Espírito Santo (52,2%), São Paulo (36,3%) e Paraná (35,1%).

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Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e com especialização em audiovisual pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, assessora de imprensa e idealizadora do portal Notícia Preta, um site de jornalismo colaborativo. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

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