Livro de ficção afrofuturista traz o protagonismo negro como tema

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A escritora de ficção afrofuturista Lu Ain-Zaila escolheu o mês de novembro para lançar sua nova obra – o livro ”Ìsegún”. trata-se de uma narrativa do subgênero cyberpunk em que a autora traz uma reflexão da importância do protagonismo negro

”Ìségún tem uma dinâmica periférica bem marcada, do espaço onde a história se passa, Cidade Alta e Cidade Baixa”, contou a carioca, Lu Ain Zaila, explicando que a ”Cidade Alta e a Cidade Baixa representam as diferenças geográficas, sociais e de poder aquisitivo, a Baixa é periférica, de comunidades, dos trabalhadores que vem e vão, da ‘mecnologia’ que faz a vida caminhar, da gambiarra de água ao carrinho de propaganda adaptado para as ladeiras e buracos, [enquanto que] a Alta representa o status, onde qualquer problema é de todos, a cidade onde a noite brilha, as propagandas são holográficas, onde o futuro promete a quem tem e nunca se viu de outra forma, assim como não liga para o projeto de meritocracia que ostenta sobre os outros.”

Autora da Duologia Brasil 2408 e Sankofia, afirma ainda que tinha o interesse de uma escrita cyberfunk e precisou definir que rumo ela teria ou algo próximo disso, pois se trata de um momento complexo do mundo, e por isso veio a questão do lixo exacerbado, que é sim um problema social. Aí entrou em foco também a questão do racismo ambiental e das zonas de sacrifício que tem a ver com corporações e o valor dado às vidas de onde se decide colocar uma empresa poluidora, ou melhor sua produção poluidora, ou onde se decide deixar morar as pessoas. Assim, a personagem Zuhri vive essa realidade pois perdeu a mãe numa dessas situações e isso levou ela a escolher o ofício de detetive.

O gênero cyberfunk tem uma trilha sonora que vai desde ao funk, samba ao rap; a música negra de verdade. E isso faz diferença no processo literário e é interessante pensar em como isso afeta a escrita. A escrita afrofuturista exerce dentro do cyberfunk um debate de como vidas negras importam, de como as vozes sentem, demonstram e pensam no seu mundo.

Confira a entrevista que o Portal Notícia Preta preparou com a autora:

Notícia Preta: Como se deu a sua entrada no meio literário?

Lu Ain-Zaila: A minha entrada na literatura é tardia e foi impulsionada por movimentos pré-comunitários no fim de 1999 onde tive alguns acessos literários negros e depois via movimento de mulheres negras e daí ingressei na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) em 2005, fui bolsista do PROAFRO (Programa de Estudos e Debates dos Povos Africanos) e a coisa realmente se desenvolveu, do acesso ao COPENE (Congresso de Pesquisadores/as Negros/as) que participei 2 vezes.

NP: A sua entrada oficial se deu quando então?

LU: A minha história oficial com a literatura começou em 2015 na Bienal do Livro do que acontece no Rio de Janeiro. Sua primeira produção foram as obras (In)Verdades e (R)Evolução de 2016-2017 que compõem a Duologia Brasil 2408 e Sankofia de 2018, ambas publicadas de forma independente. Já o livro Ìségún é de origem yorubá e significa reverência aos antepassados. E daí veio a Bienal 2015 com sua ausência que me impulsionou a escrever.

NP: Sobre o Afrofuturismo, o que você pode nos contar?

LU: Eu conheci o Afrofuturismo do meio pro final de 2016 e gostei da premissa, pois me lembrou muito um movimento negro com uma tática boa para educar, mesmo que ninguém tenha mencionado isso antes, mas é a sua essência, a afrocentricidade, o renascer sob pensamentos que o reconheçam como humano negro e usar a literatura especulativa para contar a vida negra, seus interesses, o que a afeta, a modernidade desfavorável na qual sempre vivemos e o uso de metáforas, tanto para esses temas quanto para a questão histórica e a mitologia que sempre busco saber mais. Eu gosto destes 2 lugares: o escrever e pensar o Afrofuturismo, tanto que tenho um capítulo a publicar na Alemanha e estive no VI Simpósio Internacional LAVITS que teve como tema as Assimetrias e (In)Visibilidades: vigilância, gênero e raça que ocorreu na UFBA.

Lu Ain-Zaila, autora do livro Ìsegún- Foto: Divulgação


Sinopse do livro:

Nesta novela cyberfunk, acompanhamos Zuhri, detetive do Núcleo de Combate a Crimes de Ordem Ambiental-Humana, em sua investigação a respeito do assassinato do Dr. Diop, chefe de pesquisas de biolimpeza industrial da Alphabio Tech.

Em meio às tensões espaciais e sociais entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa, a detetive Zuhri precisará não só resolver o crime hediondo, mas também entender sua conexão com Ayomide, personagem que surge em sua história e lhe traz a certeza de que não está sozinha no mundo, nunca esteve. 

Ao falar sobre o que é o cyberfunk, Lu Ain-Zaila nos diz que “esta proposição não é uma simples mudança de ‘p’ por ‘f’, na verdade, ela vai muito além disso. A ficção especulativa afrofuturista abraça a ginga das periferias, das bordas e cercanias dos centros. Essa multidão antes coadjuvante, atrás dos balcões das noites de neon e hologramas, agora é a protagonista de sua própria saga por sobrevivência”. 

“Ìségún é meu passo além no afrofuturismo à brasileira, no campo da literatura especulativa negra, que mescla entre abebés e ofás pensadores negros e encruzilhadas epistemológicas, literatura periférica e poética social, pessoas negras que entendem o poder contido em suas raízes ou estão a conhecer”, afirmou a autora Lu Ain-Zaila.

O livro Ìségún pode ser adquirido pelo site da Livraria Monomito que está na pré-venda até o dia 16/11 com cerca de 266 exemplares, a um preço de exatos R$ 27,00.

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Maysa Lima

Sul mato-grossense, graduada em Ciências Sociais. Em busca de um mestrado que modifique ainda mais o meu modo de pensar e agir. Estudante do cenário religioso e político – principalmente ao que tange as Redes Sociais. Sonhadora e amante do universo.

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