Instalação de estátua de Iemanjá na orla de Santos é alvo de intolerância religiosa

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Imagem de Iemanjá não foi instalada na orla de Santos e já causa polêmica – Foto: Divulgação

Apesar de ainda não ter sido inaugurada, uma estátua de Iemanjá foi alvo de intolerância religiosa em Santos, no estado de São Paulo. A imagem de uma sereia negra, representando o orixá, seria instalada na orla de Santos, no último dia 2 de fevereiro, na 20ª procissão que ocorreu na Ponta da Praia. O evento reuniu cerca de cinco mil pessoas, segundo a prefeitura, mas a estátua não foi instalada.

Só a notícia sobre a colocação da imagem na orla da cidade foi o suficiente para que uma um abaixo-assinado online fosse criado. No texto da petição, o autor diz que o grupo é contra a colocação da estátua na orla e diz que o local, “por ser tombado e patrimônio histórico, não deveria ser usado para fins religiosos quaisquer, ainda mais com dinheiro público”.

A petição reuniu 8.871 assinaturas. Em seu perfil no Instagram, a Igreja Bola de Neves, na cidade de Santos, chegou a fazer uma postagem com a hashtag #respeiteonossojardim. Nela, disse que “quando simplesmente se faz uma obra que não vai oferecer absolutamente nada pra sociedade e caracteriza preferência por alguma religião específica, o setor público não deve se envolver”. Logo depois, o perfil tirou a postagem do ar.

Post da Igreja Bola de Neve no Intagram foi retirado do perfil – Foto: Reprodução Internet

O terapeuta holístico Caio Mimary, de 25 anos, que participa da organização da procissão de Iemanjá, disse, sem citar nomes, que um grupo de evangélicos fundamentalistas se aproveitou da não colocação da imagem para promover o ódio na internet. “Santos é a única cidade que ainda não tem a imagem de Iemanjá, que seria para representar o movimento negro, o empoderamento feminino, o candomblé. O projeto da instalação da estátua acontece há muitos anos com o babalorixá Marcelo de Logunedé à frente. Ano passado, ele conseguiu a petição das pessoas para colocarem a estátua e a prefeitura apoiou. É uma questão cultural e isso traz visibilidade para a cidade. Houve um problema com a documentação e isso impediu que ela fosse instalada no dia 2 de fevereiro. Um grupo de evangélicos fundamentalistas criou uma petição e fez esse alarde, dizendo que a estátua não poderia ser colocada num jardim público, que tinha desvio de verba. Mas a estátua tem iniciativa privada. Em nenhum momento, entrou verba do poder público”, garante Caio.

O presidente da procissão de Iemanjá, Marcelo de Logunedé, disse que um novo projeto de lei deverá ser criado para que a estátua seja instalada: “Um projeto de lei foi feito há dois anos, mas tinha prazo. Agora, será preciso um novo projeto de lei para ser votado na Câmara”, afirmou.

Imagem da procissão de Iemanjá na orla de Santos – Foto: Divulgação

Para Caio Mimary, a reação de um grupo de evangélicos contra a estátua de Iemanjá é um ato de intolerância religiosa: “Entrei em contato com a OAB e pedi apoio. Se o estado é laico e hoje tem placa dizendo que a cidade pertence a Jesus Cristo, qual o problema de ter uma sereia negra? É muito doloroso isso para a gente, enquanto povo de matriz africana. Há 20 anos, fazemos a procissão e não temos um modelo, um foco para gente parar. Nos baseamos pelo Aquário de Santos”, disse o terapeuta.

Em nota, a Prefeitura de Santos disse que “o trabalho artístico já está finalizado. Estão sendo definidos ajustes dos últimos detalhes técnicos e legislativos para a sua instalação no local”. A Igreja Bola de Neve foi procurada, mas não respondeu

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