Coronavírus: a dimensão racial da pandemia

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Por:

Seimour Souza – Cientista Político e coordenador da UNEAFRO-RJ, NICA-Jacarezinho

Renata Souza Deputada Estadual (Psol/RJ) e jornalista


Homem usa máscara e luvas cirúrgicas para proteger-se do coronavírus na África do Sul – 19/03/2020 Themba Hadebe/AP

A medida em que a pandemia do novo coronavírus, tem avançado desenfreadamente por todo mundo, em especial nas Américas e na África, temos de modo ainda incipiente começado a dimensionar o quão devastador será pandemia para milhares de vidas nesses continente, em especial nos países mais pobre ( e negros) do mundo.

O coronavírus, até onde se sabe, tem se alastrado pelo mundo independente de raça ou classe social, os países mais penalizados por essa nova pandemia tem sido nesse momento, principalmente países da Europa, como Itália, Espanha e França, mas nos últimos dias os Estados Unidos têm se tornado o principal foco, com centenas de mortos e milhares de novos infectados todos os dias. Na África, com a propagação nas últimas semanas até 10 vezes mais rápido do que no início da pandemia, o vírus está presente em 50 países do continente, que conta com mais de 5 mil infectados e 280 mortes.

Com o sistema de saúde extremamente precário e altamente demandado, o novo coronavírus pode atravessar o continente africanos como um raio, e fazer um verdadeira hecatombe em diversos países. A República Centro-Africana, país com com mais de 5 milhões de habitantes, e que 70% do seu sistema de saúde vem de ajuda de externa, conta hoje com apenas 3 ventiladores mecânicos para as vítimas da Covid-19¹.

O que têm acontecido com a população negra na diáspora, no que tange o acesso ao sistema de saúde e prevenção ao coronavírus não é tão distante. No estado do Michigan, nos Estados Unidos, onde apenas 14% dos moradores locais são negros, eles representam 35% dos infectados e mais 40% dos mortos. O abismo social e o não acesso igualitário ao sistema de saúde, que no caso estadunidense é privado, e não universal, têm aumentado cada vez mais a distância entre aqueles que podem e os que devem morrer.

Ainda nessa semana, nos chocamos com as imagens vindas do Equador, de dezenas de corpos nas ruas e calçadas, à espera do recolhimento, depois que o sistema funerário colapsou. No Equador existe uma população estimada de mais de um milhão de afro-equatorianos, e é justamente na província com maior número de infectados e mortos, que se encontra mais de 33% (ou ⅓) dessa população, logo, não é tão difícil deduzir quem têm sido as primeiras vítimas fatais dessa pandemia, que ainda nem chegou no seu ponto mais alto na América Latina.

O Brasil, é o país com o maior número de negros fora de África, têm enfrentado a mais de um mês os efeitos do novo coronavírus, com um número cada vez maior de infectados e mortos. Foi no Rio de Janeiro que se registrou uma das primeiras vítimas fatais da Covid-19, uma trabalhadora doméstica negra, que foi infectada por sua patroa, que após uma viagem a Europa testou positivo. Hoje a trabalhadora se encontra morta, e a patroa curada e viva.

Discutir as dimensões e dilemas raciais, diante uma pandemia sem precedentes na história recente da humanidade, nos traz a um grande desafio que é pensar estratégias e saídas menos mortais para população negra e pobre do mundo, em especial do Brasil, que se encontram em maior vulnerabilidade nas favelas e periferias. Frantz Fanon, em “Condenados da Terra”, traça a dualidade da sociedade de classes colonial e capitalista, essa dualidade, a linha da intransponibilidade entre a zona do “ser” e “não ser”, precisa ser quebrada, furada e arrebentada, é necessário que em momentos crises, como o que vivemos agora, o estado garanta sua capacidade de absorção dos conflitos, que são inerentes a sociedade e se comprometa a assegurar o maior acesso possível das camadas pobres as medidas de prevenção, de cuidados paliativos e os meios necessários para que esse povo possa se alimentar dignamente.

O coronavírus não escolhe quem ele vai matar, mas os Estados têm escolhido quem pode morrer. Em tempos de necroliberalismo¹, em que vivemos um estágio da desagregação da sociabilidade e da decomposição das estruturas sociais, não podemos aceitar que a necropolítica, de administração da morte, que é pautada por critérios sociais e raciais, seja método adotado nem neste, e nem em qualquer outro momento.

¹ Dados do Conselho Norueguês para Refugiados
² Termo utilizado por Achille Mbembe em uma recente entrevista a Folha de São Paulo em (30/03/2020)

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Seimour Souza

Estudantes de Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Ativista de Direitos Humanos e membro do Coletivo Negro Luiza Mahin.

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