‘A gente fica desestruturado quando o Estado invade nossas vidas’

As histórias de Bruna da Silva, Monica Cunha e de tantas outras mães que, diante do luto, encontraram na militância força para viver sem os filhos assassinados pelo Estado

Bruna Silva, mãe do adolescente morto na favela da Maré com uniforme da escola

A dor une

“É na luta que a gente se encontra” se tornou o lema de mães que tiveram os filhos assassinados pela polícia e, pela morte, transformaram o luto em luta. Tanto Bruna da Silva, que chegou há menos de 10 meses, quanto Monica Cunha, que há 13 anos faz parte da militância, se reconhecem na causa.

O Estado, que mal resolve 10% dos casos de homicídio, cultiva a revolta de mães que ,como resposta, se organizam contra o mecanismo de descaso do sistema.

A participação conjunta em manifestações e todos os momentos de troca de experiências e afeto despertam nessas mães a vontade de lutar contra o racismo do Estado que, segundo Bruna, leva na bandeira- ou na camisa escolar- o vermelho do sangue de jovens negros.

“É pela dor que eu acordo todos os dias”

Bruna Silva, mãe de Marcos vinícius

Foi assim que a mãe de Marcus Vinícius, adolescente de 14 anos morto no caminho para a escola, começou a entrevista.
Mulher franzina, média estatura e pouco vaidosa: é assim que Bruna da Silva se apresenta ao mundo.

Atualmente desempregada, mas cujo ofício é no trabalho doméstico, Bruna procura conciliar a vida entre cuidado e militância. Mãe de Maria Vitoria, de apenas doze anos, a jovem mulher se desdobra para cuidar da filha, da casa e, atualmente, da luta pela vida de outros jovens que estão na mira do Estado.

“Mais uma mãe revoltada, uma pergunta sem resposta
Como o policial não viu seu uniforme da escola?
Vinícius é atingido com a mochila nas costas
Como é que eu vou gritar que a Favela Vive agora?”

A música Favela Vive 3, do grupo ADL MC’s, retrata a vida do favelado. A jornada dupla da mulher do asfalto é desgastante, mas a mulher do morro enfrenta mais um desafio: o de manter seus filhos vivos.

Apesar de Marcus Vinícius ser conhecido por sua personalidade tranquila, os episódios de violência policial na favela criaram em Bruna o medo de reconhecer o jovem perante a justiça. “Meu filho me cobrava o RG mas eu dizia que se fizesse o documento seria uma chance pra ele pensar que já era homem, sair pra longe e, Deus o livre, levar uma dura da polícia”, relembrou.

Embora não concordasse com as atitudes dos policiais na favela, Bruna ensinou seu filho a respeitar os cana, já que, para ela, o tom negro da pele é premissa para que a polícia atire e depois pergunte- e foi isso que aconteceu.

A vida de Bruna da Silva, assim como de tantas mães que perderam seus filhos, mudou de uma hora para outra. À época trabalhava em uma casa de família, mas saiu do emprego para correr atrás de justiça para Marcus Vinícius.

Logo após o acontecido, Bruna foi encaminhada à Alerj onde conheceu Monica Cunha, responsável pelo atendimento às vítimas secundárias, e encontrou o afago de uma mãe que conhece a dor de perder o filho para o Estado.

 O apoio emocional funcionou como empurrão para encaminhar Bruna à militância, onde encontrou apoio de outras mães e, ao mesmo tempo, força para lutar contra o genocídio de jovens periféricos.

“Essas perdas nos fazem entrar na universidade e sairmos doutorandas para falar sobre nossas histórias. Isso quer dizer reparação, mas essa reparação o Estado não nos deu, nós adquirimos quando o Estado nos violou”

Mônica Cunha – Foto: Ponte.org

Ao lado direito de Bruna estava Monica Cunha. A mulher negra, vaidosa e de voz potente é mãe de Rafael da Silva Cunha, assassinado há 13 anos com um tiro no estômago, por um policial civil.

Rafael, filho do meio de Monica, era o elo entre seus dois irmãos e, embora tenha passado pelo sistema socioeducativo, nunca perdeu a ligação com a família.

Apesar da personalidade amável, o sistema provocou mudanças- tanto física quanto comportamental- em Rafael. Essa transição fez Monica perceber que seu filho se tornara produto do sistema que passa longe da justiça. Ao entender que essas modificações eram comuns a todos os internos, Monica Cunha se mobilizou com outras mães e, dominicalmente, promovia rodas de leitura do Estatuto da Criança e do Adolescente.

“Um agente socioeducativo me deu o Eca. Ele me deu o livro aberto na página ‘Adolescente de Ato Infracional’. Ali eu percebi que aqueles garotos tinham direitos, mesmo sendo autores de atos infracionais”

Mônica Cunha

Em cima de uma pedra localizada na frente do Degase de Bangu, bairro da Zona Oeste carioca, Monica- que tinha um nível de leitura maior-  devorava cada parágrafo para o grupo de mães que ouvia atentamente e, a cada dúvida surgida, anotavam para perguntar ao agente judicial. A partir dessas rodas improvisadas de leitura surgiu o Movimento Moleque, organização que presta apoio a mães de vítimas de violência no sistema socioeducativo.

A sensação de impotência foi, gradativamente, substituída pelo sentimento de poder frente à união de mães que, apesar do medo de repressão, lutam diariamente contra a violência da polícia que mais mata.

Monica Cunha reconhece que, com o avanço da idade, se torna cada vez mais difícil seguir na linha de frente da militância. Por outro lado, vê com certa tranquilidade o preparo de mães como Bruna da Silva, que apesar da pouca idade, aprendeu a viver com a dor e usá-la como combustível para a luta “Eu não queria que mais mães entrassem na militância porque perderam seus filhos, mas já que é assim, fico mais tranquila porque pelo menos elas estão encaminhadas e sabem o que deve ser feito”, afirmou Monica.

O Estado adoece

Embora tenha apenas 36 anos, Bruna da Silva constantemente se desculpava por esquecer o que havia dito, e afirmava “O Estado fez isso comigo”.  A jovem mãe, apesar da dor, concentra esforços para lutar pela vida de sua caçula “O Estado tirou meu filho Marcus Vinicius, agora eu tenho que resistir pra não me tirar a Maria Vitoria”.

Monica Cunha, ainda que conviva com a depressão há 13 anos, afirma ser uma luta diária para se manter viva “Infelizmente a vida continua. Não posso me dar ao luxo de ter depressão todos os dias. Não tenho dinheiro pra isso”.

“Mirar na cabecinha” de jovens, para Monica, foi a saída achada pelo Estado a fim de parar a juventude potente que vem da favela. Por outro lado, a dor que une os familiares os torna cada vez mais potente nas ruas e, principalmente, nos órgãos de justiça. Apesar de parecer pequeno, o grupo conta com núcleos em diversos territórios da cidade e, assim, pensa em medidas de redução de danos. Para Bruna, é importante que o favelado se mobilize em seus territórios e se articule silenciosamente, afinal não se conspira em praça pública.

Ana Paula Souza

Estudante de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e trabalha como jornalista da Agência Narra, cuja sede é o Observatório de Favelas.

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