“Colocar a vítima no lugar de oportunista também é uma atitude racista”, diz advogada que processa Luisa Sonza por racismo

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Entrevista exclusiva

O que fez com que ela (Luisa Sonza) pensasse que eu só pudesse ser, naquele lugar de rico,a empregada?”. Esta é a pergunta que a advogada Isabel Macedo, de 40 anos, se faz desde o dia 22 de setembro de 2018. Nesta data, a advogada comemorava seu aniversário em uma pousada, na ilha de Fernando de Noronha e a cantora Luisa Sonza ordenou que ela a servisse. 

O caso, que aconteceu há dois anos e nunca foi divulgado, nem pela artista e muito pela vítima, veio à tona na última quinta-feira (17) após um jornalista publicar uma nota.

Em entrevista exclusiva ao Portal Notícia Preta, a jurista explica o que ocorreu naquela noite: “Ao voltar do banheiro fiquei próxima do palco para ouvir a música. Era meu aniversário, eu tinha viajado sozinha e estava dançando, me divertindo e aproveitando a festa. Por um acaso parei atrás da Luisa. No evento tinham vários famosos, mas nem sabia quem era ela. Nunca tinha ouvido falar. Foi então que ela virou, bateu no meu ombro e disse “Pega um copo d’água pra mim?’. Eu respondi que não  tinha entendido, ela repetiu a frase e completou ‘Você não trabalha aqui?’”.

Após a indagação da cantora a advogada questionou o por que da loira supor que ela trabalhasse servindo as pessoas na festa. Segundo a advogada, foi então que Luisa disse ‘Não é isso que você está pensando’. 

Na hora eu disse a ela que ela nunca sentiria o que eu estava sentindo, pois ela nunca seria confundida com as pessoas que servem nas festas que ela frequenta. Não é demérito algum ser empregada, eu mesma já fui doméstica, a questão é por que a branquitude sempre nos enxerga nessa posição de serviçal? Por que nos entendem como pessoas que só podem servi-los mas nunca como pessoas que podem consumir, viver e viajar como eles?”, questionou Isabel.

A jurista conta que mesmo tremendo voltou para sua mesa, pediu a conta, e conversou com o garçom que ao vê-la, nervosa com a situação, tentou acalma-la mas, por também ser um homem negro e precisar daquele emprego não poderia ajuda-la.

No dia seguinte, ainda muito abalada a advogada até tentou se divertir com os amigos que fez no hotel onde estava hospedada, mas não conseguia. Ao entrar nas redes sociais de uma atriz, que ela já seguia e que estava no evento, Isabel viu o vídeo onde ela aparece justamente atrás de Luisa Sonza, minutos antes de ser ‘confundida’ com uma funcionária do hotel.

A jurista decide registar o caso na delegacia onde, mais uma vez, sofreu preconceito: “A inspetora, uma mulher loira, começou a dizer que eu não era negra, que eu era morena, que não era  bem assim. Eu querendo registrar como racismo e ela querendo dizer que era injúria racial. Consegui fazer o boletim de ocorrência como racismo e anexei os prints que fiz do story de uma artista, onde eu aparecia atrás da Sonza”, conta.

A jurista explica que nunca tornou o caso público por não querer visibilidade e sim justiça: “Eu acionei o judiciário para que ela pague pelo que fez e entenda que isso não pode se repetir. A minha intenção com a ação é que isso tenha um caráter pedagógico, embora não tenhamos obrigação alguma de ensinar nada ao branco. Minha intenção com essa ação é que ela aprenda. Não quero e nem vou me expor na mídia, pois sei que o sistema racista, muitas vezes, coloca a vítima no lugar de culpada e oportunista, e isso também é uma atitude racista. Racismo não é vitimismo, é crime”.

A advogada Jéssica Silva de Oliveira, que está à frente do caso de Isabel, destaca que existem vários fatores que dificultam a aplicação da legislação antirracista no Brasil, mas que isto não deve impedir a vítima de pedir reparação: “Esses fatores vão desde dificuldade de acesso à justiça até a baixa representatividade de pessoas negras no âmbito do poder judiciário. Estamos falando de um poder judiciário que é composto 85% por pessoas brancas. Falo isso no sentido de demostrar como nós ainda temos um caminho muito longo a percorrer até conseguir de fato uma reparação justa para esses fatos de grave ofensa a dignidade da pessoa humana“, explica a advogada.

É urgente descortinar esta narrativa descriminatória que reserva as pessoas negras um lugar de subalternidade. De modo que a presença de uma mulher negra em um lugar elitista, conforme foi o caso, é concebida como uma afronta ao padrão de normalidade instituído“, explica a jurista Jéssica Silva de Oliveira.

O que Isabel deseja agora é que o caso seja concluído e sirva de exemplo e incentivo para todos os negros e negras que sofrem diariamente com o racismo: “Já que isso tudo veio à tona e ganhou mídia, espero que sirva de incentivo para encorajar todas e todos aqueles que forem vítimas de racismo, a denunciar. Não podemos ficar calados, porque a dor que nós sentimos não passa nunca”.

Por meio de nota, a assessoria de imprensa da cantora classificou o fato como oportunismo.

A assessoria jurídica da artista Luísa Sonza, através do seu advogado José Estavam Macedo Lima, vem a público informar que tomou conhecimento do referido processo pela mídia. Que a cantora até a presente data não foi citada de nenhuma ação que venha a lhe imputar o fato que está sendo noticiado. Que as acusações são falsas, inverídicas e vêm em um momento oportunista em razão do crescimento exponencial da carreira da artista. Informa, ainda, que nunca ofendeu ou discriminou qualquer pessoa.

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Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e com especialização em audiovisual pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, assessora de imprensa e idealizadora do portal Notícia Preta, um site de jornalismo colaborativo. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

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