Lagoa do Abaeté é ameaçada por obra pública

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Moradores de Itapuã lutam para preservar a lagoa que fomentou o sustento de muitas ganhadeiras negras e suas famílias na Bahia

A população luta para que o local, considerado ancestral e sagrado, não seja destruído. Fotos: Divulgação do movimento Abaeté Viva

A construção de uma estação de esgoto, de 240 metros quadrados, às margens da Lagoa do Abaeté, em Salvador, causa revolta nos moradores da região. Na última semana, eles protestaram pedindo o fim da obra. Os protestos acontecem desde o mês de maio, os moradores de Itapuã, bairro onde fica a lagoa, tentam impedir a operação. Após dois meses de paralisação, a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), empresa responsável, retomou a construção, na primeira semana de agosto.  

A Conder e a Empresa Baiana de Aguas e Saneamento S.A (Embasa), alegam que o sistema sanitário segue as diretrizes do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema). Em nota, as empresas garantiram estarem comprometidas com a preservação da Lagoa.  No início das obras, o Inema, órgão ambiental que administra a área, afirmou que a estação priorizará a segurança. 

“Esta estação elevatória moderna irá funcionar com uma tecnologia alemã, priorizando a questão da segurança e substituindo o já superado sistema de fossas existente, que exige, periodicamente, o esvaziamento por um caminhão limpa fossa”. 

Segundo a Embasa, a estação transportará esgotos dos estabelecimentos locais para o sistema de esgotamento central de Salvador. Os manifestantes pedem que as empresas considerem que a se trata de uma área de proteção ambiental (APA) e implementem um sistema sustentável com tecnologia segura, de baixo custo, sem impacto ambiental. 

Tombada como Patrimônio Cultural da Bahia, a Lagoa do Abaeté tem grande importância histórica, cultural, econômica e religiosa. Durante os séculos XIX e XX, mulheres negras sustentavam suas famílias com o dinheiro ganho lavando roupas nas margens da lagoa. Quando se reuniam, as Ganhadeiras de Itapuã cantavam samba, cantigas de rodas e dançavam. Hoje, um grupo, formado por lavadeiras e suas descendentes, luta para preservar essas tradições. 

Fabíola Campos, integrante do movimento Abaeté Viva, afirma que os moradores continuarão a proteger a Lagoa. “O Abaeté foi abandonado pelas autoridades, mas nunca pela comunidade que lutará por ele até o fim”, disse a moradora.

A obra no abaeté não respeita a preservação ambiental e ancestral

De acordo com o grupo Abaeté Viva, em outubro de 2019, frequentadores do Abaeté perceberam uma movimentação às margens da Lagoa, ao investigarem descobriram que a CONDER pretendia construir uma estação elevatória no local. Após mobilização contra a localidade da obra, foram estudadas medidas que respeitasse a preservação do meio ambiente, com apoio de especialistas em saneamento, para entender a questão.

A população questiona as autoridades pelo descaso com a importância da região, que abrigou o Quilombo do Buraco do Tatu no século XVIII. Foto: Reprodução

Moradores elegeram uma comissão para se reunir com Conder, Embasa e Inema a fim de obter informações sobre o projeto. No início de janeiro, o grupo protocolou uma denúncia no Ministério Público Estadual, alegando uma possível ilegalidade da obra e falta de audiência pública. 

Durante a pandemia, em maio, a Conder iniciou o trabalho, prometendo manter o diálogo com a comunidade e apresentar dois locais alternativos para implantação da estação. Em junho, trabalhadores da companhia cortaram a vegetação local. Moradores, artistas, líderes religiosos e agentes culturais fizeram uma manifestação impedindo a continuidade da obra e ressaltando a importância ambiental, religiosa e sociocultural do lugar considerado sagrado. 

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Louise Freire

Jornalista e apaixonada por livros. Concluiu sua graduação em 2016 e no mesmo ano estagiou em uma revista. Participou da produção de um programa da TV Brasil e trabalhou como produtora audiovisual.

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